23 - DE VOLTA A TEL AVIV

Sarid, 10 de abril de 1998

 

            Acordamos no Sarid pela última vez, tomamos café e começamos a pegar carona para Cesaréia.

Cesaréia era mais parque arqueológico do nosso mapa, fica na costa do Mediterrâneo, no meio do caminho entre Tel Aviv e Haifa. As escavações arqueológicas durante as décadas de 50 e 60 revelaram remanescentes de muitos períodos lá, principalmente, as ruínas da cidade do período das cruzadas e um teatro romano. Cesaréia foi nomeada por Herodes em homenagem ao imperador romano César Augusto. Era uma cidade murada, com o maior porto na costa oriental do Mediterrâneo, chamada Sebastos, o nome grego do Imperador Augusto. Mas as caronas que pegamos não sabiam onde era e quando nos demos conta, já estávamos quase em Tel Aviv, então decidimos ir pra lá mesmo. Vamos para onde os ventos sopram.

            Passamos a tarde à procura de um hostel barato pra ficar, pois a nossa experiência nos mostrou que em nossa primeira vez na cidade, pagamos muito caro para dormir, e não dá pra acampar em qualquer lugar em uma cidade como Tel Aviv. Sem muito sucesso, fomos ao Bar do Felipe. A sensação de tempo para nós estava muito diferente do normal, tínhamos saído de Tel Aviv há apenas dois meses, mas pareciam dois anos, tamanha a quantidade de coisas que já havíamos vivido até ali. Foi bom ver que o Bar do Felipe continuava lá e igualzinho, um lugar que sabíamos que seríamos bem vindos, uma cantinho brasileiro ali do outro lado do mundo.

Dessa vez, conhecemos o Rodrigo a quem o Felipe nos apresentou como amigos do Leo. Rodrigo era um carioca que estava morando naquele terraço onde o Leo morava em nossa primeira vez em Tel Aviv, o Leo tinha ido para Austrália. Tão pouco se passou e tanta coisa aconteceu! Ele nos acomodou no terraço onde montamos nossa barraca. A única vantagem de ficar no terraço é que era um pouquinho mais fresquinho de noite e o “banheiro” também ficava do lado de fora. O “banheiro” era um box improvisado com uma mangueirnha para escovar os dentes e tomar banho, bem favela.

No mesmo dia, o Monclair e o Rodrigo foram snorklar (mergulhar) na praia, mas como já era fim de dia, preferi ficar fora da água. Da praia apreciamos o pôr do sol sobre o Mar Mediterrâneo mais uma vez. Obrigada Papai do Céu, pelo pôr do sol e pela hospedagem!

            À noite fomos para o BUZSTOP (um barzinho a beira mar) com nosso anfitrião e acabamos a noite conversando sentados na areia da praia em frente da casa do dele. Muitas experiências para trocar e algumas futilidades.

            O dia seguinte foi de praia, só eu e o Monclair, uma delícia! Uma delícia mesmo ficar fazendo nada, éramos tão sedentos por novos lugares e aprendizados, que ficávamos pouco a toa. À noite mudamos para o hostel Vegas, onde estavam o Andrew, a Ema e a Molin, voluntários suecos que conhecemos no kibutz que encontramos caminhando na Bem Yehuda, a rua do Bar do Felipe, como se fosse a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio. No hostel encontramos também o Jimmy e a Catarina.

O hostel era nojento, não sou de ter frescura com essas coisas, mas era um lugar com uma energia pesada, pessoas cheirando cocaína nos quartos que eram comunitários, viciados em drogas pesadas, cada um mais esquisito que o outro. O lugar era realmente o mais barato, mas não queria passar outra noite lá. As camas de solteiro eram menores que uma cama comum, mas mesmo assim, optamos em dormir os dois na mesma cama, um protegendo o outro. Foi uma noite super tensa.

            Na manhã seguinte, guardamos nossas coisas na casa do Rodrigo e passamos mais um dia na praia, era domingo de páscoa. Mais um dia de pura preguiça a milanesa. À noite, encontramos o Nathan (canadense) e o Chris (neozelandês), também ex-voluntários do Sarid e fomos conhecer o hostel deles. Decidimos ficar lá, o clima era muito melhor. Antes da mudança, fomos comer no Bar do Felipe, e lá aconteceu uma coisa sinistra: a pressão do Monclair baixou e ele quase desmaiou, foi por muito pouco. Mas tudo logo ficou bem, comemos e decidimos que era hora de ir para Jerusalém encontrar os meninos. Em um ato de completa insanidade mental, pegamos nossas coisas no velho terraço e corremos para a rodoviária. Dessa vez, fomos de ônibus, já era noite!

 

ANOTAÇÕES DO MONCLAIR

 

“Tel-Aviv – 11 de abril de 1998 – Monclair

 

 

            Ontem foi Pessach judeu – acho que é a maior festa religiosa judaica, é extremamente familiar.

Tel Aviv está lotada e depois de sexta à noite (19:00) tudo pára até 12:00. Apenas homens de olhar solitário e distantes se encontram nos poucos bares abertos . Vim parar aqui por acaso, depois de passar (quinta) por um clube de piscina natural sem entrar. O Duda e o Romero seguiram para Jerusalém e eu e a Pat fomos para Bet Alpha e depois de volta para o Sarid com a esperança de passar o pessach lá. Mas só dormimos e na manhã de sexta fomos convidados a nos retirar, segundo a Eva não podemos sair do kibbutz e depois voltar só para a festa.

De carona, seguimos sem rumo, queríamos chegar em Cesareia, mas meio que empurrados chegamos em Tel-Aviv. Depois de alguns NÃOS acabamos na casa de uns brasileiros acampados no terraço de um prédio baixo a beira do Mar Mediterrâneo. Aliás, estávamos exatamente naquele terraço onde o Leo e a Gabi moravam, mas do lado de fora.

Sem saber direito porque, um sentimento de solidão insistia em tomar conta de mim. Aliado a cidade grande e a distância dos meus entes queridos, uma ânsia que a noite acabasse logo me perseguiu. Na madrugada saímos na rua e até as três da manhã, eu, Rodrigo e a Pat ficamos conversando sobre o Brasil e futilidades. Rodrigo é um dos brasileiros que estava nos hospedando. Nesse dia mergulhei de snorkel com ele no por do sol.

Sábado de sol na praia. Estar com a Pat me confortou muito.

Quando chego entre muitos dos meus, muitos são os que não entendo. Energia!? Talvez isso, dispersada, uma névoa de quereres se levanta em meio a minha atmosfera e não consigo ver direito. Não me identifico. Apenas mais um! Nunca! Sempre sou mais que isso. Contudo, uma tristeza me envolve a impressão (será?) de solidão e incapacidade permeiam minha armadura e a enferruja. Não me mexo perfeitamente. Preciso sair da cidade grande.

 

CONTINUAR – Decidimos ir para Jerusalém encontrar o Duda e o Romero.” 

PRÓXIMO CAPÍTULO - JERUSALÉM