20 - SAFED

            Saímos do pequeno hotel que estávamos hospedados e começamos a andar no sentido norte até sair da cidade de Tibérias para começar a pedir carona. Como era hora do almoço, assim que a cidade “acabou”, decidimos sentar na beira do lago para almoçar. Ainda tínhamos tomates, pepinos, pão e queijo trazidos do kibutz (Santa Eva) e preparamos nossos sanduíches ali em cima das pedras do ”Mar da Galiléia”.

            Depois do almoço começamos a pegar caronas para Safed. Sempre com a mesma técnica, Romero e Duda andavam na frente e eu e o Monclair ficávamos parados, quando conseguíamos uma carona, já dentro do carro, pedíamos para o motorista dar carona para eles também. Ninguém pára para dar carona para 4 pessoas de uma vez, mas normalmente, paravam pra dar carona para um casal e com nossa ajuda e quando cabia no carro, eles paravam pra pegar os meninos também. Desta vez não foi diferente, nossa primeira carona foi com uma moça, em um micro furgãozinho branco, estilo aqueles da Kia. Ela aceitou pegar os meninos também e nos deixou em um ponto de ônibus mais ou menos no meio do caminho. De lá, pegamos outra carona e combinamos de nos encontrar em Safed no Centro de Informação Turística. Pela primeira vez, pesquisamos um ponto específico para nos encontrar.

            A estrada para chegar à cidade, entre moshavim e kibutzim arborizados, casas bonitas e montanhas cobertas de oliveiras e videiras é linda. Quanto mais ao norte, mais verde é Israel, é incrível como um país tão pequeno tem tantos lugares diferentes, de desertos às montanhas com neve.

            Apesar de afastada dos principais centros turísticos de Israel, como Jerusalém e Tel Aviv, e pouco conhecida pelos turistas que visitam o país, a cidade de Safed tem uma importância histórica tanto como centro intelectual e religioso do judaísmo, quanto como sede judaica pré-sionista em Israel. Como eu disse antes, junto com Jerusalém, Hebron e Tibérias, Safed é uma das quatro cidades sagradas de Israel.

            Chegamos, procuramos o Centro de Informações Turísticas e lá ficamos para esperar os meninos. Como eles não chegavam nunca, aproveitamos para saber o máximo possível sobre a história da cidade.

            Safed ( Safad, Zefat ou Tzfat) é a principal cidade da Alta Galiléia, fica a 850 metros acima do nível do mar, ao norte de Tibérias e ao leste de Akko. Tem por volta de 17 mil habitantes.

            A cidade é mencionada como um dos lugares altos onde eram acesas fogueiras para enviar sinais que anunciavam a lua nova e as festividades entre 538 e 142 a.C, chamado pelo judeus, período do Segundo Templo. Até a época das Cruzadas, não se tem mais notícias da cidade, que reapareceu em 1140, com o nome de Saphet, e em 1188 foi ocupada por Saladin, que eu não sei quem é. Em 1240 foi reconquistada pelos Cavaleiros da Ordem dos Templários e passou das mãos dos Cruzados para as do sultão Mameluk Baybars em 1266. Ele aumentou suas fortificações e lá estabeleceu o quartel-general de sua província que se estendia da Galiléia ao Líbano. Parece até que estamos falando de uma superprodução de Hollywood.

            A presença judaica em Safed é documentada desde o século XI e continuou a crescer nos séculos seguintes. Por causa da expulsão dos judeus da Espanha (1492), a cidade recebeu um fluxo muito grande de refugiados e atraiu inúmeros rabinos e intelectuais judeus. No século XVI se tornou o maior centro do misticismo judaico.

            Com a Primeira Guerra Mundial a população da cidade foi dizimada pela fome e pelas doenças, porque a ajuda que recebia da Europa foi cortada. Em 1918 foi ocupada por tropas britânicas. Safed se tornou desde a Guerra de Independência, em 1948, uma cidade judia que recuperou rapidamente sua identidade espiritual e mística.

            Safed é conhecida como a “Cidade da Cabala”, é o principal centro da Cabala, pois lá viveram os maiores místicos de Israel, que se dedicavam a estudar o Pentateuco (antigo testamento). Eles elaboraram um novo método que permitisse aceder ao conhecimento místico. Segundo eles, o termo cabala indica as doutrinas secretas do judaísmo. Indiscutivelmente, seria a cidade mais judia que estávamos prestes a conhecer.

