3 - A VIAGEM

 

            Embarcamos em direção a Madrid, por incrível que pareça, desta vez não me deu aquele frio na barriga, não tive medo, me sentia muito segura com as pessoas que me acompanhavam. Todos os quatro com sede de conhecimento, com um interesse imenso pelo outro lado do mundo, sua cultura, entender toda a origem de seus conflitos e religiões, tudo da melhor forma do mundo, “só curtindo onda boa”.

            Eu e o Monclair estávamos muito cansados e nos encaixamos como Lego nas poltronas do avião até dormir. O Duda e o Romero beberam uma garrafa de whisky e “guerrearam” a noite toda, fizeram várias amizades, intercâmbio de fitas cassetes, jogaram baralho e lembro-me de olhar para trás e ver os dois dividindo os fones de um walkman e dançando no corredor. Com certeza, são pessoas que se divertem em qualquer lugar.

            Nossa chegada em Madrid não foi muito convencional, primeiro levamos uma bronca por demorarmos muito dentro do avião e deixarmos um ônibus esperando com o resto dos passageiros. Depois, chegando na imigração constatei que tinha esquecido minha pochete com os meus documentos e os do Monclair dentro do avião, que merda! Conseguimos recupera-la depois de dar trabalho para a galera do aeroporto.

            Ainda no aeroporto de Madrid, passamos por um interrogatório da imigração. Eles perguntam tudo para a melhor segurança dos próprios passageiros, temos até que ir para uma sala onde abrimos nossa bagagem e verificamos se está tudo do jeito que colocamos e se ninguém pôs nada dentro.

            Enquanto esperávamos o vôo Madrid/Tel-Aviv, compramos umas caixas de som para walkman e os meninos ficaram jogando capoeira em frente a um dos portões de embarque. Eles chamaram muita atenção, claro. Uns simplesmente achavam estranho, outros gostavam e outros recriminavam tentando ignorar. Já na nossa segunda sala de espera vi o Monclair fazendo a seguinte anotação em seu bloquinho:

“Madri, 5 de fevereiro de 1998

         Engraçado de saída falar que estou em Madrid. (Ouvindo Raul Seixas esperando o vôo para Tel-Aviv). Minha noção de horas está completamente abalada. Na nossa chegada cruzamos com uns “confusos”. Não sei a hora local que chegamos aqui, mas fomos fazer o check in para embarcar e conferir se nenhum engraçadinho colocou alguma bomba em nossas mochilas. (O Raul acabou de se transformar em Gal Costa, a fita é do Duda). Ficamos andando pelo salão de embarque, compramos um Toblerone gigante e caixas de som para walkman. Estreamos as caixas ouvindo capoeira de Angola e é claro jogando perto de um dos salões de embarque, pouca gente entendeu, mas acho que estavam gostando.”

            A viagem foi tranqüila, eu e o Monclair ficamos separados do Duda e do Romero por uma senhora judia que sentou entre nós. Ela era Argentina e tinha família em Israel, gastamos todo o nosso portunhol porque ela não falava inglês. Um dos nossos diálogos me marcou e despertou um enorme interesse pelos costumes judeus. Após ela ter dado seu leite para o Monclair, ela disse que eles não podem comer carne e leite juntos. Quando eles comem carne, têm que esperar no mínimo seis horas para tomar leite. Tentei entender porque ela se permitia comer mousse de chocolate, mas ela não soube explicar. Depois fiquei sabendo que segundo a tradição ela não era um bom exemplo e que isso vinha de uma frase doa Bíblia que diz “não preparas o cordeiro com o leite de sua mãe” ou coisa parecida.

            Chegamos a Tel-Aviv (Israel) quase meia-noite, cogitávamos a idéia de dormir no aeroporto porque tínhamos medo de sair sozinhos naquela cidade, naquela hora, mas nem precisou, o Benê e a Solange foram nos buscar. O Benê, de Benedito, trabalhava na embaixada brasileira em Israel e a Solange era sua esposa. Não sei qual de nós avisou a embaixada sobre nossa chegada, mas foi ótimo. Nos dividimos, o Duda e o Romero foram no carro deles e eu e o Monclair fomos de táxi com o resto da bagagem.

