4 - O KIBUTZ SARID

 

            Agora vou tentar explicar melhor o que é um kibutz. "Kibutz é uma espécie de comunidade socialista rural onde a produção é controlada por seus membros e as decisões são tomadas por uma assembléia geral, sendo os bens e os meios de produção propriedade coletiva." Resumindo, são verdadeiras fazendas socialistas, é como se tudo fosse de todo mundo. Hoje em dia, aproximadamente 2% da população israelense vive nos 270 Kibutzim espalhados pelo país.

            Israel é um pequeno país no Oriente Médio que entrou na história há mais ou menos 3500 anos, quando o povo judeu abandonou a vida nômade e se estabeleceu naquela região. Depois essa terra teve sob vários domínios - o Persa, o Romano, Bizantino, Árabe, os Cruzados, Mameluco, Otomano e Britânico. No início do século XX, motivados pelo movimento sionista (retorno dos judeus a sua terra), chegaram a Israel, vários imigrantes judeus trazendo sua contribuição para o desenvolvimento da comunidade judaica. O kibutz é o fruto dessa sociedade pioneira (1919-1923) que se desenvolveu como estilo de vida rural permanente, é uma estrutura econômica totalmente diferente de qualquer coisa que já havíamos conhecido em nossas vidas, baseada em princípios igualitários e comunais. Com o passar dos anos, o kibutz foi estabelecendo uma situação bem prospera e organizada. No início, era essencialmente agrícola, mais tarde, adaptou-se aos tempos e ao capitalismo, se expandido nos ramos industriais e de prestação de serviços, sem perder a ideologia interna do kibutz. No nosso Kibutz, por exemplo, tinha uma fábrica de lixa que era sua principal renda.

              Antes de sair do Brasil, sabia muito pouco sobre os Kibutzim, mas tinha uma frase de um livreto, que aquela senhora safada nos deu, que me chamou atenção e curiosidade de conhecer essa estrutura social: “No Kibutz, trabalha-se de acordo com sua capacidade e recebe-se de acordo com sua necessidade”. E foi isso que realmente vimos mais tarde, não importa se o membro faz a faxina ou faz parte da assembléia geral, todos têm o mesmo padrão de vida.

            O ônibus parou na frente do Kibutz Sarid, entramos, era uma pequena cidade organizada, perguntamos onde era o escritório dos voluntários porque era o lugar que tínhamos que ir. As pessoas passavam por nós já nos identificando como voluntários. No kibutz Sarid, eles mantinham cerca de 32 voluntários de vários lugares do mundo. O Kibutz é formado por membros e voluntários, e cada Kibutz decide o número de voluntários que quer receber, acho que eles fazem isso para mostrar para o mundo que é possível viver em igualdade.

            Ao chegarmos ao tal escritório, não tinha ninguém, mas tínhamos certeza que estávamos no lugar certo por causa de uma pequena placa na porta. O escritório era uma pequena casinha térrea de um cômodo com banheiro. Tiramos as enormes mochilas das costas e esperamos. Alguns minutos depois, apareceu a Georgina, uma voluntária inglesa que veio nos recepcionar a pedido da Eva, membro do kibutz responsável pelos voluntários. Logo depois a Eva chegou. Era uma senhora baixinha, meio marrenta, cabelos vermelhos até os ombros e olhos muito maquiados. Ela nos explicou algumas coisas e pediu que Georgina nos mostrasse os prédios dos voluntários. Ela tinha um sotaque inglês muito forte, mas conseguia entender o que ela dizia e traduzia para os meninos. O Duda e o Romero não falavam inglês, o Monclair era formado, mas ainda não tinha fluência, ou melhor, ele falava bem, mas tinha dificuldade de entender as pessoas falando no começo da viagem.

            Primeiro, fomos para o Scorpions, um prédio térreo com oito espaçosos quartos separados por uma cozinha e com dois grandes banheiros no fim do corredor. Lá ela nos mostrou o quarto onde ficariam o Duda e o Romero, conhecemos alguns dos voluntários e fomos para o Twins. O Twins é um conjunto de dois prédios térreos também, um pouco mais antigos que o Scorpions, sem cozinha, mas com um pequeno banheiro em cada extremidade do prédio. Nesses prédios os quartos eram menores, mas eu e o Monclair tínhamos um quarto só nosso. Os prédios eram feios, mas o kibutz é lindo, fica no meio de um vale, cercado de plantações, tem muito verde.

