26 - BELÉM

            21 de abril, aniversário de Brasília. Engraçado pensar que nesse ano, 1998, o meu país não tinha nem 500 anos e minha cidade nem 40! Minha noção de tempo estava completamente alterada.

            Hoje decidimos ir para Belém de uma forma nada convencional: a pé! Conhecer as cidades a pé já era um costume do grupo, pegar caronas de uma cidade para outra também, mas andar de uma cidade para outra era novidade. No começo estava totalmente contra essa ideia, queria chegar logo, mas acabei me acostumando e foi bem legal. Belém está a aproximadamente uma hora e meia de Jerusalém andando.

            Ao lado da estrada, na entrada da cidade tem um monumento ao “Túmulo de Raquel”, segundo a Bíblia, ela, mesmo sendo estéril, teve dois filhos com Jacó e por esse motivo, mulheres do mundo todo visitam o tal tumulo em busca de fertilidade.

            Como no começo da caminhada eu estava meio emburrada, eu e o Monclair nos separamos um pouco dos meninos para conversar a sós e combinamos de nos encontrar na Basílica da Natividade.

            Belém era nossa primeira cidade na Palestina e estávamos fascinados com as mudanças com tão poucos quilômetros de distância, foi quando vimos um prédio do governo palestino e fomos perguntar o que era. Era uma espécie de Ministério da Educação da Palestina, nós dois quisemos entrar na hora. Explicamos que éramos estudantes brasileiros querendo saber mais sobre a cultura local e eles nos colocaram em uma sala de espera. Falavam muito pouco inglês e não entendemos o que estava acontecendo, mas ficamos lá esperando. Algum tempo depois, dois homens voltaram e nos levaram para a sala de uma espécie de “ministro” da Educação Palestina. Tivemos que guardar a filmadora e a máquina fotográfica, mas fomos muito bem recebidos. Ele falava um pouco mais de inglês que os outros dois homens, que permaneceram do nosso lado durante todo o tempo. A conversa foi interessante e tivemos a oportunidade de ver uma outra opinião sobre a mesma história.

            Ele nos explicou que de 1950 a 1980, a relação palestino-israelense era baseada em ações militares e atentados de ambas as partes. Com o Acordo de Oslo em 1993, entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina (OLP), uma guerra de meio século parecia estar acabando. Esse primeiro Acordo de Oslo, foi o que criou a Autoridade Nacional Palestina (ANP) que ficou com o controle de parte da faixa de Gaza e da cidade de Jericó na Cisjordânia. Ele foi assinado por Arafat e Rabin, na presença do presidente Clinton na Casa Branca. Em 1995 foram assinados os Acordos apelidados de Oslo II, para expandir a autonomia do governo palestino na Cisjordânia e Gaza e permitir eleições palestinas. Dois meses depois, tropas israelenses se retiraram de várias cidades, entre elas Belém, mas não cumpriram todo o prometido, pelo contrário, começaram a construir estradas e assentamentos judeus em áreas que deveriam ser desocupadas.

            Por causa dos Acordos de Oslo, Belém se encontra sob domínio palestino e infelizmente, faz parte do grupo de cidades de Israel mais ameaçado pelo terrorismo.

            Ele falou também de outras questões pendentes como a divisão dos recursos hídricos na Cisjordânia. Mas o que mais me chamou a atenção foi quando o Monclair perguntou sobre Jerusalém, ele exclamou na mesma hora que “Jerusalém é da Palestina” e que eles vão toma-la de volta de Israel. Ele acredita que lá será a futura capital da Palestina. Desse jeito, eles nunca vão viver em paz!

            Agradecemos a atenção e continuamos nossa caminhada em direção à Basilica da Natividade para encontrar os meninos. Conforme andávamos, nos surpreendíamos com o tamanho da cidade que a gente achava que seria quase uma vila, como outras que havíamos visitado. Era grande, mas não me lembro de ter visto nenhum edifício com mais de três ou quatro andares, muito parecidos com os de Jerusalém Antiga. Outra coisa que nos surpreendeu foi o número de ônibus de turismo em todos os lugares.

            Belém está na Judéia, região ao sul de Jerusalém, é uma das cidades mais antigas de Israel e, também, uma das que mais despertam o interesse dos turistas, por causa dos acontecimentos bíblicos. A cidade é venerada por judeus por causa do Rei Davi que nasceu lá, por cristãos por causa de Jesus Cristo que também nasceu lá e por muçulmanos por ser a terra natal do profeta Isaías. Parece que todo mundo decidiu nascer em Belém!

