16 - TEL DAN

 

27 de março de 1998

Era sexta feira, no entanto, ‘não viajamos, pois o dia seria diferente. E realmente foi diferente da rotina, se é que posso usar a palavra “rotina” nessa viagem. O Karl, o cara que trabalhava comigo nas vacas, pegou um carro para a gente ir para praia!

O kibutz tem vários carros e uma bomba de gasolina própria. Os membros do kibutz escrevem o nome em uma lista reservando o carro para o dia, a hora e período que eles desejam usa-lo. As chaves ficam em um claviculário com uma porta de vidro trancada, mas que os membros têm a chave e o controle é feito em uma prancheta pendurada ao lado. É incrível como eles realmente vivem o comunitário, o que é do kibutz é de todos e o que é de todos é nosso. Também não pagam pelo combustível é só passar o cartão de membro e abastecer na bomba instalada no estacionamento no kibutz. Alguns membros tinham carro próprio por opção, mas eram pouquíssimos, normalmente aqueles que saiam com frequência do kibutz. Claro que nós voluntários não tínhamos os mesmos privilégios, sábios eles.

            Karl e eu sempre trabalhávamos juntos nas vacas, foi ele quem me treinou para o trabalho. Ele era um pouco mais velho que eu, careca dos olhos claros e quando não estava calado, estava sorrindo. Karl foi um dos jovens que ao voltar do exército decidiu que queria viver fora do kibutz, passou algum tempo na Europa e depois voltou para o Sarid. Segundo ele, antes de terem a experiência de viver lá fora, os jovens não dão valor a vida no kibutz. Quando saem, é normal que voltem depois de alguns anos para nunca mais sair.

Estávamos trabalhando pela manhã quando me convidou para ir para a praia e imediatamente perguntei se poderia levar o Monclair e os meninos, ele adorou a ideia e fomos Karl, eu, Monclair, Duda e Luna. O Romero estava em horário de trabalho e ficou no kibutz.

A praia devia ficar à uma hora de carro do kibutz. Em Israel é tudo muito perto, ouvimos que é possível cruzar Israel de norte a sul em sete horas de carro e de leste a oeste em quatro, acredito que seja verdade. Essa praia ficava perto do Parque Nacional de Akhziv e conseqüentemente perto de Akhziland. A história de Akhziland é muito interessante. Akhziv é o local de uma cidade bíblica em Israel. Até 1948 era uma pequena vila palestina, mas durante a Guerra da Independência, seus habitantes foram forçados a sair de lá. Com Akhziv vazia, o novo governo de Israel declarou que ali seria um parque nacional dedicado as escavações da cidade antiga, como tantos outros que visitamos e ainda iríamos visitar. Mas alguns israelitas protestaram, foi quando em 1952 um homem se mudou pra lá e declarou a vila uma nação independente, o estado de Akhzibland. Seu nome é Eli Avivi, um ex-soldado, que anunciou que estaria “guardando” a pequena nação para a palestina. Eli vive lá em uma ex-mansão árabe onde funciona também um museu, o Museu de Eli. Ele vive tendo problemas com o governo israelense e dizem que está ficando velho e em breve a vila será incorporada ao Parque Nacional de Akhziv. Para entrar na vila é necessário passar por uma alfândega e carimbar o passaporte, parece brincadeira, mas juram que é sério. Não tivemos a oportunidade de ir lá conhecer, mas seria um carimbo interessante em nossos passaportes.

 

28 de março de 1998   

Outro motivo que nos levou a ficar no Kibutz naquele shabat foi uma viagem programada pelos membros para os Voluntários ao norte de Israel.

            Quem levou o grupo foi o Sand, membro do kibutz de Nova Jersey que fez a palestra do Dia da Árvore. Ele explicava tudo sobre os lugares que parávamos e passávamos com o ônibus.

            Nossa primeira parada foi no planalto do Golan, fronteira com o Líbano. Esse planalto foi incorporado a Israel no final da Guerra dos Seis dias, em 1967. Em apenas seis dias, Israel tinha sob seu controle, a Judéia, a Samaria, Gaza, a península do Sinai e o planalto do Golan. Sand defendia toda essa ocupação, como um bom israelita judeu. Já o Duda brincava que faria um bundalelê para os soldados que estavam do outro lado da fronteira, o que eu via como uma boa chance de desencadear uma nova guerra.

            De lá continuamos ao norte e fomos para o Tel Dan, uma reserva natural e arqueológica. O local é lindo, foi todo recuperado em 1994. Lá podemos ver o Rio Dan, lindo com sua água totalmente transparente, que encontra o famoso Rio Jordão. Passeamos por uma trilha que margeia o rio no meio de uma bela mata de galeria. Monclair era só alegria no meio daquelas árvores, com o barulho das águas do rio. É impressionante como Israel tão pequeno consegue ter uma variedade tão grande de cenários.

            Continuamos nossa caminhada, agora por verdadeiros caminhos de pedras observando várias escavações ainda em andamento, vimos também um local onde eles sacrificavam os cordeiros para suas festas naquele período, construído em 930 a.C. Tinha quatro pilastras como hologramas com ilustrações das oferendas desses rituais. Lanchamos em áreas especificas para piquenique. O mais interessante foi o Canaanite Gate, um dos primeiros portões em forma de arco da história, perfeitamente intacto desde que a cidade foi soterrada em um terremoto no século XVII a.C. Esses arcos foram construídos antes dos romanos, o que significa não foram eles que os inventaram como todos pensávamos. 

Em 1993, arqueólogos descobriram em Tel Dan, uma pedra de basalto que continha as inscrições "Casa de Davi" e "Rei de Israel". Esta descoberta fazia parte de um monumento de vitória feito pelos arameus, inimigos de Israel, que viviam ao leste. Isto é de muita importância, pois foi a primeira vez que encontraram o nome de Davi,em uma inscrição antiga fora da Bíblia, escrito por um adversário do mesmo.

Depois do longo dia de passeio, estávamos todos exaustos dentro do ônibus alugado pelo kibutz quando alguém se deu conta que estava faltando um dos voluntários!! Gudnar!!! Gudnar era um voluntário sueco, alto, um menino grande, muito querido e muuuuuuito devagar. Tão de vagar que essas coisas sempre aconteciam com ele, pois é, dessa vez ele tinha ficado no Tel Dan, e nada poderia ser feito para ajudá-lo. Aliás, apesar de maior de idade, não sei como os pais de Gudnar o deixavam viajar sozinho pelo mundo. No final do dia ele apareceu bem, mas um pouco chateado por ter sido esquecido, segundo ele, só tinha ido ao banheiro e se perdeu de todos.

Outra semana começava no kibutz.

PRÓXIMO CAPÍTULO - ÚLTIMOS DIAS NO KIBUTZ SARID