29 - ATRAVESSANDO O DESERTO DE NEGEV - DIA 02        

 

2° DIA – 27 de abril de 1998

            Acordamos em barracas na praia do Mar Morto, preparamos nosso café da manhã e corremos para água como crianças. O que a gente mais queria saber é se a gente flutuava mesmo, como nos panfletos que víamos. CONFIRMADO! Flutuamos! Nessa praia, não tinha aquela borda de lama preta em todos os lugares, de forma que conseguíamos simplesmente entrar na agua andando normalmente. Conforme a gente ia entrando, a agua parecia ter uma força nos empurrando para a cima. Era muito mais difícil manter as pernas e braços para baixo do que para cima. A água além de ser extremamente salgada, é meio oleosa, uma densidade totalmente diferente do que qualquer referencia de mar que temos. Boiamos por um bom tempo, evitando que a água entrasse na boca ou nos olhos. Constatamos também que fazer o número 2 antes de entrar no Mar Morto pode não ser uma boa ideia.

            Claro que aproveitamos para passar aquela famosa lama preta em todo o corpo. Se a pele ficou melhor, eu não sei dizer, mas foi divertido. Para tirar a lama usamos uma das duchas de água doce da “praia”, que também oferecia espreguiçadeiras, guarda-sol e até um restaurante para atender a grupos de turistas. Estava bem vazio, e aproveitamos bem a manhã por lá, descansando e ainda relembrando o dia anterior, como diz Monclair em suas anotações:

 

            “Ouvindo Hendrix no Citroen 98 alugado em frente ao Mar Morto, depois de ter flutuado um pouco, tomado banho de ducha da praia e chupado algumas laranjas.

            Tudo vai seguindo seu caminho, passamos em Jericó, a cidade mais antiga do mundo e fomos muito bem recebidos, principalmente por sermos brasileiros e por nossos sorrisos. A cidade é pequena com 3 Parques Nacionais. Da segunda vez que passamos, houve uma briga – para evitar que matem alguém, o cercam com um escudo humano.”

            Parque Nacional de Ein Guedi foi fundado em 1972 e é uma das mais importantes reservas naturais de Israel. Não estávamos exatamente em Ein Guedi, mas conseguíamos avista-lo. Era um oásis no deserto, e também é mencionado várias vezes na bíblia; segundo a tradição judaica, foi lá que David se escondeu de Saul: "Então David saiu de lá, e ficou nas fortalezas de Ein Guedi" (I Samuel 23:29). Foi mal, mas é impossível entender a importância histórica de Israel sem mencionar a bíblia.

            Existe um kibutz lá que leva o mesmo nome, fundado em 1956. Dizem que antes do kibutz Ein Guedi o lugar não tinha sido habitado por 500 anos, quase a idade do meu jovem e querido Brasil! Infelizmente, não entramos no parque, nem no kibutz.

            À tarde, Fomos para Qumran, onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto. O Duda certamente era o mais empolgado com esse passeio, ficamos muito curiosos desde a nossa visita ao Santuário do Livro no Museu de Israel em Jerusalém. Até então, só sabíamos que os primeiros manuscritos tinham sido encontrados em 1947. Depois entendemos como tudo aconteceu:

            Os manuscritos foram realmente encontrados por um beduíno que estava procurando  uma de suas cabras e encontrou no interior de uma caverna alguns jarros de barro e dentro deles antigos manuscritos.

            Dizem que naquela época os beduínos morriam de medo do lugar, era perto das ruínas e do cemitério do antigo mosteiro dos essênios, uma das principais seitas judaicas do tempo de Jesus. Os beduínos evitavam andar por ali, aquela história misteriosa de um passado distante os assustava. O Mosteiro era chamado de Qumran e foi a primeira coisa que vimos ao chegar. Passeamos entre as suas ruínas e alguns turistas com seus guias de viagem.

            Os primeiros essênios chegaram lá por volta do ano 200 a.C. e construíram o tal mosteiro. Os essênios além de trabalharem para prover a sobrevivência do grupo, liam, meditavam e faziam cópias fiéis dos livros sagrados com o intuito de não se deixar perder a Palavra de Deus. Dizem que João Batista se tornou um essênio durante suas peregrinações no deserto e que Jesus também teria sido um essênio antes de sua pregação pública.

