17 - ÚLTIMOS DIAS NO KIBUTZ SARID

 

29 de março

O kibutz era algo maravilhoso, igualdade social, jovens do mundo todo, mas tínhamos sede de conhecer mais. Um dia e meio de viagem todas as semanas já não eram mais o suficiente para o nosso grupo de brasileiros aventureiros. Precisávamos de mais, precisávamos bater as asas para locais mais distantes, decidimos deixar o kibutz.

Tiramos o dia de folga para arrumar nossas coisas, enviar caixas para o Brasil com fitas de vídeo e muitos rolos de filme pra minha mãe e minha irmã irem matando a saudade e, de certa forma, compartilhando essa viagem com a gente. Era a nossa forma de manter contato de alguma forma.

Em 1994, quando fiz intercâmbio para os Estados Unidos levei U$ 1.750,00 para passar um ano; na minha primeira semana, comprei uma filmadora de U$ 700,00! A filmadora era um sonho na época e não foi uma compra de impulso, por mais absurdo que pareça, foi totalmente calculado. Como estudante de intercâmbio a família hospedeira tinha a obrigação de me dar comida, casa e condições de estudos, ou seja, mesmo se eu ficasse sem dinheiro, não me faltaria nada. Na época do meu intercâmbio, ligar para o Brasil era muitíssimo caro, então eu só podia ligar para casa no primeiro domingo do mês e a filmadora funcionava para mim como a ferramenta perfeita para compartilhar com a minha família brasileira o que eu estava vivendo lá. Além de filmar o máximo de coisas e lugares que eu podia, eu constantemente colocava a filmadora ligada apoiada em algo e “conversava” com minha mãe e irmã. Quando completava a fita, enviava para casa. Mantive o costume nessa viagem, enviando também os rolos de filmes de todas as fotos que tirávamos, de forma que só veríamos quando voltássemos para o Brasil.

 

30 de março de 1998

Eu e o Monclair completamos 4 meses de namoro, já vivemos tanta coisa juntos que parecia que já estávamos juntos há anos.

Como de costume, trabalhei nas vacas e a tarde, o pessoal fez uma festinha de despedida para mim e me deram uma vaquinha de pelúcia para eu me lembrar deles. Nunca imaginei essa surpresa! Eles mesmos confessaram que não costumam fazer isso com voluntários, pois eles sempre vão e vem, por isso não se apegavam a ninguém, mas que comigo era diferente.

A experiência nas vacas foi ótima! Eu era muito dedicada ao trabalho, então dia de limpeza eu deixava tudo brilhando, o que normalmente os voluntários não faziam. Na hora de tirar o leite, no centro do carrossel, estava sempre dançando e brincando com os meninos, afinal de contas, eu era a única menina nas vacas. Disseram que eu ia deixar saudades, fiquei emocionada. Saudade sentiria eu... Fiquei muito feliz, não sabia que era tão querida.

            Aliás, éramos muito queridos. Teve um dia que o Romero estava trabalhando no refeitório e enquanto limpava o chão, ele dançava e cantava. A responsável pelo refeitório, sei lá por qual motivo, foi falar para ele parar, mas ele não entendeu nada e continuou e puxou ela para dançar no lugar da vassoura, tentando fazer com que ela se divertisse também. Conseqüência: ela achou que o Romero tinha ido trabalhar bêbado! Mal sabia ela que ele é assim mesmo. No dia seguinte, no café da manhã a Eva foi conversar com ele e expulsa-lo do Kibutz. Tentamos explicar o que havia acontecido, mas ela estava decidida. Então, eu e o Monclair falamos que se o Romero não pudesse mais ficar no kibutz, nós três também teríamos que sair, afinal de contas estávamos juntos. Os outros voluntários assistiam sem concordar com que viam, foi quando o Jimmy, um sueco cabeludo, disse que se nós fossemos embora daquela forma, ele iria também. Naquele momento, outros voluntários levantaram e se juntaram a ele. Foi sutil, mas emocionante. Lembrei-me daquele filme “Sociedade dos Poetas Mortos” na cena que os alunos levantavam de um em um e diziam “Captain, my captain”. No final das contas, Eva preferiu acreditar que foi um mal entendido e todos nós permanecemos no kibutz.Ufa...