            A ida do aeroporto para o hostel (pensão/albergue) foi divertida, conversamos com o motorista o tempo todo. Acho que estávamos gostando do simples fato de estarmos falando com um israelita pela primeira vez. O nome dele era Yóssi, muito atencioso me ensinou minhas primeiras palavras em hebraico. Paramos em um hostel, mas ninguém atendeu, depois eles nos deixaram em outro hostel perto da praia. Pagamos U$ 67,00 por um quarto para quatro pessoas. Largamos as mochilas no quarto e fomos tomar banho. O Romero e o Duda foram andar pela cidade, acabaram encontrando um supermercado aberto às duas horas da manhã, onde compraram pão e um monte de coisas para fazer sanduíches e foram comer na praia. Eu e o Monclair ficamos no quarto e já estávamos dormindo quando eles chegaram. A cidade é completamente calma, você pode andar sozinho às 3 da manhã sem preocupação. A idéia que a gente trouxe do Brasil é muito diferente da realidade.

            Acordamos cedo para aproveitar o café da manhã já incluso na diária. O café era servido no mesmo lugar que funcionava um pub com sinuca durante a noite. Achei estranho servirem tomate e pepino, mas comi.

            Tínhamos que sair do hostel até as 11 horas, nos equipamos com filmadora, máquina fotográfica e walkman, colocamos as mochilas em um locker e saímos andando por Tel-Aviv. Como bons brasilienses, fomos direto para a praia. O contato com o Mar Mediterrâneo me emocionou, estar ali era como se fosse uma bolinha vermelha no mapa Mundi indicando VOCÊ ESTÁ AQUI. O fato de estar do outro lado do mundo é encantador.

 

            O Mediterrâneo é lindo! O governo colocou umas bancadas de pedra, para evitar que a água invada a cidade, que dão um toque especial àquela praia de água azul anil. Andamos e andamos tirando fotos de tudo até passarmos por uns hippies no fim da praia, dois deles estavam completamente pelados, o que inspirou os meninos a tirar suas roupas e entrar na água. Em Tel-Aviv, ninguém se importa com o que você faz. Eles se divertiam como crianças! Eu não tive coragem de desfrutar de tal liberdade naquele frio, não conseguia tirar nem o casaco, o que dirá a roupa inteira. Fiquei sentada nas pedras assistindo aquela cena ao som dos Doces Bárbaros no walkman.

            Já vestidos continuamos nossa caminhada, paramos em um aquário, não entramos porque tinha que pagar, mas brincamos com uma iguana e vimos alguns animais empalhados. Lembrei da minha irmã que fazia faculdade de biologia e estágio no zoológico de Brasília fazendo taxidermia entre outras coisas. Ficaria furiosa ao me ouvir dizer “empalhados”.

            Passamos por uma praça muito bonita, cheia de esculturas diferentes e muita grama. A praça acompanhava boa parte do mar onde não tinha praia. Muitas famílias mulçumanas estavam fazendo piqueniques, as mulheres usavam lenços e não mostravam nada além dos rostos. Elas faziam churrascos em pequenas grelhas e os homens pitavam narguiles lindos e enormes. Depois descobri que essa praça é muito perto de Yafo, o bairro Árabe.

            Brincamos em um parquinho de criança, ainda nessa mesma praça. A diversão principal foi uma tirolesa, ninguém entendia nada. O que aquelas quatro pessoas diferentes estavam fazendo? Opa! Ainda não descrevi o grupo: o Monclair tinha o cabelo comprido loiro que normalmente estava preso em um rabo de cavalo, o Romero tinha trancinhas por todo cabelo, eu e o Duda não chamávamos tanta atenção, mas nesse dia eu usava duas tranças e o comprimento do meu short brasileiro não era nada usual naquele lugar e o Duda um boné para trás.

            Os quatro radiavam alegria através de altas risadas o tempo todo. Entre nossas brincadeiras fizemos um pequeno filme naquele interminável gramado. Eu filmava os três andando tranqüilamente quando um deles pisava em um irrigador que, nossa imaginação, se transformou em uma mina e tudo explodia. Essa brincadeira durou algum tempo e foi muito divertida além de mostrar que o sentimento de estar em um país em guerra era nítido.

