18 - TIBÉRIAS

A sensação de ser o inicio de uma nova fase dessa viagem era nítida, não teríamos mais um porto seguro, não teríamos mais “casa”... Só quando saímos do kibutz, me senti verdadeiramente livre, sem hora de trabalho, sem destino certo, totalmente a mercê do tempo e da mão invisível, como costumávamos chamar essa seqüência de fatos que acontecem exatamente da melhor e mais surpreendente forma possível.

            Depois de muita demora, finalmente começamos a pegar carona para Tibérias e combinamos de nos encontrar no Aviv Hostel, lá alugamos uma suíte para os quatro e nos hospedamos. À noite, demos uma volta na cidade, como de costume e achamos o local muito aconchegante.

            Tibérias ou Tiberíades é uma cidade de quase 2.000 anos de existência às margens do lago Kineret (Mar da Galiléia, na Galiléia). Fundada no ano 18 por Herodes Antipas, em homenagem ao imperador romano Tibério. Tiberíades, juntamente com Jerusalém, Hebron e Safed, é um dos principais locais de peregrinação judaica.

A região de Tibérias foi escolhida pelos pioneiros sionistas para estabelecer o primeiro kibutz, em 1909, antes mesmo da criação do Estado de Israel. Depois da independência de Israel, milhares de pessoas vieram para a cidade. Hoje em dia, Tibérias conta com uma população de aproximadamente 35 mil habitantes. Ela é famosa também pela sua importância para o cristianismo - atraindo milhares de peregrinos cristãos para a região, afinal de contas, nas margens do lago aconteceram alguns episódios do Evangelho, como a pesca milagrosa; a multiplicação dos pães; a caminhada de Jesus sobre as águas, entre outros.

 

01 de abril

            Alugamos quatro bicicletas e fomos dar a volta no Mar da Galiléia (Lago Kineret) pedalando, 57 km de muita história e malhação, pelo menos pra mim que não tinha o costume de pedalar.

            Como tínhamos feito as pazes com o tempo, paramos em todos os lugares que nos agradava. Nossa primeira parada foi em um criadouro de camelos, lá tiramos fotos, filmamos, discutimos o formato das patas e das fezes desses animais. Eram os primeiros camelos de nossas vidas, bem maior do que eu imaginava, com mais de 2 metros de altura. Mas a pedalada só estava começando.

Nossa próxima parada foi Tabga, onde acreditam que este é o lugar onde aconteceu o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Os cristãos do início século V, construíram mosteiros, igrejas e santuários na Galiléia e às margens do Mar da Galiléia (lago Kineret) para recordar o ministério de Jesus e seus milagres. 

        A mais antiga construção de Tabga foi uma pequena capela do século IV d.C. e apenas uma parte de suas fundações foi desenterrada. Durante o século V, um grande mosteiro e uma igreja, com o chão todo decorado com um delicado mosaico, foram construídos no local sobre as fundações dessa antiga capela, que era muito menor. Na igreja havia pátios e muitas salas que na época serviam de oficinas de vários artesanatos, e de dormitórios para os monges e peregrinos. Mas o mosteiro e a igreja de Tabga foram destruídos no século VII, mas precisamente em 614 pelos Persas e o local exato do santuário deixou de ser conhecido, só sendo redescoberto 1300 anos depois.

        Em 1980, após as escavações, a igreja foi restaurada em sua forma bizantina, recuperando boa parte de seus mosaicos originais. A igreja não tem bancos, assim como antigamente, e é famosa por esses mosaicos, que são realmente lindos e se encontram espalhados por todo o chão do interior da igreja. Em frente ao altar, tem uma pedra, onde dizem que Jesus multiplicou os pães e peixes, e um mosaico de uma cesta de pão e dois peixes no chão, que foi feito no século VI, para ressaltar o significado da pedra. Quase não pude entrar porque na porta tinha uma placa onde pedia silencio e proibia a entrada de pessoas de shorts e eu estava com um shortinho bem brasileiro, mas entrei assim mesmo até que alguém me expulsasse, o que não aconteceu.

        O local é bem arborizado e cheio de turistas, dentro da igreja nos surpreendeu o número de turistas japoneses e suas minúsculas máquinas fotográficas e filmadoras, o que nos dias de hoje seria normal.

        Na beira do lago tem uma pequena capela de pedras pretas, chamada Capela da Primazia, que marca o lugar onde, segundo a tradição cristã, Jesus apareceu a seus discípulos pela terceira vez e confirmou a primazia espiritual do Apóstolo Pedro, o que eu nem sei direito o que quer dizer. Esta capela foi construída em 1933 sobre as ruínas do antigo santuário e algumas coisas da igreja do século IV podem ser vistos do lado de fora.

        Para completar a magia do local, havia um casal de ucranianos de meia idade que se auto-intitulavam “Dueto Amadeus” e tocavam violino em perfeita sincronia, recebendo moedas para ajudar os imigrantes ucranianos.  

