10 - HAMAT DAVID

         

        Trabalhei a semana inteira nas “vacas”. Na quarta feira à noite decidimos ir para o Hamat David, aquela boate no kibutz vizinho que ainda não tínhamos conseguido ir. Antes o Duda e o Romero foram lá para o quarto e bebemos uma garrafa de vodka sabor melão, uma delícia. Alcoolicamente alterados, pegamos duas bicicletas do kibutz emprestadas (sem avisar) para ir, afinal de contas já era tarde demais para pegar carona na estrada e andar naquela situação...a gente nem arriscaria, pois não chegaríamos nunca. Éramos quatro e duas bikes, então o Monclair me carregava no guidão e o Duda carregava o Romero. O caminho foi divertido, apesar de eu estar morrendo de medo, afinal de contas, tínhamos que pegar a estrada. Os meninos caíram, no estilo “Os Trapalhões”, mas não aconteceu nada. Tinha que ter um aviso nas bicicletas “Se beber, não pedale”.

Ao chegar, escondemos as bikes num canto do estacionamento e entramos. A boate era muito legal, todos os voluntários do Sarid e dos kibutzim vizinhos estavam lá. Não só os voluntários, mas os jovens daquela base do exército, além de outros jovens da região. Falamos com todo mundo, conhecemos o local e depois de um tempo, eu e o Monclair fomos para o bar e tomamos uma dose de tequila cada um, como se a vodka não bastasse. A maior parte do tempo tocava música eletrônica, nós dois dançamos muito. Apesar da boate estar cheia, eu e o Monclair dançávamos como se só tivesse nós dois, dançávamos um com o outro, dançávamos um para o outro. Estávamos muito felizes e passamos um bom tempo ali dentro de nossa bolha invisível.

Quando voltamos à realidade, percebemos que o Duda e o Romero tinham sumido, mas pensamos que estavam com umas gatinhas em algum lugar, afinal, estavam fazendo o maior sucesso entre as européias. A boate começou a esvaziar e não tinha mais ninguém conhecido, e nada dos meninos aparecerem. Quando saímos, vimos que eles não tinham levado a bicicleta que eles tinham trazido, ou seja, eu teria que pedalar de volta para o Sarid. A vodka e a tequila ainda estavam agindo bem e eu não tinha condições de andar naquela bike. Para melhorar a situação, nos escondemos um pouco mais e colocamos o dedo na goela para vomitar o que ainda não estava no sangue. Não sei se foi psicológico, mas ajudou muito, pegamos as bikes e pedalamos pela auto-estrada, em direção ao nosso kibutz. Ao chegar, devolvemos as bicicletas e fomos dormir, pois já era madrugada.

Não tínhamos a menor idéia do que pudesse ter acontecido com os meninos, porque eles tinham desaparecido sem nos comunicar, mas depois da experiência em Megguido, alguma coisa nos dizia que estava tudo certo. Até podia imaginá-los jogando uma moeda para cima e dizendo, “Se for cara, vamos de bike e se for coroa, pegamos uma carona”.

            No dia seguinte ficamos sabendo que os meninos tinham sido expulsos do Hamat David. Nos disseram que o Duda se pendurou num globo de espelho pendurado no teto da boate e foi convidado pelos seguranças a se retirar, o detalhe é que os seguranças não falavam inglês, os meninos não entenderam nada e deu a maior confusão. Até que eles carregaram o Duda para o lado de fora, o Romero tentou impedir, mas não conseguiu. Do lado de dentro, ele começou a imitar um burro dando coice, que tinha sido a única forma que ele tinha encontrado de expressar seus sentimentos em relação ao tratamento recebido. Logicamente, ele foi colocado pra fora também, mas só depois de uma sprayzada de pimenta para ele se controlar. Eu gostaria muito de ter visto essa cena, que coisa de maluco, às vezes o Romero realmente me surpreende. Eles foram embora de carona com um pessoal que estava lá e que também achou os seguranças meio estúpidos. Nessa carona eles levaram um filhote de waimarander desconhecido que entrou no carro com eles. Além de toda a confusão, agora eles tinham um cachorro para devolver.

Não sei como resolveram a questão do cachorro, mas no final tudo deu certo.

PRÓXIMO CAPÍTULO - AKKO