13 - PURIM

Kibutz Sarid, 10 de março de 1998

 

            Lá estava eu, terça-feira, trabalhando na dinningroom (refeitório), apenas um mês depois do nosso primeiro dia de trabalho no kibutz. Nem dá pra acreditar, tanta coisa já aconteceu...

            Nesse mesmo dia à tarde, eu e o Monclair fomos tentar andar a cavalo, falo tentar porque não fomos muito felizes. Tenho o costume de andar a cavalo desde que nasci, mas aquele cavalo era diferente, muito arisco, além do que, eles separaram só um cavalo pra nós dois, que graça tem cavalgar sozinha? Acabou que decidimos voltar pro Scorpions onde conhecemos o Faria, um pernambucano que tinha acabado de chegar ao Sarid e estava morando lá no Scorpions também. O Faria era uma figura, um pouco mais velho que a gente, já estava lá no kibutz pela segunda ou terceira vez; já tinha viajado o mundo todo de mochila, voltado pro Brasil algumas vezes, mas sempre acabava retornando à vida de viajante. Eu o entendo.

            Os gringos não acreditavam que nunca tínhamos visto o Faria antes, tamanha a festa que fizemos ao conhecê-lo. Mas essa é uma característica muito comum de brasileiro no exterior, toda vez que encontramos um conterrâneo é como se fossemos amigos de anos, é sempre um abraço, uma festa, uma delícia de calor humano.

            No dia seguinte, trabalhei nas vacas como era de costume, mas quando voltei para o quarto, encontrei o Monclair me esperando com flores, chá e bolo, depois de ter arrumado todo o quarto para me receber. Com as flores encontrei um bilhete onde ele escreveu: “Sou mais feliz com você! Te amo Monclair”. Como não se apaixonar diariamente por um cara desses?

            Sexta feira 13, apesar da data, seria mais um dia normal de trabalho se não fosse a Purim. A Purim, na verdade, é todo dia 14 de março, mas acredito que comemoramos no dia 13 desse ano porque o dia seguinte era shabbat. Durante todo o dia, todos do kibutz estavam preocupados com os preparativos para festa, decoração, fantasias, comidas, bebidas, etc. Mas do que se trata?

            Purim aconteceu há mais de 2.300 anos atrás em um lugar chamado Shushan (Susa), o Irã dos dias de hoje. O rei da Pérsia, naquela época, Ahasuerus II, estava comemorando o seu 3º reinado e ofereceu um grande banquete. Durante o banquete, ele ordenou que sua rainha Vashti se apresentasse antes dele para mostrar a todos a sua beleza. Ela se recusou a ir, então, ele a matou.

            O rei entrou numa depressão profunda, até que ouviu a sugestão dos seus conselheiros e ordenou que todas as mulheres solteiras fossem levadas para a capital de Shushan para que ele escolhesse uma nova esposa. De todas elas, o rei escolheu uma que se chamava Esther, que era judia. Esther também era prima de um homem chamado Mordechai, que a aconselhou a não contar para o rei sobre suas origens.

            Enquanto isso, Mordechai circulava pelo palácio cuidando de Esther. Um dia ele escutou, por um acaso, um plano para matar o rei. Ele contou para Esther, e ela imediatamente, contou ao marido. O rei investigou e matou os dois conspiradores. Em agradecimento, Mordechai tornou-se protegido do rei.

            Porém, havia um homem muito ruim chamado Haman, que se apresentava como um fiel escudeiro do rei. Ahasuerus o promoveu ao posto mais alto do reinado, e de acordo com a lei, todos deveriam curvar-se diante dele quando passasse. Mordechai, um judeu orgulhoso, recusou-se a curvar-se diante de qualquer ser humano. Haman ficou transtornado e decidiu se livrar de Mordechai e todo o seu povo. Um dia, bêbado, ofereceu ao rei uma boa quantia pelo direito de matar os judeus.

            Sem explicação, o rei concordou. O rei assinou um decreto convocando a todos para destruir, matar e aniquilar todos os Judeus, homens, mulheres e crianças, em apenas um dia - o 13° dia do mês de Adar, ou seja, 13 de março.

            Através de uma complexa seqüência de eventos que eu nem saberia explicar direito, Mordechai e a Rainha Esther, que assumiu ser judia, conseguiram interceder diretamente com o rei, estragando o plano diabólico de Haman. Eles o destruíram, junto com sua família e outros inimigos do Povo Judeu. Esther então pediu ao rei para enviar um comunicado dizendo que os Judeus poderiam se defender no 13°. dia de Adar. (Ele não poderia revogar um decreto real, pois uma vez publicado não se podia rompê-lo ou voltar atrás).

