24 - JERUSALÉM

 

            Chegamos a Jerusalém depois das 11 da noite, lógico na rodoviária nos ofereceram taxis e quando pedíamos informações diziam que teríamos que pegar um ônibus ou um taxi, mas lógico que andamos da rodoviária para a cidade antiga de Jerusalém. Tudo bem, nem pegamos carona para chegar até lá. Nosso maior objetivo naquela noite era procurar um lugar para dormir, de preferência encontrar o lugar que o Duda e o Romero estavam. Há essa hora a cidade velha é deserta e assustadora, como a maioria das cidades árabes á noite, só cruzamos com uns caras do exército, afinal de contas eles estão em todos os lugares. Percebi que estávamos cada vez mais acostumados com aqueles lugares que a principio eram tão diferentes.

            Usando o nosso guia, procuramos um hostel e mais uma vez, encontramos o hostel que os meninos estavam hospedados por pura sorte, ou melhor, com a ajudinha básica daquela “mão invisível”. Naquela situação era difícil achar um hostel no labirinto que é a cidade, encontrar exatamente o hostel certo, era incrível! Mas incrível mesmo é que eles não estavam lá, eles estavam trabalhando!

            Chegaram de madrugada e imagina a surpresa de nos encontrar lá. Estávamos todos cansados, mas tínhamos tantas coisas para compartilhar que ficamos conversando por um bom tempo. A Luna também estava lá e ela e o Duda formavam o mais novo casal do grupo naquele momento. A sensação de estarmos juntos novamente era muito gostosa.

             No dia seguinte, enquanto eles descansavam, eu e o Monclair fomos dar uma volta nas ruas da cidade velha e tivemos nossa primeira lição ao fazer compras no mercado árabe. Paramos em várias lojinhas e em uma delas o Monclair me deu uma saia linda, mas levamos a maior bronca. No inicio não entendemos, mas a bronca foi por não pechinchar, e quem reclamou foi o próprio comerciante! Aprendemos a lição, principalmente eu, por não ter deixado o Monclair pechinchar, e ele bem que queria. Para eles é um desrespeito não negociar, aceitar o primeiro preço é como dizer que não quer negociar com ele. Vivendo e aprendendo, ainda mais em um “mundo” tão diferente do nosso.

            À tarde, nós já estávamos trabalhando com os meninos em um restaurante argentino chamado Blue Brothers no centro da cidade nova de Jerusalém. Era um trabalho temporário, só para atender a demanda que lotava a cidade por causa da páscoa ou Pessach. E nós, éramos trabalhadores ilegais, portanto, mão de obra barata. Começávamos a trabalhar às 16:00 e só saíamos por volta das 03:00 ou 04:00 da manhã. Eu passava a maior parte das minhas 12 horas de trabalho secando copos, parada no mesmo local. O Monclair, o Romero e um outro gringo eram ajudantes de garçom, funcionava mais ou menos assim: o garçom anotava o pedido, fazia toda parte de relações publicas e recebia as gorjetas, enquanto os meninos recolhiam tudo e serviam os pratos e as bebidas. Era cansativo, mas ganhávamos por hora e recebíamos também um prato de comida, que era muito bem vindo, principalmente aquela comida sul americana, com carne argentina, arroz, vinagrete, hum! A comida era realmente maravilhosa!