            Sem nenhum motivo, sentamos em frente de um museu construído em uma ruína de frente para o mar, cada um com seu walkman descansávamos olhando para o Mediterrâneo, tentando entender tudo aquilo, organizar nossos pensamentos e sentimentos, afinal não era mais devaneio, era real, estávamos lá, estávamos em Israel!

            O Romero soltou uma piadinha sobre duas meninas que passaram na nossa frente, na seqüência passou uma rasta ouvindo walkman e sugerimos que ele fosse falar com ela, talvez ela soubesse nos dizer alguma coisa para fazer naquela noite. Seu nome era Bárbara, era polonesa e nos informou sobre uma festa Reggae (que não fomos) além de trocar com o Romero a fita que ela estava ouvindo por uma do Mestre Ambrósio, péssima troca para nós. Enquanto os dois tentavam uma comunicação, eu e o Monclair paramos três hippies, um austríaco e dois israelitas, que nos convidaram para participar de uma roda de tambores que acontece todas as sextas feiras no pôr do sol, exatamente onde os meninos tomaram o tal banho pelados. Depois deles irem embora continuamos no mesmo lugar tentando decidir assuntos práticos como trocar de hostel para um mais barato e fomos para a tal praia.

            Era uma onda mágica eu diria, muito diferente de qualquer pré-conceito de Israel. Um grupo de pessoas, na maioria jovem, se juntava nas pedras tocando diferentes tipos de tambores que a minha ignorância musical não permite identificar, enquanto outro grupo dançava na areia da praia como marionetes do céu. Entre as pessoas que dançavam, vimos dois homens jogando capoeira, os meninos ficaram loucos e foram jogar com eles. Os israelitas da capoeira adoraram o fato de sermos brasileiros e nos convidaram para um churrasco, a moda brasileira com uma roda de capoeira, que iria acontecer no dia seguinte. O churrasco era do grupo deles e o mestre era um cara que tinha morado um tempo no Brasil só para aprender capoeira. O convite foi muito bem aceito. Ficamos um tempão ouvindo os tambores e até dançamos, só não ficamos mais porque depois que o sol se pôs ficou muito frio e a fome estava apertando.

            Voltamos para pegar nossas mochilas, achamos um hostel mais barato (U$ 10,00 por pessoa), nos instalamos, tomamos banho e saímos para comer. Já estávamos no chamado Shabat, que começa no por do sol de sexta-feira até o por do sol de sábado. O sábado (shabat) para os árabes e judeus é sagrado, como o domingo no mundo ocidental, nada funciona. Segundo eles, Deus construiu o mundo em seis dias e acabou na sexta-feira, parou e reservou o dia seguinte para descansar, observar e refletir sobre sua obra.

            Como não sabíamos para onde ir, começamos a perguntar para as pessoas que passavam pela gente, até que, por coincidência ou não, as únicas pessoas que nos deram atenção, nos indicaram uma lanchonete brasileira que abria no shabat, fomos direto para lá.

            A lanchonete se chamava Bar do Felipe, tinha uma enorme bandeira do Brasil na frente e uma decoração toda verde e amarela. Ao entrarmos, percebemos que quase todos falavam português e já juntamos nossa mesa à de outro grupo de jovens brasileiros, uns moravam lá e outros eram viajantes como nós.O bar funcionava como um ponto de encontro de brasileiros. Conhecemos o Leo que trabalhava lá e já viajava há 7 anos e combinamos de nos encontrar no dia seguinte as cinco horas da tarde ali mesmo.

            Pedimos caipirinha, quando que eu iria imaginar estar tomando caipirinha em Israel? A galera toda estava indo para um bar/boate chamada BUZSTOP, também passamos lá. O Duda e o Romero quiseram entrar, eu e o Monclair decidimos contemplar a lua na praia, muito mais romântico. A noite estava maravilhosa e passamos muito tempo conversando sobre tudo que já tinha acontecido em tão pouco tempo de viagem, o que para nós era um bom sinal. Não tirávamos os olhos do mar e do reflexo da lua sobre a água como se fosse um caminho prateado que nos levava a ela.

