28 - ATRAVESSANDO O DESERTO DE NEGEV - DIA 01

 

1º DIA – 26 de abril de 1998

            Não sei exatamente onde estávamos com a cabeça quando acreditamos que nós cinco e nossas mochilas caberiam em um Uno! No final das contas, ainda bem que eles não tinham o Uno disponível, seria simplesmente impossível cruzar o deserto com ele. Claro que não couberam todas as mochilas no porta-malas e tínhamos que dividir os bancos com parte delas. A Luna, apesar de não ter podido ajudar com dinheiro para o aluguel do carro, já fazia parte do grupo e veio com a gente.

            Ar condicionado ligado, uma de nossas fitas cassete no toca fitas e nas mãos o nosso mapa dos Parques Nacionais de Israel – destino: Mar Morto. Apesar do aperto, nossa felicidade mal cabia no carro – assim como nossas mochilas. Conforme o carro ia descendo o deserto de pedras, a gente ia lendo as placas indicando a quantos metros do nível do mar nos encontrávamos. Não é a toa que o Mar Morto é considerado o ralo do mundo, ele está a quase 400 metros abaixo do nível do mar!

            O Mar Morto tem esse nome desde o século II d.C., e é mencionado algumas vezes na Bíblia como Mar Salgado, Mar Oriental e Mar de Arabá. Acredito que tem esse nome por causa da quantidade de sal, considerada 10 vezes maior do que nos oceanos. O que me intrigou é saber que também não é um MAR, é um LAGO de água salgada! Antes era um grande lago que se estendia até o Mar da Galileia (outro que também não é MAR, é LAGO),e há aproximadamente 18 mil anos atrás perdeu a ligação com o Mar Mediterrâneo – esse é mar de verdade. Por causa disso, a água foi evaporando deixando um resíduo de sal e ficou acumulada somente naquela depressão no meio do deserto.

            Como tudo em Israel, já estavam super preparados para receber turistas. Paramos o “nosso” Citroen zerinho no estacionamento e fomos fazer um breve reconhecimento da área. A praia era de pedras como seixo com espreguiçadeiras cuidadosamente alinhadas à margem da agua. Turistas deitados, ora admirando o mar, ora admirando o deserto. Aliás, o contraste das montanhas de pedra do deserto e o azul esverdeado da água do Mar Morto é maravilhoso. Na “praia” foram colocados alguns piers para ajudar as pessoas a atravessarem uma lama preta que fica nas bordas. Essa mesma lama é vendida no mundo inteiro como um super cosmético para a pele por causa dos minerais que ela contém. Podíamos ver grupos de pessoas completamente enlameados na água pousando para fotos, colocando ou tirando lama do corpo. Pra falar a verdade, parecia divertido.

            Ficamos algum tempo ali decidindo o que fazer em seguida. O Duda queria ir direto para En Guedi, também a margem do Mar Morto, um pouco mais ao sul. Depois de uma olhada no mapa e no Let´s Go e acabamos indo para Jericó, ao norte do Mar Morto. Tchau ralinho do mundo, voltamos mais tarde!

            Jericó era a segunda cidade que conheceríamos na Palestina e uma das mais antigas cidades continuamente habitadas do mundo, tem evidências de gente morando lá desde 9000 a.C. Segundo a história, Jericó só ficou despovoada entre 586 e 538 a.C, durante o período do exílio babilônico. Apesar da idade da cidade, parece uma grande vila no deserto. A cidade moderna de Jericó fica a mais ou menos 2 km do Parque Arqueológico de Tel es Sultan onde está a cidade bíblica.

            A primeira coisa que precisávamos fazer era comprar comida para noite e os dias no deserto, então fomos direto para o centro de Jericó. Era muito perceptível que estávamos na Palestina, pois existia uma maioria absoluta de homens na rua e tudo parecia um pequeno caos. O local que estávamos era 100% não turístico, normalmente os turistas nem vão para essa parte da cidade, vão direto para as ruínas da cidade antiga, onde está o palácio e para o Mosteiro de São Jorge. Esta é uma das diferenças de viajantes e turistas, ainda mais quando os viajantes somos nós... Aliás, nosso grupo, como sempre, chamava muita atenção por onde passava, pelo entusiasmo, energia e mulheres com “roupas inadequadas”... mas já estávamos acostumados com isso.

            Andando pelo comércio local, aproveitamos para comprar uma panela maior e encontramos uma perfeita para colocar na mochila, pois dava para desaparafusar os cabos. Parece uma besteira, mas vibramos muito com isso.

A cidade é repleta de palmeiras e parece não ter nenhum prédio com mais de 2 andares, são todas construções antigas e exibem um embaralhado de fios, cruzando, subindo e atravessando as paredes de pedra.  Nos muros pichações de Yassir Arafat como se fosse motivo de orgulho e otimismo para a cidade. Lembro de um desenho que era Arafat arrebentando com as mãos uma cerca de arames farpado. Em outra pintura de muro, Arafat estava ao lado de um bigodudo que não sei dizer quem é, e ainda compondo o muro, um árabe festejando, em uma mão o sinal de Vitória (não faz sentido ser paz e amor) e na outra uma metralhadora.