                Nesse trabalho, eu vi o Monclair realmente nervoso pela primeira vez. Ele virou o que mais tarde apelidamos de “Monstroclair”. Nossos chefes argentinos eram judeus e muito grossos (em todos os sentidos), mas nos esforçávamos para não desagradar. Os judeus têm uma tradição que diz que só um judeu pode abrir um vinho para outro judeu, e para que a tradição seja sempre cumprida, ficam uns “projetos” de rabinos fiscalizando os locais onde servem vinho à mesa, o que era o caso do Blue Brothers.  Em uma noite de muito movimento, o Monclair procurou os tais rabininhos para abrir a garrafa e segundo ele, não os encontrou, pediu ao garçom, que era judeu, para abrir e foi ignorado, para não dizer mal tratado. Então decidiu pedir para o dono do restaurante, que no momento estava conversando com um cliente, para que ele abrisse, mas o mesmo mandou o Monclair enfiar a garrafa no ... Essa hora, eu estava lá fora ajudando a recolher as louças de uma das mesas e não estava a par de nada, só vi quando o Monclair saiu e disse: “Pat, vamos embora agora!” com um tom que eu nunca tinha ouvido antes. Seu rosto estava vermelho e deformado de tanta raiva. Larguei tudo e fui atrás dele, que já tinha voltado para dentro do restaurante para trocar de roupa e pegar as coisas dele. Quando entrei, me deparei com a cena do tal argentino dando uma apertada na bochecha do Monclair zombando por ele estar vermelho de nervoso com um sorriso irônico na cara. Ainda bem que o Romero e o Duda estavam lá para segurar o Monstroclair! Saímos todos ao mesmo tempo, demissão em massa! Antes mesmo de conseguirmos abandonar o local, eles vieram atrás de nós, pediram desculpas e no final, voltamos e terminamos o dia de trabalho, recebemos pelas horas trabalhadas, devolvemos as camisas quadriculadas em tons de azul (uniforme) e nunca mais voltamos. O trabalho foi bem desgastante, não somente pelo volume de trabalho, mas principalmente pelo ambiente de trabalho que não era nada agradável.     

            Na cozinha, a um metro de distância de mim, trabalhava um árabe de 16 anos, com cara de 25. Ele ficava mais de 16 horas por dia lavando louça a mão. No fim do dia, suas mãos estavam inchadas e tão enrugadas que dava agonia de ver. Trabalho escravo, sem dúvida.

            No dia 16 de abril, aproveitamos o fato de estarmos desempregados e mudamos de hostel. Fomos para o Tabasco Hostel, famoso entre os viajantes em Jerusalém. O hostel, além de bem localizado, mantinha a arquitetura do Período Mameluco 1260-1516 d.C. Lá também eram quartos e banheiros coletivos, mas nós tínhamos uma cama de casal. Isso mesmo, erámos os únicos, acho que a pessoa na recepção simpatizou com a energia do casal e providenciou o colchão de casal que estava guardado para uma cama de concreto prontinha só para recebê-lo. Na verdade, não sei por que não estava sendo utilizado por outras pessoas, mas ainda bem que não estava. Só nesse dia começamos a conhecer Jerusalém de verdade, cinco dias após nossa chegada e de muito trabalho.

            O Tabasco ficava bem no centro da Cidade Velha de Jerusalém, a um minuto de distância da Igreja do Santo Sepulcro e cinco minutos a pé da Via Dolorosa, Domo da Rocha, Al-Aqsa e o Muro das Lamentações. Nós estávamos viajando juntos novamente e com aquela energia contagiante, fomos para o Muro das Lamentações.

            O Muro das Lamentações em Israel, é o local mais sagrado do judaísmo, foi construído em 70 d.C. Segundo a Bíblia, durante o reinado de Salomão, foi construído um grande templo para abriga a Arca da Aliança, com as tábuas dos mandamentos de Deus. O muro é uma das únicas partes do Templo que sobrou atualmente. Até a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel se reapropriou de Jerusalém,o local servia de depósito para queima de lixo, o que para o judaísmo era uma grande ofensa. Os judeus vão rezar no Muro das Lamentações e colocam nas frestas bilhetinhos com seus desejos por escrito. As mulheres tem uma área separada dos homens, e não sei se era a proximidade do pessah, mas estava lotado. Eu e Luna para um lado, meninos para o outro. É muito engraçado, porque os judeus mais ortodoxos ficam rezando e batendo a cabeça levemente no muro. Juro que gostaria de entender porque, mas ninguém me explicou.

