14 - O DIA LARANJA

 

Sarid, 16 de março de 1998

        Acordei, vesti uma roupa e abri a porta do quarto para ir ao banheiro como em todas as manhãs, mas... o dia estava inacreditavelmente LARANJA!!!! Era muito cedo e a neblina do amanhecer ainda tomava conta da grama na frente do Twins, mas dessa vez, a neblina estava laranja, como em um sonho psicodélico. Era tão diferente que cheguei a fechar a porta para abrir novamente e ter certeza que não estava sonhando ou tendo alucinações, afinal de contas, dizem que tomate ingerido em grandes quantidades pode causar alucinações e eu nunca tinha comido tanto tomate e pepino em toda a minha vida (rsrsr).

            Abri a porta novamente e tudo continuava assustadoramente LARANJA como se eu estivesse usando óculos com lentes especiais. Acordei o Monclair e o chamei para ver como estava lá fora. Ele também ficou admirado e ficamos ali na porta olhando aquilo por alguns minutos antes de darmos inicio a mais um dia de trabalho. Ufa!! Pelo menos tive a certeza de que não estava louca, ele estava vendo tudo laranja também.

            Fiz meu trajeto laranja até a cozinha, onde estava escalada para trabalhar, tentando encontrar explicações para o que estava acontecendo. Ao chegar procurei me informar e me explicaram que houve uma tempestade de areia no deserto de Negev e aquele efeito era devido a minúsculas partículas de areia em suspensão, mas tudo voltaria ao normal em breve. Todos os voluntários, das mais diferentes partes do mundo estavam maravilhados, a cor do dia foi o assunto do café da manhã. Conforme as horas iam passando, a cor do dia ia voltando ao normal, mas podíamos olhar para o sol sem nada para proteger os olhos e ver aquela bola enorme sobre nós, como se fosse a lua mas com um brilho maior. Isso durou uns dois dias.

               No dia seguinte trabalhei nas vacas e depois da apresentação de capoeira dos meninos na Purim, fomos convidados para ensinar capoeira para as crianças na escola do Kibutz, numa espécie de intercâmbio cultural. Adoramos a idéia. Nós quatro passamos à tarde lá, e foi divertidíssimo! As crianças deviam ter uns seis ou sete anos e as fizemos pular polichinelo, virar cambalhota, dar estrelinha, gingar, chutar e lembro bem de ver umas 20 crianças correndo em círculos e se pendurando no Monclair e no Romero ao som do berimbau do Duda. Levamos uma fita de capoeira e quando a colocamos para tocar, a bagunça estava completa, todas as crianças corriam e dançavam com a música. Era difícil dizer quem estava se divertindo mais naquela sala, o mais engraçado era que quase nenhuma das crianças falava inglês, o que dificultava bastante nossa comunicação e arrancava enormes gargalhadas quando nos ouviam falar português. Mas conseguimos ensinar alguns a plantar bananeira na parede e outros até a tocar o berimbau, mas a maior diversão parecia ser fazer palhaçada para filmadora.

             A educação em Israel é uma coisa incrível, continua sendo um dos valores fundamentais da sociedade israelense desde as gerações passadas e é considerada uma chave para o futuro. Quando Israel se tornou independente já existia um sistema educacional funcionando, que havia sido desenvolvido e mantido pela comunidade judaica que já vivia lá; o hebraico já havia sido revivido como a língua diária no final do século XIX e era o principal idioma de ensino. A freqüência escolar é obrigatória dos 6 aos 16 anos e gratuita até os 18, mas grande parte das crianças de dois anos e quase todas as de três já vão para a escola. Isso tudo diz respeito à educação israelense, tenho a impressão que a árabe está bem atrás nesse processo. Segundo o Efraim, até pouco tempo atrás as crianças do kibutz iam pra escola e só viam os pais no shabat, durante a semana elas ficavam no que se chamava “Casa de crianças”, onde elas eram separadas por idade. Hoje elas voltam para casa no fim da tarde, o que segundo ele, descaracterizou um pouco o convívio no kibutz, por que agora ao invés de jantarem juntos no refeitório, todos jantam em suas casas.

            Depois da experiência na escola, aproveitamos que estávamos de filmadora na mão e decidimos subir uma torre, que era o prédio mais alto do Kibutz, para meu desespero. De lá dava para ver o kibutz inteiro, Migdal, Afula e Nazaré. A vista realmente valia a pena, mas além de clandestinos, tínhamos que subir uma escada daquelas que são só barras de ferros chumbadas na parede, sem nenhuma proteção. Tive muito medo para subir e mais ainda para descer, os meninos tiveram que ter muita paciência comigo.