            Voltamos para o hostel e dormimos. No café da manhã, tomate e pepino de novo. O sereno da praia me deu sinusite e eu não consegui ir para o churrasco com os meninos, fiquei dormindo.

            Eles se divertiram muito, jogaram muita capoeira, comeram muita carne, fumaram muito narguiles e tomaram muita caipirinha. Cada um deles levou uma garrafa de 51 que eles compraram no Bar do Felipe e apresentaram essa bebida com gostinho de Brasil para todos no churrasco.

            Faltavam quinze minutos paras às cinco horas e eles ainda não tinham voltado, para não furar com o Leo, deixei um bilhete e fui sozinha. Andei pelas ruas de Tel-Aviv ouvindo Vinícius de Moraes e sentindo o vendo frio bater no meu rosto. Aquela sensação de estar sozinha e tão longe me fez lembrar daquela minha viagem aos 14 anos para Alemanha e Áustria. Amo me sentir solta no mundo, aberta para tudo que possa acontecer.

            Ao chegar no bar fiquei aliviada ao perceber que o Leo estava mais atrasado que eu. Fiquei conversando com outros conterrâneos, muitos perguntavam sobre o Brasil e eu perguntava sobre Israel e a guerra. Sadan Russen estava em conflito com os EUA e ameaçava bombardear Israel no dia 15, ou seja, em uma semana.

            O Leo chegou, conversamos sobre coisas mais positivas, como a Chapada dos Veadeiros entre outros lugares lindos do Brasil que ele sentia tanta falta. Os meninos apareceram quase sete horas, comemos e fomos para a casa do Leo, que tem que ser descrita em seus mínimos detalhes.

            Para chegar, entramos em uma pequena rua em direção ao mar, subimos uma escada em prédio velho cheio de grafite (pintura em spray) e fomos até uma porta no último andar. Ele morava na casa de máquinas no terraço de um prédio de mais ou menos quatro andares. O terraço era grande e com uma vista maravilhosa para o mar. A cozinha e o banheiro eram do lado de fora, a casa mesmo era apenas dois quartos minúsculos muito aconchegantes, talvez pela decoração ou talvez pela magia do lugar. As paredes tinham pinturas psicodélicas, o Leo falou que antes dele e a namorada, já tinham morado ali uma artesã italiana, pintores e outros.

            A história do Leo e da Gabriela, namorada dele, era ainda mais louca que a minha e a do Monclair. Eles se conheceram e ficaram no Rock’n Rio, ele estava saindo do Brasil para fugir do exército e ela topou ir com ele, eram de famílias de classe média no Rio, largaram tudo e estavam pelo mundo há 7 anos, juntos.

            O primeiro quarto da casa tinha uma cama e o segundo algumas almofadas, tapetes e duas caixas de som (mas o som estava no conserto). Sentamos todos naquela pequena e aconchegante sala e começamos a conversar. Os meninos falavam de tudo, de essência, de viagem, de cultura e de um monte de outras coisas. Eu quase não falei, estava hipnotizada com a galera que viajava comigo, suas cabeças estavam a ponto de explodir como panelas de pressão de tanta informação, ou melhor, nossas cabeças. Entre uma conversa e outra, chegava alguém amigo do Leo, mas ia embora logo, não era qualquer um que entenderia aquelas conversas.

            Enquanto tomávamos café com leite comendo umas salsichas mais do que apimentadas, o Leo sugeriu de irmos para Yaffo escalar um muro. Ele era professor de escalada antes de sair do Brasil, mais um convite aceito. Passamos no hostel para nos agasalhar e fomos para Yaffo. No caminho passamos por um barzinho onde a namorada do Leo trabalhava. Nem falamos direito com ela porque passamos muito rápido e ela estava trabalhando.

            Já eram mais de onze horas da noite e atravessamos toda aquela praça gramada do dia anterior para chegar a Yaffo. Ela também era linda à noite. Aliás, tudo ali estava lindo. O Leo era muito gente boa e passava para gente toda sua experiência de viagem pelo mundo. Nós tínhamos saído do Brasil para passar 6 meses em Israel, lembro bem dele falando que com nossa energia e sede de mundo, não voltaríamos nesse tempo e não ficaríamos só em Israel, e ele estava certo. Ele falou uma coisa que pudemos comprovar mais tarde, ele disse que existe uma mão invisível que protege os viajantes, ela sempre nos põe nos lugares certos e as pessoas certas nos nossos caminhos. Suas palavras nos ajudavam a acreditar cada vez mais que estava tudo certo.