Twins - Nosso quarto é o com o espiral verde e amarelo

             Arrumamos nossas coisas e fomos, eu e o Monclair, para o Scorpions, onde ficava a galera por causa da cozinha e de uma sala de televisão, que ficava na frente do prédio, só para os voluntários. Conhecemos todo mundo, comemos e recebemos um telefonema da Eva pedindo para nos encontrar no refeitório no café da manhã. Neste dia Bill Clinton estava na televisão falando alguma coisa sobre a guerra e os planos de Sadan Russen em atacar Israel.

            No dia seguinte fomos para o refeitório tomar café da manhã com todo mundo. O refeitório do kibutz é mais do que um local onde se come. É ali que os membros se reúnem para refeições festivas, onde todos se encontram e a igualdade social é nítida, todos comem da mesma comida independente da hierarquia do trabalho. E comer parece ser algo muito prazeroso para eles devido à fartura de alimentos. No café da manhã tinha uma mesa dessas de self-service só com derivados do leite: queijos, coalhadas, iogurtes, etc; uma outra, só com verdura e os famosos pepinos e tomates, uma só com pães e abacates, outra com cereais e mingau, outra com chás, café e leite quente e frio. Tinha uma mesa com um espremedor de laranja manual, ou melhor, um esmagador de laranja para fazermos o suco na hora. Outra coisa legal era uma enorme torradeira onde colocávamos nossas fatias de pão e esperávamos elas darem uma voltinha lá dentro e saiam no ponto. Isso era só o café da manhã.

Refeitório

            Sentamos em uma mesa com o resto dos voluntários, logo depois a Eva veio falar com a gente. Ela falou que hoje nós não precisaríamos trabalhar e pediu para irmos para o escritório dela depois do café. No escritório, ela nos mostrou que lá eles nos fornecem tudo, sabonete, xampu, condicionador, hidratante, absorventes, tudo mesmo, recebemos até aerogramas para escrever para nossas famílias e eles enviam para gente gratuitamente, aliás, toda carta simples que a gente quiser enviar é de graça, só precisamos deixar lá no escritório que tem um horário específico de funcionamento.

            Ela nos levou para uma casa para pegarmos as roupas de trabalho, era uma salinha com um montão de roupas de todos os tamanhos, podíamos escolher a vontade. No Kibutz, não precisávamos gastar nossas roupas, e o que era melhor e lá tinha muito agasalho, o que nos faltava. Ainda era inverno e o Kibutz ficava no norte de Israel, mais frio ainda. Nesta salinha, marcamos todas as nossas roupas com caneta para tecido, recebemos, cada um, uma espécie de locker (armário) sem porta, lá eles colocariam nossas roupas depois de lavadas. Eu não acreditava, eles até lavavam nossa roupa!! A Eva nos deu um saco grande para roupas e um pequeno todo furadinho para roupas íntimas, esse saco menor ia para máquina sem ser aberto, as roupas do outro eram lavadas normalmente, a única coisa que tínhamos que fazer era deixar os sacos em uma caixa do lado de fora dessa salinha. O serviço de lavanderia era para todos, membros e voluntários.

            Eu perguntei para ela sobre a guerra, ela disse que não precisávamos nos preocupar porque ela já tinha conversado com os voluntários antes da nossa chegada e as máscaras de proteção para os voluntários já estavam chegando e aos abrigos anti-bomba já estavam sendo limpos e preparados para uma emergência. Ela falava com tanta naturalidade que o que parecia ser a coisa mais assustadora do mundo, teve um tom tranqüilo, era como se já estivesse tudo sobre controle e não tínhamos nada com que nos preocupar ali no kibutz.

            Lembro dela nos mostrar os abrigos anti-bombas e dizer que em caso de alguma ameaça, soaria um alarme e teríamos que nos direcionar para o abrigo mais próximo de nós, sem se preocupar em ficarmos juntos. Eu e o Monclair combinamos uma abrigo para corrermos para o mesmo nesse caso, mesmo desobedecendo as regras, não queria fiar sozinha em uma situação dessas de forma alguma.