            Em 70 d.C. espalhava-se a notícia de várias batalhas entre judeus e romanos acontecendo em Israel inteira e isso acabaria com a destruição de Jerusalém e do Templo de Salomão. Os essênios decidiram abandonar Qmran o mais rápido possível, pois sabiam que os romanos apareceriam e os matariam. A maior preocupação deles foi esconder todos os manuscritos, eles acreditavam que poderiam morrer, mas a Palavra de Deus tinha que ser preservada. Conheciam as cavernas entre os penhascos, então, guardaram os manuscritos cuidadosamente enrolados em linho e colocaram em potes de barro vedando muito bem. Tão bem que suportaram por quase 2 mil anos ali dentro, e quando os encontraram, ainda estavam envolvidos em panos de linho! Impressionante!

            Entre todos aqueles rolos, encontraram o livro do Profeta Isaias. Antes da descoberta desses manuscritos, os mais antigos que já tinham encontrado eram de 916 d.C.. Também existiam duas traduções mais antigas que esses manuscritos: a tradução da Bíblia hebraica para o grego de 250 a. C. e a tradução da Bíblia hebraica para o idioma latino, realizada por São Jerônimo, no século IV d. C., mas eram traduções. Uma coisa muito legal de saber é que quando compararam o original do livro de Isaias encontrado em Qumran com o de 916 d.C, constataram que eram idênticos, palavra por palavra!

            Não só naquela caverna, mas em outras 10 foram encontrados manuscritos guardados da mesma forma. Ao total encontraram 38 rolos correspondentes a 19 livros do Antigo Testamento.

            E lá estávamos nós, caminhando entre os penhascos e vendo todas aquelas entradas de pequenas cavernas que esconderam tantos anos de história. Subíamos o mais alto que conseguíamos, a maior parte do tempo calados, contemplativos. O vento era forte e o Mar Morto era presença constante no visual da caminhada. Lembro que sentamos, por um bom tempo permanecemos em silêncio e depois conversamos muito lá em cima, olhando para tudo aquilo. Todos sentiam uma energia diferente e inexplicável naquele lugar.

            Romero se dedicou a fazer “arte” com as pedras do chão, já o Monclair aproveitou o momento contemplativo para fazer essas anotações, como quem não quisessem perder todas aquelas informações recém-adquiridas:

 

“Os manuscritos do Mar Morto foram encontrados em 1947.

Aqui era o centro dos essênios.

Parece existir uma relação entre essa comunidade Qumran e os zelotes, os defensores de Massada.

Os manuscritos são de antes da destruição do 2° Templo.

Subida na montanha.

Contemplação do deserto.”

 

Em outra página ele escreveu:

“terça => Qumran => trekking nas montanhas onde viviam os essênios – Parque Nacional. Vento forte. Energia presente.”

 

            Voltando ao século XX, decidimos ir a Jericó para comer falafel, estávamos todos famintos. E não é que a cidade nos reservava mais uma história para contar sobre essa viagem? Voltamos ao comércio que já conhecíamos, andávamos juntos e separados, quando alguns homens começaram a tentar comprar a Luna do Duda, sei que parece surreal, mas como ela não era casada, então, faziam-lhe algumas propostas em árabe. Demoramos para entender, e nesse meio tempo Duda só ria e concordava. Até que ele aceitou uma queda de braço com um daqueles palestinos para manter Luna ao seu lado. O negócio era sério mesmo, os dois sentaram envolta de um enorme troco que servia de mesa, rapidamente, aparecereram vários homens para assistir a batalha, todos torciam pelo nosso oponente. Duda machucou o cotovelo no tronco áspero, mas ganhou a queda de braço. Antes que outros o convencessem a uma revanche, saímos logo do lugar. Ufa!

            Voltamos para a praia que havíamos dormido na noite anterior, armamos as barracas e deitamos para uma merecida noite de descanso.

DESCULPE... AINDA NÃO ESCREVI O PRÓXIMO CAPÍTULO. 

Ainda tenho muita história para contar, nessa travessia do deserto fomos acolhidos em uma tenda beduína por 24 horas, finalmente chegamos à Eilat no extremo sul de Israel, conhecemos o Mar Vermelho, fomos para o Sinai, voltamos para Tel Aviv, fomos para Londres, Canteburry, Tailândia.... 

Continue acompanhando pelo facebook, assim que eu escrever o próximo capítulo, publico aqui. 

Sua opinião é MUITO importante para mim, se tiver um tempinho, escreva nop Livro de Visitas, por e-mail, facebook...

Desde já, valeu ;) !