1 - COMO TUDO COMEÇOU

        Primeiro de dezembro de 1997, estávamos voltando para Brasília depois do nosso primeiro fim de semana na fazenda e conversávamos sobre nossos planos de viagem para o verão que estava se aproximando. Nessa época estávamos trabalhando em lojinhas de roupas em shoppings da cidade. Monclair estava juntando dinheiro para subir o nordeste de bicicleta e eu já estava com a viagem paga para ir sozinha fazer a trilha para as ruínas Incas de Machu Pichu. Nossos planos até então não tinham nada em comum, estávamos no nosso primeiro dia de namoro e tínhamos acabado de combinar que estaríamos juntos enquanto fosse “onda boa”.

            No nosso relacionamento tudo aconteceu muito rápido. Uma noite estava com a Cinthia, uma amiga, na porta de uma boate alternativa na Asa Norte esperando o Fábio, um amigo para o qual eu tinha prometido dois convites. Eu sempre ganhava convites para essas coisas legais. Nessa espera, encontramos um outro amigo, o Goiaba, que estava com o Monclair. Ele ficou pedindo os convites que estavam comigo um tempão e combinamos que se o Fábio não chegasse até meia noite, daria os tais convites para eles. Nessa noite, o Fábio bateu o carro saindo da 109 sul para a tal boate, não foi nada sério, mas tiveram que chamar a polícia e etc. Conclusão, não chegou até meia noite e, como combinado, dei os convites para eles. Foi assim que a gente se conheceu.

            No dia seguinte, fui para o Spettus, um barzinho da cidade, encontrar uma amiga, a Melina, para irmos juntas ao Festival de Cinema de Brasília. Quando estávamos já do lado de fora, o Monclair apareceu. Lembro que ele estava vestindo uma camiseta toda colorida com uma estampa do Bob Marley se transformando em um leão, achei linda e comentei com ele. Ele também estava indo para o Festival e só tinha passado lá para ver se tinha alguém conhecido, então decidimos ir com ele e deixar nossos carros lá. Ele tinha um fusca vermelho ano 1966, todo original, bancos de couro branco e tudo mais, uma graça.

            Brasília era uma grande cidade do interior, então ao chegar ao Cine Brasília, local do Festival, encontramos vários amigos em comum e ficamos sabendo de uma festinha na UnB (Universidade de Brasília) e todos estavam indo pra lá. Depois do Festival, voltamos para o Spettus para pegar nossos carros e decidimos jogar um pouco de sinuca. Eu e a Melina éramos imbatíveis na sinuca. Conversa vai, conversa vem, jogo vai, jogo vem e a Melina entrou numa onda de que estava sobrando. Até o momento, o Monclair pra mim era somente mais um cara legal que estava virando amigo. Eu sempre tive muitos amigos, tenho mais facilidade de fazer amizade com homens, mulheres são muito encrenqueiras e complicadas rsrsrs. Eu até fiquei chateada com a atitude dela, tentei explicar que não tinha nada a ver, mas ela preferiu ir embora.

            Eu e o Monclair jogamos mais uma partida e decidi abortar a missão de ir para festa. Ele foi me deixar no carro porque já era tarde para eu ir sozinha. Chegando lá, ele me surpreendeu com um beijo. Foi um beijo diferente, não sei, alguma coisa mexeu dentro de mim. Não foi um simples beijo, foi um BEIJO!! Mudei de idéia e fui para a tal festa com ele.

            A festa estava uma porcaria, talvez pelo tarde da hora. Sentamos em um meio fio perto do carro e conversamos até quase amanhecer o dia. Conversávamos sobre tudo, principalmente viagens. Ele contava sobre a viagem que ele tinha feito em um Fiat 147 com dois amigos, o Cláudio e o Olavo, para o nordeste no verão anterior. Contava sobre a ida dele para Machu Pichu com o Cláudio,entre outras. Eu falava do meu intercâmbio para os EUA; do tempo que eu passei na Chapada dos Veadeiros; da minha ida, aos 14 anos para Alemanha e para Áustria acompanhar o Holiday on Ice com meus primos que trabalhavam lá. Nunca tivemos muito dinheiro, nessa ocasião, por exemplo, eu troquei o dinheiro que minha mãe tinha juntado para minha festa de 15 anos por essa viagem. Já para fazer o intercâmbio, usei o dinheiro que estava na poupança para comprar o meu carro quando fizesse 18 anos.

