2 - EU VOU PARA O KIBUTZ

        Brasília, 18 de dezembro de 1997

        Na noite anterior tínhamos ido ao Spettus encontrar uns amigos do Monclair da UnB. Era uma mesa enorme, a maioria era homem, mas apesar de estarem bebendo cerveja não falavam de futebol ou qualquer assunto comum do mundo masculino. Eles só tinham uns assuntos “abstratos”, como sociedade, sustentabilidade, kibutz, socialismo, entre outros. Como conhecia pouca gente, não bebo cerveja e não entendia muito dos assuntos abordados, subi para jogar sinuca com meus amigos que estavam lá. Desse jeito, a noite foi divertida para todos nós.

         Monclair tinha dormido lá em casa, estávamos lavando a louça do café da manhã. Lembro de estar enxaguando e ele secando, todo prestativo, mas no mundo da lua, só seu corpo estava presente. De repente ele diz:

            _ Linda, eu vou para Israel.

            _ Como assim? _ Não entendi nada, naturalmente.

            _ Eu decidi que vou para o Kibutz com o Cláudio.

            Fiquei calada alguns poucos minutos e ele também, acho que ele tinha passado a noite inteira pensando nisso e tinha acabado de decidir, ali, secando prato. Parecia que ele também estava processando a idéia, era como se ele tivesse afirmado aquilo pela primeira vez até para ele mesmo.

            _ Você faz questão de fazer essa viagem sozinho?_ Perguntei

            Ele parou o que estava fazendo, olhou pra mim e perguntou:

            _ Não. Tem alguma possibilidade de você ir comigo?

            _ Tem, a gente só tem que ver como.

            A partir desse momento começamos a “viajar” no assunto entusiasmadíssimos. Pensávamos em como arrumar dinheiro suficiente para irmos. Tínhamos apenas 18 dias de namoro e acabamos de decidir que iríamos para ISRAEL. E o Peru? E o Nordeste? Tudo pareceu tão distante e Israel tão próximo.

            Nosso namoro estava indo super bem, Monclair dormia lá em casa quase todos os dias porque trabalhávamos até as 10 da noite e queríamos ficar o máximo de tempo possível juntos. Os pais dele estavam na França, o pai dele estava apresentando seu doutorado em inteligência artificial (ou alguma coisa do tipo) em Paris, nem o conhecia. A mãe dele eu tinha visto uma vez logo antes dela ir encontrar o marido na Europa. Minha mãe e irmã já adoravam o Monclair.

            Lembro como minha mãe e o Monclair se conheceram, ele tinha dormido lá em casa pela primeira vez e tinha acordado para ir ao banheiro, quando ele saiu deu de cara com ela. Ele ficou totalmente sem graça, não sabia o que fazer, o que dizer ? “Oi, eu sou o cara que estava dormindo com sua filha”. Ele ficou calado e ela, com a maior naturalidade, falou:

            _ Você é o namorado da Patrícia? Eu desci para ir para o trabalho e meu pneu tá furado, você se importa de trocar pra mim?

            Ele respirou aliviado e desceu para ajudá-la. Minha mãe sempre foi muito cabeça aberta e não se importava que levássemos namorados para dormir lá em casa. Aliás, ela preferia, dessa forma ela sempre conhecia nossos namorados e a gente acabava ficando mais em casa do que na rua, o que é muito mais seguro. Desde que ela e meu pai se separaram, ela optou por ser nossa amiga, alguém que a gente pudesse confiar e não temer.

            Alguns dias depois, o telefone tocou bem cedo, do meu quarto ouvi minha mãe falando meu nome completo em claro e bom tom, pela sua reação aconteceu o que eu não queria. Acordei o Monclair e disse:

        _ Amor, acho que passei no vestibular.

        Não deu um minuto ela bateu na porta do quarto, levantei pra abri. Ela olhou pra mim e disse:

        _ Eu não sei se você vai gostar do que eu vou te dizer, mas eu estou muito feliz. A Mônica acabou de ligar e você passou no vestibular.

        Ela mal acabou de falar e me abraçou. Eu tinha um enorme nó na garganta, era tudo que eu não queria. Tínhamos conversado com ela sobre eu ir para Israel e ela tinha gostado da idéia e até me daria a passagem se eu não tivesse passado no vestibular que eu tinha feito antes dessa idéia aparecer.

        Minha mãe, nunca teve dinheiro sobrando, mas sempre se virou para me ajudar nas minhas viagens, era com se ela pudesse estar realizando seus sonhos através de mim. Se eu não tivesse passado no Vestibular passaria mais seis meses trabalhando em lojinha sem acrescentar nada à minha vida, então ela achava muito mais interessante eu ir para o tal Kibutz que ela nem sabia direito o que era. Além disso, eu estaria com o Monclair que ela ficou fã de carteirinha.