Belém surgiu há três mil anos atrás com os assentamentos das tribos cananéias, que construíram pequenas cidades cercadas de muralhas de proteção na região. Uma destas cidades foi Belém. Em 1350 a.C. um governador egípcio mencionou a cidade como importante ponto de repouso para os viajantes. Já em 1200 a.C. estava dominada pelos filisteus, considerados os antigos povos da Palestina, que mantinham lá uma base miltar. Filisteus e hebreus sempre estiveram em conflito. E interessantemente, a palavra “palestinos” em árabe é a mesma que “filisteus”, ou seja, essa guerra é realmente muito mais antiga que a gente imaginava. Depois, os gregos ocuparam a cidade por mais de um século até a chegada dos romanos, em 63 a.C. No século III, o imperador Constantino iniciou a construção de várias igrejas, uma delas é a Basílica da Natividade, sobre a gruta onde Jesus nasceu e era pra lá que estavamos indo.

Quando chegamos, nós entramos em um pátio, muito parecido com o de Tabga no Lago Kineret (Mar da Galileia), que dá acesso à porta da Basilica, que curiosamente, só tinha 1,25 metros de altura entre duas colunas de pedra. Ela foi construida pelos cruzados que chamaram de "Porta da humildade" que por causa da altura obrigava as pessoas a se curvarem para entrar na igreja, mostrando assim respeito pelo lugar do nascimento de Jesus. Mas na verdade, a altura baixa era uma estratégia de defesa, para garantir que a igreja não seria invadida por pessoas a cavalo.

Abaixamos e entramos. Dizem que Basílica da Natividade é a igreja cristã mais antiga do mundo. Foi construída em 326 d.C. por ordem de Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino. Em 529 d.C. a basílica foi totalmente destruída pelo fogo. Mas, alguns anos depois, o Imperador bizantino Justiniano a reconstruiu sobre a anterior, que é a atual Basílica, com poucas modificações. Lá dentro é uma grande igreja sem bancos, dividida por umas 40 colunas de mármore ou granito, não sei dizer. Elas eram bem altas, com uns 6 metros de altura e várias lamparinas douradas suspensas no teto. Logo na entrada tem um grande buraco no chão, onde podemos ver o chão de mosaico da igreja antiga. Dizem que arquitetonicamente, continua como era quando foi construída, mas sobrou muito pouco da decoração original. Acima das colunas dá pra ver fragmentos do mosaico bizantino do século XII e ao fundo o lindo altar do Presépio.

No caminho para o altar, encontramos o Romero. Esse altar dá acesso a duas escadas de pedra que nos levam a gruta onde Jesus nasceu, nós três descemos. Antes a Gruta era de pedra, com a entrada ao nível do solo, mas depois da construção da Basílica, ela ficou nessa espécie de cripta embaixo do altar. Quando a gente desceu, a gente viu, ao fundo, entre as duas escadas, o altar da natividade e uma fila de gente. Em 1717 os franciscanos colocaram uma estrela de prata com quatorze pontas com uma inscrição latina que diz "Aqui, da Virgem Maria, nasceu Jesus". Lógico que enfrentamos a fila para, como os fiéis, colocar a mão no local onde Jesus nasceu. Não sei se Jesus realmente nasceu ali, mas tanta gente acredita, que é inevitável sentir uma energia diferente ao toca-la. O Monclair diz que não sentiu uma energia divina, mas uma energia humana, talvez ele tenha razão.  A Gruta tem o chão de mármore branco e é um pouco escura, então ela é iluminada por algumas lâmpadas elétricas e mais ou menos umas 50 lamparinas. Percebi isso porque, justamente na minha vez de tocar a estrela, um senhor pediu que eu esperasse e ele acendeu todas as lamparinas que estavam apagadas. Dentro da tal cripta, as paredes são decoradas com uns tecidos, pinturas e uns mosaicos. Dentro da gruta, tem também uma réplica da manjedoura de Jesus, a original foi levada para Roma.

Saímos da Gruta, que estava lotada e percebemos que os turistas peregrinos estavam em todos os lugares. Vi a bíblia sendo lida por vários grupos em diferentes idiomas e de vez em quando ouvíamos algo que deveria ser “Glória a Deus, nosso Senhor”, também nos mais variados idiomas.

Um pouco atrás da Gruta da Natividade, em outra escavação, encontramos um corredor escavado na rocha e decidimos entrar, saindo da rota da maioria dos turistas. Nesse corredor tinha várias capelas em grutas também, em uma que tem o altar dos Reis Magos.  Outra era para São José, em memória a mensagem que recebeu quando um Anjo apareceu em um sonho e disse: "Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito, e fica lá até que eu te avise: porque Herodes vai procurar o Menino para matá-lo" (Mt. 2, 13).

