15 - AS HOLANDESAS

 

“Kibbutz Sarid, 23 de março de 1998 – Monclair

 

            Fumando Narguile de maçã, ouvindo Índios do Legião Urbana e comendo semente, tudo se passa de forma peculiar. Há muito tempo quero fazer o diário freqüente da minha viagem, mas se passa quase dois meses e pouco escrevi, num ato de coragem tomei o papel e o grafite. Contudo, e como sempre, tenho dúvidas por onde começar, quero falar de tudo e de cada detalhe ao mesmo tempo, tenho a carta dos meus pais para terminar, cartas e postais para os amigos e minhas confissões pessoais, projetos de poemas, todos entalados para sair.

* Anotações feitas no bloquinho do Monclair”

 

            24 de março, aniversário do meu pai. Antes de eu viajar ele escreveu na minha agenda: “Pat, eu quero que toda felicidade deste mundo seja eternamente sua. Seu pai”. Ele sempre foi carinhoso, mas não é de fazer declarações e quando lemos algo assim, de tão longe, ganha dimensões imensuráveis. Pensei muito nele o dia todo.

Trabalhei nas vacas como nos dois dias anteriores, já estava virando rotina, mas tudo é melhor do que limpar os prédios dos voluntários. Quando cheguei do trabalho tive uma surpresa, a Birgit e a Ellen, aquelas duas holandesas que conhecemos do Paul´s Hostel em Akko e eram voluntárias em outro kibutz, estavam lá no Twins. Pois é, elas já tinham saído do kibutz delas e continuavam viajando por Israel e passaram para nos visitar.

            Duda e Romero ficaram empolgadíssimos, perfeito, justamente no dia que todos vão para o Pub do Kibutz Givat jogar sinuca. Em muito pouco tempo eles já tinham me convencido a ligar para a Eva e pedir para as holandesas dormirem lá no kibutz. Depois de muita resistência, tive que dar minha palavra que elas dormiriam no meu quarto e que eu seria responsável por elas. Já que era assim, eu e o Monclair decidimos ir ao Givat com eles para ter certeza que tudo estaria certo e para prestigiar a visita de nossas amigas. Todos os voluntários do kibutz foram, mas o pub estava fechado, então resolvemos voltar e fazer uma fogueira na frente do nosso quarto, evento que já estava ficando tradicional.

            A partir de certa hora, Monclair e eu fomos deitar deixando as holandesas lá fora com o resto dos voluntários que ainda estavam acordados e, claro, o Duda e o Romero, que me garantiram que eu não precisava me preocupar.

            No dia seguinte, enquanto eu estava tomando meu café da manhã a Eva aproximou-se da mesa e soltou os cachorros! Ela me deu a maior bronca na frente dos voluntários, disse que eu me responsabilizei pelas holandesas e elas dormiram no quarto dos meninos e nenhum dos dois apareceu para o trabalho. Se tem uma coisa que eu odeio nessa vida é tomar bronca, na frente dos outros é ainda pior e por causa dos outros nem se fala! Meu rosto deve ter ficado vermelho de raiva dos meninos, de vergonha e de raiva de mim mesma por ter aceitado o pedido deles.

            Eu nem queria vê-los naquele dia, tamanha a raiva. Depois o Monclair veio me contar o que aconteceu, na verdade, preferia nem saber. As meninas foram para o quarto deles e começaram a beber vinho. Só havia um detalhe, eles não estavam mais sozinhos no quarto, eles tinham a companhia de um voluntário alemão. Eles conversavam tão alto e faziam tanta bagunça que o pobre alemão foi para a sala de televisão. Mas a sala de TV dos voluntários era um lixo, não tinha aquecedor e faltavam alguns vidros nas janelas, o que faz da sala um freezer à noite. O alemão até tentou voltar para o quarto, mas os meninos não sabendo que ele estava na sala de TV e achando que ele não voltaria, juntaram a cama dele à deles para terem mais espaço para dormirem todos juntos. Consequência: o tal alemão ficou sem cama e dormiu na sala de TV mesmo, por causa do frio ficou doente e ligou para a Eva na manhã seguinte para avisar que não tinha condições de trabalhar, então a Eva pediu para que acordassem o Duda para trabalhar no lugar dele. Quando foram acordar o Duda, ele não entendeu nada com sono e com pouca fluência na língua e disse que não iria, que seu horário era mais tarde. A Eva ficou furiosa e foi acordá-lo pessoalmente, quando chegou ao quarto, estavam os quatro dormindo nas três camas de solteiro do quarto. Para ela, eles não tinham respeitado nem a cama do pobre alemão. Ela expulsou as meninas, deu uma enorme bronca nos dois e foi para o refeitório me dar a minha bronca! Imagina como ela chegou lá.

            Passei o dia com raiva dos meninos, mas graças a Deus não sou rancorosa e logo tudo voltou ao normal.

 

“Kibbutz Sarid, 25/03/1998

 

                                         DESENHANDO MEU LÁPIS

 

                                         Desenho meu lápis

                                         Mas como desenho se agora escrevo?

                                         Com o grafite penso e transformo

                                         Pinto a palavra e escrevo o traço

                                         Desenhar cada som

                                         E pintar cada palavra

 

                                         Em suas luzes e sombras

                                         As palavras tomam forma

                                         E de nuance em nuance

                                         As formas e tamanhos vem como de repente

                                         E se formam como figuras as minhas estrofes.

 

                                        Já o meu traço, escrevo lentamente,

                                        Escolho as sílabas e as tonicidades

                                        Busco a rima e o sonoro.

 

                                        No dicionário abstrato,

                                        Encontro significados exóticos

                                        Que rabisco em poesia.

                                        Pego a ortografia das miragens

                                        E de figura a palavra

                                        Engrandeço meu verso

                                        E consolido meu traço

                                        Mas no fundo,

                                        Só comecei a desenhar meu lápis.

* Anotações feitas no bloquinho do Monclair”

 

            No dia 26 de março, percebi que o mundo é enorme, mas bem menor do que pensamos. Estava voltando do escritório da Eva com o Faria, o Duda e o Romero, em uma bifurcação, eles continuaram seu caminho para o Scorpions e eu peguei o caminho do Twins. Ao me aproximar, vi a porta do meu quarto aberta e o Monclair conversando com alguém em português, imediatamente me perguntei com que ele estaria falando se os únicos brasileiros do kibutz estavam comigo até um minuto atrás. Quando entrei no quarto encontrei o Thiago, um conhecido de Brasília, que estudava ciências políticas na UnB. Fomos amigos há vários anos atrás, no inicio de nossa adolescência e lá estava ele, barbudo e no kibutz, dando inicio à sua viagem solo. Fizemos aquela festa típica brasileira. O Monclair não conseguia acreditar que a gente já se conhecia, muita coincidência.

Era quinta-feira, dia do jantar dos voluntários, dessa vez tivemos uma deliciosa comida mexicana preparada por duas mexicanas de mais ou menos uns 30 anos que eram recém chegadas no kibutz. E nós, contávamos tudo sobre o kibutz e Israel ao nosso conterrâneo com toda a empolgação que já nos era característica.

PRÓXIMO CAPÍTULO - TEL DAN