 

            No Scorpions, tinha um dos quartos que era utilizado por um dos filhos da Eva para praticar bateria. Ele era um cara tímido e fechadão e por causa do barulho, ele nunca foi muito querido pelos voluntários, até nos conhecer. Um dia enquanto ele estava praticando, o Duda e o Romero pediram para entrar, logo depois chegamos eu e o Monclair, fizemos a maior bagunça com ele. Cada um com uma baqueta batia em alguma coisa, até na parede e ele se divertiu muito, ou melhor, todos se divertiram. Acredito que os meninos tenham repetido a dose mais algumas vezes, porque a Eva ofereceu a pedido dele um jantar de despedida pra gente na casa dela, coisa que segundo ela, não faz pra nenhum voluntário. Eu não fui porque estava escalada para tirar leite à noite na ocasião, uma pena, pois os meninos foram e adoraram a recepção da família. Não era comum voluntários frequentarem as casas dos membros, era uma experiência diferente.

            Quando retornei estavam todos no Pub, também em uma espécie de despedida pra gente. Quando o pub fechou, continuamos nossa despedida no quarto do Paul, um voluntário inglês que ainda guardava uma garrafa de tequila. Realmente éramos queridos, durante nossa estadia, vimos muita gente chegar e ir embora, mas era a primeira grande despedida que víamos. Todos os voluntários comentavam a falta que iríamos fazer.

 

31 de março de 1998

            Com tudo pronto demos uma última olhada no nosso quarto, com aquele ar de despedida.  Lemos juntos o texto do Oswaldo Monte Negro que eu tinha escrito na parede e que marcava aquela fase de nossa vida.

 

“ E de agora em diante

Teria sido decretado o amor sem problemas

E seriam vitrine nos olhos

E as almas vagariam sem medo

           

E de agora em diante

Seria para sempre

O que para sempre acabara

E seria tão puro o desejo dos homens

Que Dionísio enlaçaria a virgem com braços enternecidos

E aplaudiríamos

Calmos e frenéticos como São Francisco febril

 

E de agora em diante

Para trás não haveria

Não mais a virtude dos fortes

Mas o mérito dos suaves

O homem feminino e a mulher guerreira

O amor comunitário, sem ciúmes

 

Dariam as mãos as moças que amam

E brincariam de roda envolta de minha preferida

E um artesão criança,

Esculpiria flores nos cabelos

Com um sorriso sincero no rosto

 

E de agora em diante

O Mahatan Gandhi estava vivo para sempre

E Jesus era hippie

Beethoven era roqueiro

E Lenon era como nós

 

E se não desse certo

De agora em diante

Ao menos teríamos tentado.”

 

            Com um clima saudosista e animado para mais uma fase da viagem, andamos em direção ao Scorpions, para a nossa surpresa, encontramos o Duda saindo do banho, como um flash back do nosso primeiro fim de semana no kibutz, quando iríamos juntos para Meguido. Dessa vez, preferimos esperar e depois de muita demora, fomos embora do kibutz em direção a Tibérias, no Mar da Galiléia, ou melhor, Lago Kineret.

           

            O Efraim foi uma das pessoas mais importantes dessa viagem, espero do fundo do meu coração que ele um dia possa ler esse livro. Antes de sairmos, entregamos a ele um cartão de agradecimento, onde o Monclair escreveu:

 

“No anseio por tempos mais felizes, muitos caminhos imperfeitos entre os acertados. Que o mundo siga o caminho deste indivíduo, que no fluir do tempo lapida o mundo em forma de jóia lhe dando um sentido maior, o esforço não é em vão.

Agradecimentos sinceros dos amigos brasileiros.”

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