            À noite, ficamos um pouco no Scorpions e fomos para o quarto dormir exaustos.

            Dia 19 de março, dia do aniversário do Romero, 22 anos, e quinta-feira, noite dos voluntários. Perfeito, ao invés de um jantar feito por algum grupo de algum país, comemoraríamos! Todos foram para o refeitório e a Luna ficou responsável, por livre e espontânea vontade, por fazer o bolo. Luna era uma holandesa que já citei anteriormente, mas que desde nosso acampamento no lago Kineret estava de “rolo” com o Duda e cada vez fazendo mais parte do nosso convívio. Ela era doidinha, toda alternativa e com uma carinha de bebê, tinha saído de casa aos 12 ou 13 anos para morar com um grupo alternativo europeu chamado Rainbow (Arco-íris), uma história assim. Voltando ao bolo... Como Luna era natureba, decidiu fazer um bolo integral, o bolo solou e ficou uma pedra, o que foi muito engraçado. O desafio era conseguir “quebrar” um pedaço por que cortar era tarefa impossível, assim como comer rsrssr. Entre muitas gargalhadas, apareceu uma menina do exército que foi parabenizar o Romero e para nossa surpresa, lascou-lhe um beijo de mais de minuto. Quem disse que o Romero tinha problemas com a língua local?

            O Kibutz Sarid possuía uns predinhos de 2 andares exclusivos para jovens do exército que passavam alguns meses lá. Não sei dizer por que, mas eles trabalhavam também durante sua estada, assim como os voluntários. E formavam mais uma “tribo” do kibutz.

            Depois do “jantar” no refeitório fomos com alguns voluntários, Luna e a menina do exército para o quarto dos meninos, onde tinha bebida para uma festa de verdade. Ficamos lá ouvindo música, bebendo e conversando. O Romero pegava os escorpiões encontrados no Scorpions e colocava dentro do copo de tequila antes de beber, como que imitando os mexicanos com aqueles vermes. Os europeus ficavam aterrorizados. Tudo bem, era aniversário dele, ele podia.

             No dia seguinte, trabalho e mais uma festa!!! Desta vez foi em um lugar que eu nunca imaginei ir a uma festa na minha vida, um abrigo antibomba! Alguns voluntários pediram para a Eva um dos abrigos para fazer uma festinha e ela autorizou. Então eles fizeram umas bebidas de frutas com parte da bebida que eles também tinham ganhado por ter ajudado a limpar o ginásio depois da Purim. Era uma espécie de ponche e estava delicioso.

            O lugar deveria parecer mórbido, mas já estávamos tão acostumados com a cultura local que não tivemos essa sensação. Para entrar, descíamos uma escadinha e as únicas entradas de ar eram umas pequenas janelas em paredes com a espessura de pelo menos meio metro, em caso de guerra a sensação deve ser bem diferente. Havia dois cômodos e um banheiro, em tempos de guerra deveriam ficar umas 30 pessoas alojadas ali, pelo menos. Todos estavam conversando, ouvindo música e se divertindo, para todos aquilo ali era algo inusitado, surpreendente, novo.  A festa tinha hora para acabar e de lá fomos para o Pub, que tinha passado a abrir as sextas também, por causa do verão que se aproximava.

          Nossa estadia no kibutz estava sendo intensa, e o plano de aproveitar tudo ao máximo fez com que até então, a gente não ter tirado nenhum shabat de folga no kibutz, a não ser depois da Purim, que não foi um shabat normal, pois nem almoço no refeitório teve. Como não tínhamos viajado nesse fim de semana por causa da festa no abrigo antibomba, curtimos nosso primeiro shabat descansando no kibutz.

             Foi muito interessante, todos almoçam juntos no refeitório, mas além de ser uma comida diferente do dia a dia, vários membros recebem familiares e principalmente filhos que optaram por viver nas cidades, uma preocupação que cresce nitidamente. É um almoço com uma felicidade a mais, todos relaxados sem a preocupação de voltar para o trabalho. Tinha aquela cara de almoço de domingo em churrascaria no Brasil rssr. Neste dia, conhecemos o filho do Efraim, que se não me engano, é casado e mora em outro kibutz.

            Também foi nesse dia que entendi o porquê daquela linda e enorme varanda que o refeitório tinha de frente para o vale, no shabat, várias famílias ficavam conversando lá depois do almoço e admirando a paisagem, que era linda, realmente. De lá dava para ver boa parte das plantações do Sarid até a fronteira com o Hamat David.

            A vida continuava no Kibutz Sarid. Às vezes pensava no meu pai e no quanto ele gostaria de uma vida como aquela, tranqüila, com nada para se preocupar em uma big fazenda. Na verdade, quem não gostaria?

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