            A cada minuto encontrávamos uma coisa em comum ou uma coisa para admirar um no outro. Era como se não quiséssemos que a noite acabasse. De tempos em tempos, um amigo em comum sentava e conversava um pouco com a gente. Nossa como tínhamos amigos em comum! Como nós não nos conhecíamos antes?

            Na verdade, eu sempre soube da existência de um Monclair por causa do nome, até hoje não conheço outro, a não ser o tio dele rsrsr. Ouvia histórias como quando ele caiu de skate a 50km/h na descida da 26 do Lago Sul, ou quando ele foi atropelado por um ônibus de bicicleta, ou quando ele “catou” um bueiro também de bicicleta. Histórias como essas normalmente são contadas com um pouco de exagero e muita emoção, e com esse nome...impossível não lembrar.

            No sábado acordei tarde, não tirava o Monclair da cabeça, fui trabalhar e pensava em como ele era diferente de todos os outros caras que eu já tinha conhecido. Ele não se preocupou em ficar me agarrando, ele queria me conhecer, queria saber mais sobre cada uma das minhas histórias e é claro, eu sobre as dele. Tinha um papo interessantíssimo. Às vezes, me encontrava me obrigando a não pensar nele para não criar expectativas.

            De noite, eu e a Cinthia fomos para o Festival, mal chegamos e ele veio me cumprimentar. No fundo eu sabia que ele estaria lá, porque, como eu, ele sempre acompanhava o Festival. Nessa noite tinha um tributo a Chico Science naquela boate que nos conhecemos. Ele perguntou se eu ia e me aconselhou a deixar meu carro em casa (que era do lado do Cine Brasília) que ele me deixaria de volta depois. Até comentei que a Cinthia estava comigo, e ele gentilmente disse que a deixava também. Fui às nuvens, o interesse era recíproco, com tão pouco tempo, tinha impressão que nos conhecíamos tão bem.

            A festa foi o máximo, dançamos a noite inteira, também, como não dançar ao som de Chico Science? Ao sair da boate faltava pouco para amanhecer. Fomos deixar a Cinthia em casa, há essa hora ela já tinha desistido de ir comigo para fazenda como havíamos combinado, mas eu tinha que ir, nem lembro por que. Não lembro também como foi que decidimos, mas às seis da manhã estávamos, eu e Monclair, indo para fazenda no seu fusca 66. Não conseguíamos nos desgrudar. Combinei que falaríamos que ele era meu namorado, imagina explicar para meu pai e toda família que eu o conhecia há três dias.

            Estávamos mortos, tomamos café da manhã com todos e fomos dormir. Ficamos em um quarto com três camas de solteiro, eu me deitei em uma e ele na outra, apesar do sono, nos revirávamos na cama sem conseguir dormir, foi quando ele tomou coragem e disse:

            _ Vem deitar comigo.

            Não pensei duas vezes, pulei para cama dele, ele me abraçou e dormimos em um segundo. Era domingo e a casa estava cheia então nosso sono não durou muito, mas o suficiente para descansar. Levantamos e fomos curtir meus irmãos, tomar banho de rio, visitar minha avó. Tudo estava tão bom que todos foram embora e decidimos passar mais uma noite e voltar antes da hora de trabalhar segunda-feira.

            Dona Lozinha, mãe da Nilza (segunda esposa do meu pai) era a dona da casa e como uma avó pra mim. Passei várias férias naquela casa e incontáveis fins de semana, e ela sempre tratou, eu e a Teca, minha irmã do primeiro casamento do meu pai, como netas. A minha avó, mãe do meu pai, morava em uma casa a 3 km dali, mas a casa da Dona Lozinha sempre foi mais animada e ela gostava de gente lá.

            Nessa noite, ela falou para a gente dormir no quarto de casal que já estava vazio e ia ficar melhor pra gente. Acredito que ela tenha visto os dois dividindo uma cama de solteiro e ficou com pena, mal sabia ela que estava muito bom ali abraçadinho. No começo fiquei com vergonha de aceitar, porque, na verdade, ele não era meu namorado (ainda), mas aceitamos.

            Essa foi nossa primeira noite juntos e foi nessa noite que decidimos ficar juntos enquanto aquela “onda boa” continuasse rolando.

            Chegando em Brasília, cada um foi para sua casa se arrumar e trabalhar. Uma história começava ali.

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