12 - NAHARYA

 

         Dessa vez eu e o Monclair pegamos carona com um homem jovem, entre seus vinte e cinco e trinta anos, típico israelense com um rabinho de cavalo. Como eu falo mais, normalmente eu sentava na frente e o Monclair atrás, assim eu ia conversando com as pessoas que nos davam carona e dessa vez não foi diferente. Ele parou o carro, colocamos as mochilas no banco de trás, o Monclair entrou e quando ele foi tirar uns livros que estavam no banco da frente pra eu sentar, tinha uma arma. Não sei dizer se era um revolver ou uma pistola, mas acho que era uma pistola, só sei dizer que era uma arma. Gelei. Sentei e ele começou a dirigir. Falei pro Monclair em português e ele pediu pra eu relaxar e fingir que não viu nada. Tentando disfarçar o desconforto, comecei a conversar com o cara que na verdade não estava me dando muita bola.

            De repente o telefone celular dele tocou e ele mudou a fisionomia e o tom de voz, falava como se estivesse brigando, dando ordem, sei lá. Os telefonemas se repetiram até que ele fez o retorno e voltou, disse que ia deixar a gente a onde a gente quisesse, mas precisava passar em um lugar antes, sem falar mais nada continuou dirigindo mais rápido. Continuava falando em hebraico na porcaria do telefone, foi quando ele saiu da principal e entrou em uma estradinha. Eu e o Monclair estávamos calados, pálidos. Então, ele parou enfrente a uma casa de muros altos em um lugar meio deserto e próximo ao mar, saiu do carro e disse para não sairmos que podia ser perigoso. Ao mesmo tempo em que suas palavras nos assustaram, seus atos nos acalmaram. Ele saiu do carro deixando a chave na ignição e a tal arma do lado do banco onde ele a tinha guardado. Ficamos ali parados e tentando entender o que estava acontecendo, enquanto o tal cara colava uns adesivos em todas as portas de acesso a casa. Adrenalina a mil. Pensamos em sair de lá, mas pra onde?

            Quando ele voltou para o carro, nos encontrou assustados e com grandes pontos de interrogação na testa e decidiu se explicar. Falou que trabalhava para a Inteligência Israelense e estava em uma missão de trabalho. Falou também que morava em Nahariya e que nos deixaria lá. O tom de voz mudou de novo e ele ficou bem simpático, conversamos até chegar lá, ele foi tão legal que nos mostrou uma praia em um bairro da cidade que poderíamos dormir sem ninguém nos incomodar e depois nos deixou em um supermercado para compráramos a janta.

            Nahariya foi uma das primeiras colônias judias da Galiléia. Na época era um dos locais de praia mais procurado, por causa da areia fina e a boa agitação das ondas, para a prática do windsurf. Nos finais dos anos 50 encontraram restos de um templo cananeo e de um templo fenício dedicado a Astarté, a Deusa do amor e da fecundidade, razão pela qual os recéns casados procuram estas praias, para passar sua lua de mel. Que romântico rsrs A cidade tem uma avenida muito simpática que dava na praia e pra variar encontramos o Duda e o Romero sem muitas dificuldades e na mesma avenida, o supermercado.

            Compramos pão e o que pudesse combinar com a comida que trazíamos do Kibbutz, principalmente tomate e pepino. De lá andamos para a praia que o cara tinha indicado. Armamos as barracas, preparamos o jantar e comemos ali, na frente do mar. Realmente ninguém incomodou a gente, mas um caminhão cheio de gente do exército parou, iluminou as barracas, olhou, olhou e foi embora.

Sou calanga do cerrado, era a primeira vez na minha vida que ia dormir na praia, na areia, ouvindo o mar. Estou falando de praia de verdade, o Lago Kineret não vale (Mar da Galiléia). Sempre levávamos duas barracas, uma para eu e o Monclair e outra para os meninos. E se dormir com o barulho das ondas é bom, acordar, abrir a barraca e dar de cara com o Mediterrâneo é melhor ainda.

No dia seguinte, acordamos, preparamos o nosso café da manhã, desarmamos as barracas e voltamos para a estrada, o destino ainda era Rosh Hanikra.

            Então, seguimos para Rosh Hanikra na fronteira com o Líbano. "Rosh Hanikra" pode ser traduzido como a "cabeça da gruta", uma formação geológica na costa do Mediterrâneo, onde existem grandes penhascos brancos e grutas esculpidas pela água. Dá pra chegar até as grutas por um teleférico. Ainda dá pra ver o antigo túnel, por onde passava a estrada de ferro que unia Beirute com Haifa, usado muito no domínio britânico, principalmente durante a primeira Grande Guerra. Lá no alto, tinha um restaurante, onde tem uma vista maravilhosa de Israel, do Líbano e do Mar Mediterrâneo que não cansava de nos encantar.

            Mas na verdade, quando chegamos lá, percebemos que o pouco dinheiro que a gente tinha, não daria nem pra chegar perto do teleférico. Ou seja, a principio nós tivemos aquela sensação de viagem perdida. Sem stress, decidimos almoçar nossos pães, tomates, pepinos e queijo, ali mesmo no estacionamento de entrada, nossa cara de pau já não tinha mais limites (rsrsrs). E por ali ficamos por um bom tempo, só esperar o Duda escovar os dentes era tarefa para meia hora. Aproveitamos para nos dar o luxo de sustentar nosso vício pagando seis shekels por uma coca-cola 600 ml, o que seria equivalente a seis reais na época.

            Dentes escovados, estávamos prontos para mais uma jornada de caronas de volta para o kibbutz, porque dessa vez estávamos longe mesmo. Para nossa surpresa, encontramos o Grão de Bico. Lembram do Grão de Bico? Aquele israelense que morou no Brasil para aprender capoeira que conhecemos na roda de tambores quando estávamos em Tel Aviv e nos convidou pra um churrasco regado à capoeira e caipirinha, que eu não fui porque estava doente. Pois é, coincidência? Prefiro acreditar na “mão invisível”.

            Ele já desceu do carro tocando birimbal e vestindo uma camiseta escrita em português “Capoeira Resistência”. Ele estava com um rapaz que tinha apelido de Lobinho que não falava português, mas jogava e cantava capoeira como um brasileiro. Logo todos se posicionaram naturalmente em uma roda no estacionamento e começamos a cantar musicas de capoeira em português.

            Eles estavam ali para fazer uma apresentação de capoeira para a base do exército que ficava na fronteira. Na mesma hora, eles nos convidaram para participar e tivemos o privilégio de entrar no prédio do exército israelense, como convidados especiais brasileiros. Chique, né? Lá dentro, assistimos a quase duas horas de apresentação teórica de capoeira em hebraico e o Duda foi convidado para fazer parte da apresentação e nos apresentar pra platéia. Ora jogava Duda e Grão de Bico, ora Grão de Bico e Lobinho, ora Lobinho e Duda. Foi bem cansativo, mas foi muito legal e ainda nos valeu uma carona direto pro kibbutz.

            No caminho, paramos em Naharya novamente, desta vez para assistir o pôr do sol tocando e cantando capoeira na praia. O sol estava aquela bola de fogo vermelho mergulhando no mar enquanto a lua nascia do outro lado fechando um fim de semana fantástico. Parecia mágica! Gentilmente, o Grão de Bico nos pagou o jantar entre uma roda e outra de capoeira e depois nos deixou na porta do Sarid. Já era noite, exaustos e felizes fomos dormir.

PRÓXIMO CAPÍTULO - PURIM