22 - PESSACH

Essa carona nos levou à Gan Hashlosha, também parque nacional, onde tem uma pequena queda d’água e algumas piscinas naturais e fazia parte de nossos planos. Mas o local estava lotado, especialmente de árabes, uma farofa só, era impossível conseguir entrar. Ficamos algum tempo do lado de fora pensando no que fazer.

Segundo nossos planos, de Gan Hashlosha iríamos para Bet Alpha, mais um parque nacional e dormiríamos por lá, mas o Duda decidiu por ele mesmo, que iria para Jerusalém para passar a páscoa. Ficamos todos muito chateados no momento, porque até ali, tudo tinha sido decidido pelos quatro e agora o Duda estava querendo se desgarrar do grupo. Foi uma grande DR (Discussão da relação) a quatro. No final, mesmo o Romero dizendo que preferia seguir os planos, decidiu ir com o Duda, para não deixa-lo sozinho.Eu e Monclair seguimos os planos iniciais e fomos para Bet Alpha e voltaríamos a nos encontrar em Jerusalém, só Deus saberia como.

Bet Alpha fica em um Kibutz chamado Hefzibá. Lá nos deparamos com mais tecnologia a favor do turismo e da história. O lugar se resume a ruínas da antiga sinagoga de Beit Alpha, do século VI com chão em mosaico. Ao chegar, a pessoa encarregada nos acomoda na sala onde está o tal mosaico e coloca um vídeo, ao iniciar o vídeo todas as luzes se apagam e de acordo com o que é explicado no filme, um facho de luz se acende para que nós possamos identificar o que ele está dizendo, simples e fantástico! No mosaico tinha o sacrifício de Abrão, os doze signos do zodíaco com seus nomes escritos em hebraico e aramaico, símbolos judeus, animais, era uma coisa linda.  Esse mosaico foi construído na mesma época dos mosaicos de Bet She’an e um pouco depois dos mosaicos de Tibérias e do lago Kineret, entre os séculos IV e VI. Essas ruínas foram encontradas em 1929 pelas pessoas que estavam construindo o kibutz que hoje abriga e conserva a antiga sinagoga. Eles chamaram os arqueólogos e foi o primeiro trabalho de arqueologia da Universidade de Jerusalém.

Estávamos relativamente perto de Afula e consequentemente, perto do Sarid, então decidimos que passaríamos a páscoa por lá. A páscoa para os Judeus tem um significado muito diferente daquele que comemoramos no Brasil e nos países católicos, que comemoramos a ressurreição de Cristo. Os judeus têm sua religião e tradição baseados na Tora, escrita antes de Cristo. Segundo a Tora, os israelitas, liderados por Moisés, deixaram o Egito iniciando sua viagem em direção ao Monte Sinai. Durante o dia, Deus fazia uso de uma coluna de nuvem e de noite uma coluna de fogo para guiar Seu povo. No sétimo dia de sua saída do Egito, Deus ordenou Moisés a levar seu povo para beira do Mar Vermelho, mas as tropas egípcias alcançaram o povo de Israel enquanto este acampava frente ao mar. Os judeus viram um exército forte, unido e extremamente bem-organizado, o mais poderoso da época, marchar na direção deles. Foi quando Moisés pediu a ajuda de Deus e batendo seu cajado no chão abriu as águas do Mar Vermelho e seu povo pode atravessar em terra seca. Quando os israelitas estavam salvos, Moisés estendeu sua mão e as águas voltaram, afogando todos os egípcios que se tinham tentado segui-los pelo mar.

Foi nesse dia que os israelitas deixaram de ser escravos para sempre. Após a "abertura do mar", o povo de Israel finalmente se tornou um povo livre. E é isso que eles comemoram na páscoa. Fiquei curiosa para saber a versão egípcia do mesmo acontecimento.

Pena que essa decisão de passar o Pessach ou a páscoa no Sarid não foi acatada pela Eva, por mais queridos que fossemos, ela disse que as coisas não eram bagunçadas assim, não podíamos sair e entrar quando quiséssemos. Se não éramos mais voluntários, não podíamos ficar. Insistimos para passar a noite lá, porque já estava escuro e estávamos muito cansados, ela concordou e disse até para tomarmos café da manhã com todos e ir embora na seqüência. Aceitamos com muito alívio e felicidade, melhor que nada, estava exausta.

Fomos direto para o Twins rever os conhecidos, mas muitos haviam partido logo depois de nós. Ao chegar ao Scorpions, uma grande surpresa, um recado da Luna para o Duda: “If Duda calls, please give Luna`s telephone number in Tel Aviv: 0977 41074” (Se o Duda ligar, por favor dê o telefone da Luna em Tel Aviv). Imediatamente fomos para o orelhão ligar, não só encontramos a Luna, mas os meninos já estavam lá,  tinham encontrado a Luna e estavam todos em Tel Aviv. Nos disseram que continuavam com os planos de passar o Pessach em Jerusalém e iriam para lá no dia seguinte. Essa tal “mão invisível” insistia em nos surpreender!

O Thiago, nosso conterrâneo de Brasília, continuava no kibutz e já não estava mais morando no prédio dos voluntários, tinha arrumado um quartinho bem menos confortável, mas só dele em um dos prédios do exército. Foi ele quem nos abrigou naquela noite.

Passamos boa parte da noite conversando sobre nossas viagens, sonhos, aprendizados e as novidades do kibutz. Ele nos contou que uma noite, depois que saímos, os voluntários decidiram fazer um protesto em relação à sala de televisão, que realmente era um lixo. Estavam bêbados na hora da tal revolução e fizeram uma fogueira com os móveis que tinha lá dentro. Com certeza, esse protesto sem pé nem cabeça gerou a maior confusão para os voluntários.

Nessa noite, nós três dividimos uma cama de casal para dormir, eu e o Monclair virados para um lado e o Thiago para o outro. Conversa vai, conversa vem, desmaiei de sono. No meio da noite, Monclair teve um sonho muito maluco e acordou bem assustado. Não sei se com isso ele acordou o Thiago, ou se ele não tinha conseguido dormir com a superlotação em sua cama, mas segundo o Monclair ele estava acordado e passaram mais algumas horas conversando.

No inicio, estávamos com sentimentos confusos, separados do Duda e do Romero, “rejeitados” pelo Kibbutz, que para nós era nosso porto seguro, mas receber aquele recadinho da Luna, falar com os meninos e dormir no quarto do Thiago, um amigo de Brasília naquele lado do mundo, fez com que a noite fosse mágica, mais uma vez. Valeu Thiago!

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