           Em Yaffo, tudo era diferente de Tel-aviv, os prédios eram árabes de pedra branca, tudo muito antigo, coisas de antes de Cristo. A iluminação a noite deixava tudo ainda mais mágico. Ficamos brincando de escalar uma espécie de arco como se fosse um portal interno da cidade.

            Esse foi nosso único contato com o Leo, mas posso afirmar que foi uma das pessoas mais importantes que encontramos na viagem inteira. Ele foi quem nos fez acreditar que tudo era possível, que o mundo era enorme, mas totalmente “viajável” e que para isso não precisava de dinheiro, e sim coragem de ir, trabalhar e continuar indo. E ele, era a prova concreta disso. Pra mim, ainda tinha mais uma coisa encorajadora, ele tinha feito tudo com a Gabriela.

            Já era domingo, como se fosse segunda-feira para eles, acordei cedo e fui sozinha achar o tal escritório dos Kibutzim (plural de Kibutz) que hoje já estaria aberto. Quando voltei para o Hostel os meninos já estavam acordados, e fomos ao tal escritório escolher um Kibutz. Apesar dos duzentos e tantos Kibutzim existentes em Israel, nossas escolhas ficaram reduzidas porque queríamos um que os quatro pudessem ficar juntos, com piscina e no litoral. Tivemos que abrir mão do litoral, mas tudo bem, vimos algumas fotos e gostamos, fomos aceitos no Kibutz Sarid, no norte de Israel.

            Nesse escritório, descobrimos que a filha da p. da mulher em Brasília que se dizia representar os Kibutz em Israel era uma charlatona, não precisávamos ter pagado nada a ela, a única obrigação dela era nos informar gratuitamente, o endereço do escritório em TeL-Aviv, os documentos necessários e sobre o funcionamento dos Kibutzim para não chegarmos desavisados. A moça, que nos recebeu no escritório e que enviava para essa senhora todo o material, o fazia achando que ela dava essas informações voluntariamente, ela ficou muito decepcionada ao saber que ela cobrava uma nota para não resolver nada, porque tudo era resolvido lá no tal escritório.

            Pegamos toda a nossa tralha e fomos para rodoviária pegar o ônibus para o Kibutz Sarid. Lá tivemos contato com nossa primeira metralhadora, encontramos um jovem do exército e pedimos para tirar uma foto com ele. Não falava muito bem inglês, mas pela sua fisionomia ele não entendeu nada, tentamos explicar que queríamos tirar aquela foto por causa da arma, aí ele entendeu menos ainda, mas concordou. Só depois percebemos que ele realmente não tinha nada de mais. 

            Em Israel, todos vão para o exército aos 18 anos, funciona quase como um separador de águas. Antes do exército eles são crianças, irresponsáveis e depois são adultos. As meninas entram aos 18 e saem aos 20, e os meninos ficam até os 21. Durante o último ano de exército eles têm como responsabilidade uma metralhadora que eles têm que cuidar por 24 horas. Se qualquer coisa acontecer com essa arma, ou vindo dela, eles têm que ficar 7 anos na cadeia. Isso é para ensinar responsabilidade e equilíbrio.

            Percebemos o quanto que era normal ao entrarmos no ônibus, ao meu lado, estava sentando um cara que descansava sua metralhadora entre as pernas, como ainda não estava acostumada não me senti muito à vontade e até pedi para ele vira-la para o outro lado. Ele também não entendeu, fez uma cara feia, mas virou. Outra coisa diferente, que me chamou atenção no ônibus, foi uma menina lendo um livro. Já sabíamos que o alfabeto era diferente e eles liam da direita para a esquerda, mas mesmo assim é esquisito ver alguém passando as páginas ao contrário.

            Estávamos a caminho do Kibbutz Sarid.

PRÓXIMO CAPÍTULO - O KIBUTZ SARID