            Os judeus já avisados, lutaram contra seus inimigos e venceram. Eles estabeleceram a data de 14 de Adar, como o dia em que descansaram da batalha e saborearam o gosto da vitória, sendo assim, um dia de comemoração para as futuras gerações.

            O Livro de Esther está no Antigo testamento e é a base da festa de Purim. Para os judeus conta uma das mais queridas histórias bíblicas. A palavra “PURIM” significa 'sorteio'. A festa se chama Purim por causa dos sorteios promovidos por Haman para definir a data do ataque aos judeus.

            Segundo os judeus, a Purim ensina a ver através das contradições da vida, e perceber que elas são todas parte de um plano. Muito antes de Haman escrever seu decreto de destruição, uma rainha é deposta para dar passagem a Esther, que no fim das contas salva os Judeus. Para eles é como se remédio viesse antes da doença, como se já estivesse tudo escrito.

            A Purim tem quatro etapas e todas levam à união segundo os judeus. Primeiro, eles sentam todos juntos para ouvir a leitura do Livro de Esther. Depois, distribuem comida e dinheiro aos menos favorecidos, unindo os pobres e os ricos. Em terceiro eles enviam guloseimas para familiares e amigos, reforçando a ligação entre eles. Mas para eles ainda não é suficiente, então, finalmente, para afastar as barreiras que os separam, eles bebem. A bebedeira da refeição de Purim deve libertá-los de suas inibições, para permitir mostrar seus mais interiores e profundos sentimentos de amor uns pelos outros. Ao beberem, diminuem as fronteiras que os separam uns dos outros, para se sentirem ainda mais como uma unidade.

            E é isso mesmo que acontece, é uma festa com comida e bebida pra sobrar. Nesse dia todos se permitem ficar bêbados, é uma comédia! Aqueles senhores mais sérios do kibutz se encontram vestindo as mais diversas fantasias e bebem, dançam e riem muito.

            Nós quatro fomos vestidos de duendes da floresta! Conseguimos quatro fantasias iguais com cores diferentes e as escolhemos. Até nisso eles pensam no kibutz! O próprio Sarid tem um banco de fantasias, na época da Purim, eles colocam todas expostas em uma sala e todos vão lá e escolhem as suas, depois da festa, devolvem para serem usadas nos próximos anos. Toda a festa é organizada pelos membros do kibutz que se dividem em grupos responsáveis por tarefas diferentes e na hora tudo dá certo. Só pra vocês terem ideia, tinha até um grupo que ficava responsável pela maquiagem das pessoas, eles montam um camarim na academia do ginásio de esportes e maquiam todos, basta dizer qual é a sua fantasia.

            A festa foi no ginásio que estava todo decorado. O Romero mesmo participou da decoração pintando algumas das telas que enfeitavam o ginásio que estava preparado para um carnaval! Para abrir a comemoração, o Monclair, o Duda e o Romero foram convidados para fazer uma apresentação de capoeira entre outras apresentações culturais que nós não entendíamos por serem em hebraico, só sabíamos que eram a respeito do Livro de Esther.

A festa é praticamente um baile de carnaval, aliás, assim eles gostariam que fosse. Muita música brasileira, por incrível que pareça. Era incrível ouvir tanta musica brasileira do outro lado do mundo. Aliás, até Xuxa e Jorge Bem Jor ouvimos em hebraico e eram as músicas mais tocadas na festa. Todos beberam muito, muito mesmo e se divertiram mais ainda.

            Surpreendente mesmo é o dia seguinte, todos acordam e vão para o ginásio arrumar os restos da festa, independente da ressaca. O engraçado é que nada é combinado, o comum sobrepõe o individual. Não existe a obrigação de ir, mas quem tem condições vai, só não vai quem não consegue mesmo rsrssr. Passamos boa parte do dia lavando o chão de onde havia acontecido a festa. No fim da arrumação ganhamos uma caixa cheia de bebidas que tinham sobrado e levamos pra quarto dos meninos, ou seja, algumas festas de voluntários garantidas! Inclusive, no dia seguinte, o domingo acabou em uma roda de tambores, ou melhor, de baldes, regados a bebidas no quarto deles. Eles sim sabiam como se divertir.

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