             De lá, decidimos ir ao famoso Monte das Oliveiras. No caminho, passamos pelo Vale do Cedron, que fica entre o Monte do Templo (Local da Jerusalém Antiga onde fica o Domo da Rocha) e o Monte das Oliveiras. Esse vale tem vários túmulos judaicos, e paramos na Tumba de Zacarias, um profeta que anunciou entre 520 e 518 a.C. uma série de visões sobre a reconstrução de Jerusalém e do Templo, a volta do Messias, entre outros. O tumulo era um grande monumento (aproximadamente 30 metros) esculpido na pedra com uma pirâmide no topo e uma pequena porta. Na verdade, só um lado estava esculpido, os demais estavam ásperos e inacabados, como se estivesse sido abandonado antes de ser terminado, pra gente não importava, era um tumulo de mais de dois mil anos, do lado de fora dos muros de Jerusalém.

            Continuamos nossa caminhada até outro monumento, conhecido como Pilar de Absalão, filho rebelde de David, aproximadamente 1000 a.C. Segundo a história, Absalão traiu o pai, foi apedrejado até a morte e seu túmulo erguido fora dos muros da cidade. Dizem que existia uma antiga tradição entre os judeus de Jerusalém, que os pais quando queriam educar os seus filhos, os levavam ao Pilar de Absalão e apedrejavam o pilar diante dos filhos para ensinar o que acontece com filhos que se levantam contra os pais. Não sabíamos dessa tradição e também não vimos nenhum judeu apedrejando o monumento e lá ficamos até o dia terminar.

            O túmulo tinha uns 45 metros de altura e era oco, sendo que tinha um pequeno buraco a uns cinco metros de altura e os meninos só sossegaram quando escalaram o túmulo e entraram lá. Tudo para eles tinha que ser uma aventura. Neste caso, eu só assistia...

            No Tabasco Hostel, fizemos um amigo cabeludo chileno que morou 3 anos no Brasil e falava português perfeitamente, para o desespero de Luna. Ele amava brasileiros, ficou muito feliz por nos conhecer e nos convidou para ir para um festival alternativo de tambores perto de Tel Aviv. Aceitamos sem hesitar, guardamos nossas coisas em um locker do próprio hostel e fomos! Qual seria a dúvida em aceitar um convite daqueles, principalmente depois que tivemos o prazer encantador de assistir o nosso primeiro por do sol em Israel naquela praia em Tel Aviv ao som de tambores, lembram?  Passamos o dia pegando carona para Milkhmoret onde ia acontecer o tal festival.

           Foi incrível, nunca tinha participado de algo igual. Todo mundo levava uns tapetes, sacos de dormir pra passar a noite por lá mesmo. Todos estendiam seus tapetes envolta de uma galera que ficava cantando e tocando instrumentos. Ora era reggae, ora eram uns mantras, e tudo ao som de muito tambor, ou melhor, percussão em geral. Esqueci de dizer que a maioria das pessoas levava um instrumento também. O local era uma espécie de chácara onde montaram algumas barraquinhas como as que nós montamos nas festas juninas do Brasil. Outra coisa que me impressionou muito foi o número de animais e crianças soltos no meio da festa. Não quero comparar animais a crianças, mas pra mim isso mostra o ambiente saudável do festival. Me senti em um Woodstock pré ano 2000, uma coisa mais clean, mais consciente, todo mundo meio alternativo ou alternativo e meio.

            Lembro bem de um menino de pouco mais de um ano que estava com o casal a nossa frente. Como estávamos todos sentados nos tais tapetes, ele ficava em pé e nos olhava conversando em português com um ar de quem estava entendendo tudo. Tinha um olhar de anjo, inesquecível. Olhar para ele me dava a sensação que estava tudo certo, estávamos exatamente onde deveríamos estar e na momento exato...mais uma vez. Curtimos tudo até onde aguentamos, já de madrugada, procuramos um lugar pra colocar nossos sacos de dormir e fomos descansar num local coberto cheio de palha espalhada no chão e alguns bodes ou cabritos, não sei diferenciar.

            No dia seguinte, pegamos carona até Tel Aviv, onde passamos o dia na praia. Como estávamos sem dinheiro, pegamos cinco cadeiras de praia, arrumamos nossas “camas” e dormimos na praia mesmo, os cinco enfileirados. Uma adrenalina gostosa, mas não é muito difícil dormir com o barulho do mar.

PRÓXIMO CAPÍTULO - VOLTANDO PARA JERUSALÉM