            Já era noite e como os meninos ainda não chegavam, começamos a preparar nossa janta, acendemos nosso fogareiro ali mesmo, na varanda do Centro de Informações Turísticas, que há essa hora já estava fechado, e preparamos nosso miojo.  A idéia era sempre economizar, e na maioria das cidades nós acamparíamos, mas já estava tarde e frio e a gente não se sentiu a vontade para montar nossa barraca em nenhum lugar ali próximo, decidimos então, procurar um hostel para dormir. No dia seguinte, contaríamos com a “mão invisível” para encontrar o Duda e o Romero, não havia nada que eu e o Monclair poderíamos fazer a não ser ter uma boa noite de sono. E assim foi...

 

           
03 de abril

 

            Acordamos, tomamos café da manhã e fomos andar pela cidade para procurar nossos companheiros de viagem e descobrimos que, por incrível que pareça, a cidade tinha dois Centros de Informações Turísticas!! Então, decidimos ir para o outro, quem sabe lá conseguiríamos alguma notícia, quem sabe eles tinham passado a noite por lá. Esse Centro ficava na entrada da cidade, em um prédio grande e antigo de pedras brancas com uma torre que funcionava algo que não soubemos o que é. O Centro de Informações Turísticas estava fechado, era sexta-feira, como se fosse sábado, no ocidente. Decidimos deixar por conta da “mão invisível” mesmo.

            Nosso guia de viagem dizia que uma grande atração turística na Cidade Velha é o pitoresco bairro dos artistas, onde vários pintores e escultores moram, trabalham e expõem em galerias entre os prédios de pedra branca e alguns gramados. Foi pra lá que nós fomos, estávamos encantados com o local e para nossa surpresa, vimos uma barraca igual a do Duda e do Romero em um desses gramados entre algumas esculturas e comentamos: “Só falta ser eles!!”

            Chamamos seus nomes e logo eles abriram a barraca, ainda acordando. Foi aquela festa, aquela sensação de que estava tudo certo. Obrigada “mão invisível”!

              Eles disseram que demoraram muito pra pegar carona e chegaram quase anoitecendo e ficaram nesse ponto turístico que tínhamos acabado de ir, ficou tarde e eles, como a gente, foram procurar um lugar para dormir. Também não tinham ideia que haviam dois Centros de Informações Turísticas. Juntos desarmamos acampamento, passeamos pelo bairro e seus pequenos gramados com as mais diferentes esculturas a céu aberto. Depois, fomos ao nosso hostel fazer o check out. Lá pedimos para deixar nossas mochilas guardadas até o fim da tarde e eles deixaram, assim ficava muito mais fácil passear pela cidade. Andamos a cidade toda, entramos em inúmeras sinagogas, porque o Duda estava fascinado com essa história de cabala. Mas confesso que não conseguimos muita informação a respeito, a não ser alguns livros.

            Passar um Shabat na cidade é uma experiência inesquecível. Na sexta-feira as ruas são animadas e movimentadas, todo mundo fazendo compras. Vimos muitas famílias com uns menininhos lindos com uns cachinhos saindo das costeletas. Segundo o Torah, ali está a sabedoria de um homem, assim como nas barbas, algo assim. Em Safed, a maioria dos homens é barbudo. Eles são bem barbudos mesmo e com longos cabelos saindo das costeletas, e estão quase sempre usando um chapéu preto, terno, colete e gravata. A maioria das mulheres usa cabelos compridos e um lenço envolta da cabeça. Todos se cumprimentam com um Shabat Shalom ( Paz no Shabat, eu acho) . Mas conforme o shabat se aproximava a cidade ficava deserta, tudo fechado, tivemos dificuldade até de comprar alguma coisa pra comer. A sensação era de estar em uma cidade abandonada depois das seis da tarde, ninguém na rua, sem exagero. Era como se a cidade fosse nossa! Isso me lembrou de um livro que li na adolescência, “O Blecaute”, onde quatro jovens são os únicos sobreviventes de uma cidade.

            Voltamos ao hostel, pegamos nossas “tralhas” e fomos para o parque da cidade procurar um local para acampar. Encontramos a trilha e a seguimos, era uma subida sem fim com pesadas mochilas nas costas, quando chegamos ao topo do morro, decidimos acampar.

