21 - BET SHE'AN

 

Israel, 06 de abril de 1998

Não lembro porque, mas começamos a pegar carona antes do Duda e do Romero. Como sou mulherzinha, faço uma certa pressão para não sair das cidades muito tarde e evitar pegar carona a noite, não gostei muita da nossa primeira experiência em Meggido.

Bet She`an é uma cidade e um parque nacional ao sul de Tibérias no Vale do Rio Jordão, e como o mapa que tínhamos de Israel mapeava todos os parques nacionais do país, decidimos que nosso objetivo seria conhecer a maior parte deles, quem sabe todos. Estávamos nos saindo muito bem seguindo esses planos e conhecendo um lugar mais incrível que o outro, e agora estávamos a caminho de Bet She`an.

Pegamos algumas caronas até Tibérias, quando chegamos lá uma fila de viajantes estavam pegando carona um quarteirão antes do hostel que havíamos nos hospedado em nossa estada na cidade, como já estava quase anoitecendo, decidimos passar a noite por lá e voltar a pegar carona no dia seguinte, seria mais seguro. Atravessamos a tal fila de viajantes e seguimos para o hostel. Antes de entrar, decidimos tentar pedir a ultima carona, só por desencargo de consciência e, para nossa sorte, o carro parou!

Era um jovem de vinte e poucos anos vindo do extremo norte de Israel em direção à Eilat. Ele nos disse que estava viajando sozinho e precisava de alguém pra conversar com ele pra ele não dormir. Disse que pensou nisso quando viu aquela galera pedindo carona, mas já tinha passado por eles, foi então que nos viu e decidiu parar. Mais uma vez, obrigada “mão invisível”! Foi perfeito, adoramos conversar e ele adorava o Brasil, não faltou assunto para a viagem.

Ao chegar em Bet She`an, ele nos levou para um barzinho de um amigo dele e pediu para que nos tratassem como clientes especiais e se despediu. O nome do bar era Dionisios, uma gracinha. Aproveitamos para namorar um pouquinho, lembro até de ter bebido uma cerveja com o Monclair, apesar de não gostar de cervejas. Viajar em grupo é muito bom, mas um tempo só do casal era essencial, e estávamos curtindo.

Já não tínhamos mais a esperança de ver os meninos naquela noite, então fomos procurar um lugar para armar nossa barraca e dormir. Atravessamos um enorme gramado em direção ao parque nacional, armamos a barraca e dormimos muito próximos a entrada, na grama entre alguns arbustos.

No dia seguinte, desarmamos tudo e fomos para o parque. Um pouco mais cedo, o Monclair tinha saído para dar uma volta enquanto eu dormia e encontrou uma entrada clandestina ao lado da principal, o que nos ajudaria a economizar a entrada, então entramos por lá. No inicio da viagem, isso me incomodava, mas a essa altura já tinha me acostumado, não tinha dinheiro mesmo, fazer o que?

Estávamos muito ansiosos para conhecer Beit She'an, que é atualmente um dos sítios arqueológicos mais importantes de Israel, onde pudemos ver uma das maiores e mais bem preservadas ruínas já escavadas de cidades do período de dominação romana e bizantina.

A história de Beit She'an é muito antiga, portanto longa, mas vou tentar resumir. A cidade sempre teve uma importância estratégica por estar localizada no cruzamento de várias estradas. Foi rota fundamental para as caravanas e também centro administrativo do governo egípcio, provavelmente do início do século XV ao século XII a.C. e só perderam o controle quando a cidade foi destruída por um incêndio.

Na verdade, Beit She’an foi controlada por diferentes povos durante toda sua história. É mencionada inúmeras vezes na Bíblia e citada no Livro de Samuel, que conta a história de uma batalha que o rei Saul e suas tropas foram decapitados e tiveram seus corpos pendurados pelos inimigos nas muralhas da cidade. Sinistro A cidade também foi muito importante no reinado de Salomão.

Em 732 a.C a cidade foi totalmente destruída pelo rei assírio Tiglat Pileser III, quando conquistou o reino de Israel. A região só foi povoada novamente durante o governo de Alexandre, o Grande, na segunda metade do século IV a.C.

Quando o Império Romano conquistou a região, em 63 d.C., Beit She'an era a cidade mais importante do norte de Israel. Durante o século II d.C., o império viveu uma fase de paz, segurança e prosperidade econômica.  Scythopolis, como era conhecida durante os Períodos Helenístico, Romano e Bizantino, foi um dos mais arrojados exemplos de planejamento urbano avançado e detalhado. Ao lado das avenidas principais, tinham fileiras de colunas de mármore e também construíram um templo para deuses romanos, a basílica, as fontes e as casas de banho públicas. Ao sul, tinha um complexo de lazer, com o teatro e o anfiteatro.