            Encontramos umas lojinhas do tipo “verdurão”, onde os legumes, verduras e frutas ficam dispostos em caixas, a gente se serve, pesa e paga. “Pesar e pagar” era um ritual cultural, pois o comerciante colocava a mercadoria em um prato da balança, alguns quilos em ferro no outro e dizia o preço, que inventava da cabeça dele. Acontecia uma pequena negociação e comprávamos, provavelmente fazem do mesmo jeito há séculos. Às vezes eles colocavam um daqueles pesinhos de ferro no prato da mercadoria e tirava na negociação. Saímos de lá com sacolas cheias de batatas, vagem, banana, tomates, abacates...

            Abastecidos de comida, nos esprememos no carro e fomos para o Mosteiro de São Jorge de Kosipa ou Mosteiro das Tentações, um mosteiro grego ortodoxo construído encravado em um penhasco pelos bizantinos no século VI e reconstruído no século XIX pelos padres ortodoxos. Segundo a bíblia, foi lá que Jesus passou 40 dias depois de ser batizado no Rio Jordão. Em 326 d.C. foi considerado lugar sagrado pela Rainha Helena, mãe do então Imperador romano Constantino.

            Estacionamos o carro e para nossa surpresa, nenhum turista no lugar e lá estava ele, realmente cravado no penhasco de rocha a 350 metros de altura! Uma trilha na encosta da montanha nos guia até uma escada que acaba em uma varanda na porta do mosteiro. Depois de algumas paradas e pernas doloridas, chegamos. O Duda já aguardava sentado em uma das muretas da varanda admirando a paisagem e o Romero empolgadíssimo fazia o mesmo usando a filmadora.

            Depois de tanta subida, encontramos o Mosteiro fechado, está aí a explicação para a inexistência dos turistas no estacionamento. A capela em frente também estava fechada, mas a subida valeu a pena. Da varanda podíamos ver a cidade de Jericó e o Mar Morto ao fundo, uma verdadeira pintura da natureza. Jericó era quase um oásis no deserto, um ponto verde no Vale. Dava para ver até o antigo mercado de lá de cima.

            O silêncio enriquecia a visita e nos ajudava a contemplar a paz e a vista que o lugar propiciava. No penhasco, avistávamos grupos de cabras pretas acompanhadas de um solitário pastor. Misturando-se às cabras, várias grutas onde dizem que as pessoas dormiam no passado. Li que os monges do mosteiro passavam a semana nas grutas, meditando e só voltavam para o mosteiro nos fins de semana para se abastecerem de pão e água.

Ainda no mesmo penhasco, afirmam que tem a pedra em que Jesus se sentava durante sua permanência no deserto. Como estava tudo fechado, não conhecemos a tal pedra, mas fico imaginando como alguém pode afirmar que Jesus sentou em determinada pedra durante os 40 dias que passou SOZINHO no deserto. Pra mim essa informação é duvidosa.

            Do Mosteiro fomos para o Palácio Hisham, ou melhor, para as suas ruinas. O Parque que abriga a ruínas estava quase fechando, então pedimos com todo jeitinho para entrar,  não só nos deixaram entrar, como não pagamos nada. O Palácio foi construído para ser o palácio de inverno do Califa Hisham em 724 d.C. durante a dominação árabe. Ótima escolha do Califa, já que Jericó é considerada a cidade mais quente da Palestina por estar a 250 metros abaixo do nível do mar. Mas infelizmente o palácio foi completamente destruído por um terremoto e só restam ruínas, lindas ruínas. Tem uma parte do palácio que ainda está preservada e pudemos ver uma linda parede em mosaico desenhando detalhadamente uma árvore, no chão, vários mosaicos, dizem que foram inspirados nas termas romanas. O lugar é grande, com algumas colunas de pedra ainda de pé e como já era fim do dia, estávamos praticamente sozinhos, o que sempre aumenta a magia do passeio.

            Voltamos à Jericó para comprar água, se não me engano, e presenciamos uma cena inacreditável. Bem na frente do lugar que estávamos tinha uma pequena praça, só homens, provavelmente trabalhadores voltando para casa e encontrando seus amigos. De repente, começou uma grande confusão, dois homens claramente discutiam, mesmo sem eu entender uma só palavra, era perceptível pela agressividade e tom de voz. Mas não se encostavam, até que um dos homens virou de costas e saiu. Ele se afastou menos de 10 metros e o outro tirou uma arma e apontou para ele. Imediatamente, vários homens cercaram o que iria receber o tiro, protegendo-o com os próprios corpos. O homem com a arma continuava apontando para o grupo. Ele estava sozinho, praticamente abandonado por todos, como se ninguém tivesse apoiado tal atitude, até que um pequeno grupo conversou com ele, que abaixou a arma a abandonou o lugar. Durante todo o momento, o homem ameaçado ficava protegido por um cordão humano formado envolta dele, só quando o desafeto saiu, a barreira de proteção se desfez e tudo voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Ficamos chocados com tudo que vimos.

        A noite chegava e decidimos dormir em Ein Guedi, na verdade, na “praia” do Mar Morto perto de lá. Ao chegar, armamos as barracas e preparamos uma deliciosa sopa de legumes, uma de minhas especialidades culinárias. Satisfeitos, conversávamos sobre o dia e era muito gostoso a consciência que tínhamos do que estávamos vivendo. Era tudo muito mágico! E era apenas nosso primeiro dia no deserto, havíamos saído de Jerusalém naquela manhã, quantas surpresas mais poderiam acontecer?

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