        Tabga fica a 12 km ao norte de Tibérias, de lá deveríamos ter ido à Cafarnaum, a apenas 3 km de distância, mas acabamos passando direto sem querer.

        Cafarnaum era um vilarejo mencionado como o lugar onde Jesus viveu durante grande parte de seu ministério na Galiléia. Foi lá, segundo o Novo Testamento, que ele "curou muitos que estavam doentes". Na época, em Cafarnaum tinha um posto alfandegário e uma pequena guarnição romana, era também acidade de Simão Pedro, um dos apóstolos de Jesus.

        Após ter sido seriamente danificada no terremoto de 746, a aldeia foi reconstruída, mas pouco se sabe de sua história depois disso. Apesar da importância de Cafarnaum na vida de Jesus, não há indicação de nenhuma construção durante o período dos cruzados. O lugar só foi "redescoberto" em 1838.

        Como passamos direto por Cafarnaum, nossa próxima parada foi Kursi. A primeira impressão é de ver um monte de ruínas, nada ali foi restaurado. Acredita-se que em Kursi, segundo a tradição, Jesus curou dois homens possuídos pelos demônios (S. Mateus 8:28-33). A fim de recordar este milagre, ali foi construído um mosteiro, provavelmente no começo do século VI. Eu não acredito em demônio, mas achei que talvez por esse motivo ele estivesse abandonado. Mas na verdade, ele foi praticamente destruído por um terremoto em meados do século VIII e abandonado desde então.

        O mosteiro de Kursi ficava a leste do Mar da Galiléia e era cercado por uma muralha de proteção de pedra. A entrada era protegida por uma torre de vigia e ficava em direção ao Mar da Galiléia. Antigamente, uma estrada ligava o mosteiro a um pequeno ancoradouro, para os peregrinos cristãos que chegavam de barco.

        Tem uma trilha que vai da entrada do mosteiro até uma praça que dá nas ruínas da igreja. A igreja era retangular, e tinha um pátio cercado por pilastras. Dentro, partes de duas fileiras de colunas de mármore. O chão de toda a igreja era de mosaicos coloridos e delicados, principalmente nas alas laterais, e apesar de estar tudo em ruínas ainda dava pra ver alguns mosaicos com temas da flora e da fauna, como uvas, figos, romãs, peixes, pássaros e outros. O que não dava pra ver ficava por conta da imaginação.

        Kursi hoje é um Parque Nacional, mais um pra nossa lista e o mesmo que o Duda e o Romero encontraram da última vez que estivemos no lago com o pessoal do Kibutz. Das ruínas podíamos ver a praia que acampamos. Dava pra ver também, Tibérias do outro lado do lago.

        Para passear nas ruínas, escondemos nossas bicicletas no mato e já estava na hora de resgata-las e continuar pedalando. Ao falar em bicicleta, não tive muita sorte, eu era a pior ciclista do grupo e fiquei com a pior bicicleta, deu um defeito e não passava as marchas e como era bem menor que a bicicleta dos meninos, não dava pra ninguém trocar comigo. Dei um pouco de trabalho, desde que começou a dar o problema nas marchas, não conseguia mais acompanhá-los, então, eu tinha que pedalar sempre, enquanto eles faziam pequenas paradas para me esperar, eu passava por eles e alguns minutos depois, eles pedalavam novamente, me passavam e esperavam mais adiante. Eles foram muito legais e pacientes.  Isso durou quase o passeio todo, somente no final, o Monclair decidiu me rebocar, eu ficava bem perto da bicicleta dele, ele segurava meu guidão e pedalávamos juntos, ajudou bastante. Fiquei acabada, mas foi muito legal!!!

        Pensei que eu iria ficar muito dolorida no dia seguinte, mas Monclair me alongou bem e fez até massagem nas minhas pernas e acordei zerada, pronta pra outra. E claro, ainda mais apaixonada com tanto amor e carinho.

         Na manhã seguinte, cruzamos a cidade carregando duas caixas de coisas para mandar para o Brasil de navio. Nossa viagem de carona para Tibérias com nossas mochilas completas foi muito difícil, em nossas outras viagens só levávamos o que fossemos precisar pra um fim de semana. Era a primeira vez desde que chegamos ao kibutz que saíamos com tudo e mais o que ganhamos no Sarid. A decisão de se livrar de mais um monte de coisa foi unânime.

        A ida ao correio foi quase um evento para manhã inteira, mas ainda deu tempo de passear na cidade e pra variar, nas ruínas da cidade velha, que conta com lindos mosaicos com leões, menorás e circulo do horóscopo zodíaco. Israel é realmente um prato cheio pra qualquer professor de história e para religiosos nem se fala. Passamos também na Steimatzky, uma rede de livrarias e compramos um livro de fotografias escrito em português para enviar para minha mãe em uma próxima oportunidade.

        No inicio da tarde, demos inicio a mais uma maratona de caronas em direção a Safed.

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