No século VI, com 40 mil habitantes, a cidade atingiu a sua maior área territorial, com bairros residenciais e igrejas construídas também fora dos muros. Mas Scythopolis foi dominada pelos muçulmanos em 635 d.C. e foi renomeada "Beisan". Em 18 de janeiro de 749 d. C. a cidade foi novamente destruída por um terremoto.

No século XII, quando os cruzados chegaram à Terra Santa, construíram uma pequena cidade, com o objetivo de controlar as estradas e impedir a entrada dos muçulmanos. Mas Beit She'an não foi reconstruída, permanecendo apenas como um pequeno vilarejo árabe, nos últimos séculos. No início do século XX, os judeus voltaram a povoar a área e, em 1990, Beit She'an já tinha uma população de aproximadamente 15 mil habitantes. Hoje a cidade velha é um amontoado de ruínas e escavações, mas tudo com muita informação e com um pouquinho de imaginação, dava pra ter uma boa idéia de como era.

Eu e o Monclair passamos o dia no parque, admirando tanta historia e o colorido das pequenas flores desmascarando a primavera. Graças às escavações arqueológicas, pudemos caminhar pelas ruínas do anfiteatro romano e das amplas avenidas cercadas pelas colunas de mármore já restauradas e, através delas, vislumbrar a grandiosidade um dia vivida por Beit She'an.

 No fim da tarde os meninos nos encontraram, foi aquela festa novamente! Além de nós dois, havíamos adotado um pequeno vira lata preto que insistia em nos acompanhar desde a noite anterior.

Como pensávamos, os meninos tiveram que dormir em Tibérias dado a hora que tinham chegado, e acabaram passando o dia por lá na companhia de umas meninas que eles conheceram. Isso foi legal, eles curtiram uma onda solteira por lá e nós uma onda casal em Beit She’an. Como já era fim de tarde, resolvemos voltar ao Dionisios para comemorar o reencontro. E contar para eles com detalhes tudo que tínhamos visto e aprendido naquele dia, o que tinha sido uma verdadeira viagem no tempo.

Acampamos no mesmo lugar, nós quatro e nosso cachorro. No dia seguinte passamos o dia no parque novamente, dessa vez com os meninos.

Os monumentos mais impressionantes descobertos nas escavações em Beit She'an são um altar dedicado a Zeus Akraios que é uma indicação de que lá existiu um templo pra ele, assim como um pouco mais adiante, tem um outro destinado ao culto de Dionísio. Um pedestal em frente ao altar de Dionísio tem uma inscrição em grego, com o nome do Imperador Marcus Aurelius (161-180). É do mesmo período a casa de banhos, com paredes e pisos revestidos de mármore e uma fonte. Mas o anfiteatro é a construção em melhor estado de conservação dos tempos romanos, com 110 metros de diâmetro e capacidade para oito mil pessoas. Realmente impressionante!

 A parte mais divertida foi fazer o filme... No meio daquela confusão de ruínas, decidimos fazer um filme, onde alguém invisível conversava com a gente e à medida que íamos entendendo o que ele dizia, nos transportávamos para passado, para o período de gloria da antiga cidade. Parecíamos crianças brincando de representar naquele mundo de ruínas reais. Não conseguimos terminar as filmagens porque acabou a bateria da filmadora, o que acabou com nossa brincadeira. Mas foi muito divertido enquanto durou. Eu enviava para minha mãe todas as fitas que filmávamos e todos os rolos de filme de fotografia quando acabavam para ela poder acompanhar a nossa viagem, ela deve ter achado que estávamos loucos quando assistiu essas cenas (rsrsrs).

À noite voltamos ao Dionisios e conhecemos um alemão que estava viajando Israel de bicicleta, uma das coisas legais de viajar solto no mundo é que a gente sempre encontra gente mais doida que a gente. Ele acabou indo dormir no mesmo lugar que a gente e foi interessante ter uma pessoa diferente pra conversar. Aconteceu uma coisa engraçada com esse alemão, não sei o que ele comeu, mas ele teve diarréia à noite toda e quando acordamos, ele já tinha saído, sem nem se despedir, acho que ele ficou com vergonha do rastro que ele tinha deixado. Deixou a grama toda “cagada”, com perdão da palavra. Não ficou nem pra conhecer o parque, coitado.

Todos os guias (livros) dizem que basta uma tarde pra conhecer Bet She`an, já estávamos ali por três dias, era hora de partir.

 Nossa partida foi de cortar o coração por causa do nosso cachorrinho, andamos até a saída da cidade e ele nos acompanhou. Conseguimos carona em uma ambulância e ele correu atrás do carro até sumirmos no horizonte. Nós quatro acompanhamos o desespero do pobre cãozinho pra acompanhar o carro que se distanciava, ficamos todos comovidos com a cena. O silêncio tomou conta do carro por alguns minutos.

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