        Mas o sonho parecia ter acabado ali, o Monclair não conseguiu disfarçar a decepção, e até brigamos. Pela primeira vez, o vi chateado, perdido, sem saber o que fazer com todos aqueles planos que tínhamos feito juntos. Eu sei que tinha pouco tempo que estávamos juntos, mas tudo era muito intenso. A possibilidade de nos separar era real e isso assustava.

        Eu estava dobrando meu turno na loja e sai para trabalhar chorando. Estava super chateada no trabalho quando olhei para vitrine e lá estava o Monclair com uma rosa branca na mão e um cartão. Sai para falar com ele, entendi que ele tinha ficado nervoso e que tudo daria certo, a gente só precisava acreditar. O cartão era lindo e tinha os seguintes dizeres: “SE MEU DESEJO SE REALIZAR VOCÊ SERÁ A PESSOA MAIS FELIZ DO MUNDO” Então ele completou “AO MEU LADO” e ainda escreveu: Para uma pessoa muito mais que especial. As vezes as coisas não acontecem da forma que gostaríamos, mas temos a obrigação de seguirmos o que acreditamos. Quero curtir muita onda boa do seu lado. Parabéns!!!! Vestibular é foda e você passou.Tudo o que há de bom que você imaginar. Monclair 18/12/97”

        Pensamos na possibilidade de conversar com a minha mãe e prometer passar no vestibular de novo assim que voltássemos. Estávamos acreditando novamente.

        À noite, conversei com a minha mãe, mas ela dizia que não estaria fazendo o papel de mãe me apoiando a não entrar na faculdade. Então, me veio a idéia.

        _ E se eu conseguir trancar e segurar essa vaga?

        _ Patrícia, isso é impossível.

        _ Mas se eu conseguir?

        _ Se você conseguir trancar o primeiro semestre da faculdade sem ter cursado e segurar essa vaga, eu te dou a passagem. Mas se você não conseguir, não se fala mais nesse assunto.

        _ Beleza, eu vou conseguir.

        O desafio me dava mais forças e desse dia em diante meu único objetivo era conseguir trancar a faculdade e fazer mais e mais dinheiro naquela loja. Eu e o Monclair estávamos dobrando, trabalhando de nove da manhã às onze da noite na semana do natal. Depois dessa semana, ia para faculdade todos os dias para conseguir trancar o primeiro semestre. Arrumei com uma senhora, que se dizia responsável pelos voluntários brasileiros ao kibutz aqui em Brasília, vários documentos e etc. Dizia na faculdade que tinha sido convidada para isso e que não podia perder essa oportunidade. Pedi demissão da loja e ficava na faculdade de manhã, de tarde e de noite até que no dia 13 de janeiro, consegui o tal trancamento. No dia seguinte pagamos o Kibutz.

        Minha mãe estava em Porto Alegre visitando a família e a minha irmã estava fazendo um estágio de biologia na Amazônia, aliás, em janeiro só tinha a gente em Brasília. Quando avisei para elas que tinha conseguido, elas vibraram comigo, elas são realmente incríveis! O próximo passo era pegar o dinheiro da minha viagem para Machu Pichu de volta e esperar a minha mãe chegar para comprar as passagens.

        O Grupo para a viagem seria eu, Monclair, Romero e Duda. Já estava conhecendo o Duda e o Romero um pouco, ou melhor, já sabia quem eram. O Cláudio não ia mais.

        Um dia cruzamos com o carro dele na rua, estavam ele e a Alessandra, namorada dele no momento. Seguimos o carro fazendo vários sinais para ver se a gente fazia alguma coisa juntos. Ele percebeu que era a gente e parou o carro em uma comercial, paramos do lado, ele abriu a janela e gritou:

        _ Fudeu tudo Monclair, fudeu!!! 

        _O que aconteceu, brother?

        _Fudeu, depois eu te conto.

        A Alê estava chorando no banco do passageiro, quando saímos, eu comentei com o Monclair:

        _ Será que a Alê está grávida?

        No dia seguinte o Cláudio, que era o melhor amigo do Monclair, ligou para ele e deu a notícia que não iria mais porque seria papai, que estava a maior barra, mas tudo daria certo. Nenhum dos dois trabalhavam, o Cláudio fazia Unb com o Monclair, mas como ele mesmo disse, tudo deu certo, tiveram total apoio das famílias e o filho deles é lindo.

        Muitas coisas aconteceram desde o dia que decidimos viajar e a data do embarque, muito trabalho, muito documento, muita coisa para resolver, festas de despedida, fomos até para a Chapada dos Veadeiros pelo menos umas duas vezes para se despedir do quintal de casa, inclusive, entramos o ano de 1998 lá.

        No dia 4 de fevereiro, passei o dia em casa com a Teca (minha irmã) e a minha mãe. No fim do dia fomos para o aeroporto, nos despedimos das famílias e às 18:15 embarcamos para essa viagem. 

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