            Durante a noite choveu muito, a ponto de encharcar a barraca dos meninos que vieram pedir abrigo no meio da noite. Colocamos todas as mochilas na barraca deles e nos acomodamos como quebra cabeça. No dia seguinte, a chuva não deu trégua e tivemos que passar o dia todo, os quatro, dentro da barraca. Um tédio, líamos, conversávamos, ouvíamos música, dormíamos e o tempo não passava.

            Quando anoiteceu os meninos decidiram descer na cidade pra tentar comprar alguma coisa pra comer, já que o shabat acabava às seis da tarde não tínhamos conseguido comprar comida no dia anterior. Estávamos famintos!! Fiquei na barraca, não quis encarar o frio e correr o risco de me molhar novamente. Está aí uma coisa que realmente detesto, passar frio.

 

05 de abril – domingo

 

            O dia amanheceu ensolarado, graças a Deus! Para aproveitar o sol, começamos a tirar as roupas das mochilas que estavam molhadas e estender no chão, na grama e nos bancos para secar. Percebemos que no local que acampamos, tinha um mirante e um monumento aos judeus. Desse mirante, dava pra ver a Galiléia inteira, inclusive o lago Kineret (Mar da Galileia). Foi lá que o tal Mameluk Baybars estabeleceu o quartel-general, ele não era bobo mesmo, dali ele tinha controle de tudo que se passava envolta da cidade.

            Encontramos uma pequena torneira, onde finalmente conseguimos escovar nossos dentes e lavar as louças sujas no café da manhã. Enquanto eu escovava os dentes, ouvi um burburinho de pessoas falando, quando vi, um grupo de uns 30 turistas estavam chegando ao local, quase morri de vergonha,  o lugar parecia uma favela com roupas, sacos de dormir, louças espalhados por toda grama. Não sabíamos que ali era um ponto turístico. Mesmo porque, uma vez as coisas estendidas, lá ficariam até secar.

            Conforme ia chegando o meio do dia, arrumávamos tudo de novo dentro das mochilas, sempre despertando a curiosidade de quem passava lá. Com tudo pronto, procuramos um hostel onde nos acomodamos mais uma vez, os quatro no mesmo quarto. Fizemos do quarto mais uma pequena favela com o que ainda precisava de mais tempo para secar e fomos explorar a cidade.

            Além da visita das sinagogas, os túmulos dos grandes mestres cabalistas enterrados em Safed são lugar de constante peregrinação, então decidimos conhecer. De lá avistamos um vale e vimos que se cruzássemos o cemitério inteiro, conseguiríamos chegar lá, então começamos a descer. Andando entre os mais variados e antigos túmulos, e quando se fala em antigo em Israel, é velho mesmo, chegamos a mais um mirante dentro do cemitério. Continuamos nossa decida e o Romero começou a ser queixar de uma forte dor de barriga.

            Saímos do cemitério e estávamos no vale, um local lindo, e nos espalhamos, sentando cada um em uma das pedras brancas que sobressaiam na paisagem verde e desfrutamos de momentos de contemplação. O humor do Romero já não era o mesmo, mas curtia a paisagem calado. Decidimos descer até o rio, e valeu a pena, era um pequeno rio de águas cristalinas, lindo. Lá ficamos mais um tempo, só curtindo a natureza e ouvindo o barulho da água, na maior parte do tempo em silêncio. O dia estava lindo, mas ventava muito, então decidimos voltar, afinal de contas subir a noite, o que já tinha sido difícil descer de dia, não seria aconselhável. Principalmente porque não havia nenhuma trilha.

            Foi um passeio para recarregar as baterias. Só o Romero é que na subida, não agüentou e teve uma diarréia. Coitado, largou o ritmo descompromissado do grupo e voltou para o hostel. Nós três passamos novamente no cemitério, que realmente era mais uma atração turística e vimos uma árvore cheia de pedaços de plásticos amarrados. Tentamos entender o que significava, mas não conseguimos respostas.

            Voltamos para o hostel, o Romero estava melhor. Aproveitamos uma confortável e merecida noite de sono, depois de duas a noites de chuva dividindo a mesma barraca. No dia seguinte, deixaríamos Safed em direção à Bet’ Shean.

            Nessa data na minha agenda tinha uma frase de Beto Portugal que tinha tudo a ver como esse momento de nossas vidas: “Não tem ciência. Não precisa de escola. Estamos aprendendo tudo a toda hora!”

PRÓXIMO CAPÍTULO - BET SHE'AN