Continuamos entrando e vimos várias pequenas escavações, o Monclair e o Romero brincaram de estátuas vivas dentro delas, causando as mais diversas reações em quem passava, parecia pegadinha. Depois ainda acharam uma gruta com menos de um metro de diâmetro e, a exemplo da expedição na cisterna de Nazaré, entraram. Pra variar fiquei de fora, torcendo pra ninguém chegar e eles não viram nada além de pedra. Continuamos seguindo esse corredor escavado e encontramos a porta que dá acesso à gruta da Natividade, da qual só os franciscanos têm as chaves.

Passamos pela capela dos Santos Inocentes, em homenagens a todos os meninos de até dois anos de idade que o rei Herodes mandou assassinar. Depois tem a capela de São Jerônimo. Esse corredor de capelas leva também à igreja de Santa Catarina, construída pelos franciscanos em 1882, que é a igreja dos católicos em Belém. A Basílica da Natividade é greco-ortodoxa, lá dentro somente o altar do Presépio, a estrela de prata e alguns tecidos das paredes da Gruta são da igreja católica, isso desde o tempo dos cruzados.

A igreja de Santa Catarina é uma igreja católica normal, lá encontramos o Duda e a Luna descansando, ou melhor, cochilando nos bancos da igreja. Quem não os conhecia, até acreditaria que eles estavam rezando com muita devoção. Continuamos nossa tour e visitamos as capelas de Santa Paula e de Santa Eustáquia, sua filha, também em grutas que ficavam embaixo do prédio.

Voltamos para o pátio de entrada, que dava acesso não só a Basílica da Natividade, como a igreja de Santa Catarina, a um mosteiro franciscano, a um Convento Ortodoxo com a Torre de Justiniano e a um Convento Armênio. Todas essas igrejas e capelas são coladas, formando um só prédio com esse pátio entre eles. No centro, uma estátua de São Jerônimo, que fundou o mosteiro e ajudou na tradução da Bíblia. Eu e o Monclair sentamos em baixo das colunas que circundavam o pátio, eu comecei a ler sobre o lugar no Let´s Go e ele a fazer suas anotações.

De lá seguimos para a Gruta do Leite, em uma rua com o mesmo nome. É uma igreja construída por Santa Paula na gruta onde acreditam que a Sagrada família se escondeu quando estava fugindo para o Egito. Segundo a tradição, enquanto Maria amamentava Jesus umas gotas de leite caíram e as paredes da gruta ficaram brancas. A atual igreja é do século XIX, e foi reconstruída pelos franciscanos. Chegamos com vários sinos soando e para chegar à igreja e dentro da gruta tivemos que descer uma escada. O espaço se divide entre uma recente igreja de alvenaria e as paredes da gruta, que na verdade eram quase brancas por serem de calcário, e hoje se encontram bem escuras devido às fumaças das velas. Em todos os lugares, vemos imagens de Maria amamentando Jesus pintadas por vários artistas diferentes nas mais variadas épocas.

Na frente da Basílica tem uma a Mesquita, mas não fomos. Entramos em uma marcenaria palestina, a loja era bem rústica e dois homens trabalhavam ao som de uma animada música árabe. O que eu achei interessante na ocasião foi o fato de um deles estar esculpindo a Sagrada Família que eles nem acreditam, mas como são ótimos comerciantes, isso era um detalhe insignificante.

Andando em Belém, encontramos, sem querer, o Museu da Antiga Belém, administrado pela União de Mulheres Palestinas, sem nenhuma referência em guias de viagem. O local é muito interessante, vimos fotos da Belém antiga, bordados, móveis, artesanato, joias, roupas palestinas e documentos antigos. Uma senhora palestina que curiosamente não usava véu, nos acompanhou explicando cada detalhe do lugar. Uma verdadeira viagem no tempo, mas dessa vez sobre outro ponto de vista. Muitíssimo interessante! Não saberia dizer do que gostei mais, era muita história. Essa senhora, que estava nos guiando dentro do museu, estava pra ficar doida conosco, primeiro por causa de nossas perguntas que pareciam não ter fim e também por causa das nossas mochilinhas que esbarravam em quase tudo, pois o local era bem pequeno.

Mais um dia especial em um lugar mais especial ainda. Estivemos onde Jesus nasceu! Para fazer algo diferente, voltamos para Jerusalém de ônibus ao invés de a pé ou de carona, estávamos bem cansados.

PRÓXIMO CAPÍTULO - CONHECENDO JERUSALÉM