            A noite teve uma palestra para os voluntários sobre o Dia da Árvore, depois jogamos futebol com uma bolinha de tênis no corredor do Scorpions. Não precisávamos de muito para nos divertir. Toda noite a Eva ligava para o Scorpions e deixava a work list (lista de trabalho) do dia seguinte, depois do “jogo” anotamos nossos horários e local de trabalho e fomos para o pub.

            Todo kibutz tem um pub, ou quase todos, mas ele só abre uma ou duas vezes por semana. O dia do nosso pub era segunda-feira, eu acho que era o único lugar que podíamos usar dinheiro. Nessa noite, foi engraçado saber que quando a Eva ficou sabendo que estávamos chegando, ela achava que éramos quatro brasileiros homens e a mulherada ficou toda assanhada. Foi uma decepção ver que um dos brasileiros era uma mulher (eu) e um deles era comprometido comigo. No pub as conversas eram divertidas, o Duda e o Romero não falavam inglês, mas se comunicavam muito bem, nessa noite o Duda até ficou com a Georgina.

            No dia seguinte foi nosso primeiro dia de trabalho no kibutz. Eu fui trabalhar na cozinha do refeitório, era muito legal, música o tempo todo, trabalho fácil, só jovens, entre membros, voluntários e assalariados. Descobri que nos kibutzim, a ética do trabalho que exigia que tudo fosse feito por esforço próprio estava menos rígida, o tabu contra o trabalho assalariado no kibutz perdeu a força, e um número cada vez maior de trabalhadores que não são membros do Kibutz vinham sendo contratados.

            O Monclair e o Romero trabalharam com as galinhas, eles as alimentavam, recolhiam os ovos e principalmente reviravam suas fezes (eca!). O Duda trabalhou na fábrica de lixa do Kibutz. Nosso kibutz era um dos mais ricos de Israel, exportava lixa para os EUA, o que dava uma boa grana para o Kibutz e assim era possível dar um bom padrão de vida para seus membros. Todos trabalham apenas seis horas por dia, com alguns intervalos, para refeições e lanches. Na cozinha, por exemplo, eu trabalhei de sete às duas.

            À noite fomos para o pub do kibutz vizinho, Givat.  Lá tinha sinuca e jogamos um pouco, não ficamos até muito tarde por que tínhamos que trabalhar no dia seguinte.

            Trabalhei na cozinha de novo. O kibutz é um sonho de sociedade, é como uma cidade que funciona sem dinheiro.Tem uma única loja que funciona apenas três vezes por semana vendendo só o supérfluo, como chocolate, filme de fotografia, material de papelaria e só abre por duas horas. Lá eles não aceitam dinheiro, só uns cupons que nós voluntários temos que trocar com a Eva. Hoje fomos lá, percebi que a maioria dos voluntários ia lá comprar bebidas, os europeus bebem muito.

            Hoje o Monclair tentou colocar em palavras o que ele estava sentindo.

“Sarid, 11 de fevereiro de 1998

         Muitas coisas têm passado na minha cabeça desde o começo da viagem. Gostaria de escrever mais, mas ainda não me organizei o suficiente. Às vezes parece que dois meses não é o suficiente para a organizada que eu queria dar na minha existência. Torná-la mais serena. Hoje é quarta feira e faz uma semana que saímos de Brasília e sem dúvida muito já aconteceu. Estou trabalhando com galinhas, quem veio preparado para trabalhar com merda, na merda está. Meu horário é de 8:30 as 15:00 com intervalos a cada hora e meia. Comecei com o tratorzinho de revirar merda num galinheiro de muitas galinhas, entretanto, no horário pós-almoço, trabalho separando, empilhando e limpando o reservatório de ovos.

          Ao começar uma narrativa de fatos, paro para pensar na influencia externa. O meio ambiente tem a capacidade de mudar meu estado de espírito e sem dúvida o foco do escrito. A simples presença de pessoas e suas conseqüentes influencias sobre mim, mudam meu humor e a minha atitude de escrever. Gostaria de falar mais de sensações e objetos da alma. Tudo o que seja eterno. Os fatos do mundo externo não são o principal ponto de atenção, mas são eles os pontos de partida para uma análise pessoal mais profunda. Capacidade de aumentar a sensibilidade, a ponto de tomar consciência de um todo maior.

          Neste momento tomo contato com uma nova influencia. Um país, meu país no ventre de uma mulher, pintado em verde e amarelo pelo meu amor, as cores vem surgindo e outras aparecem e hão de aparecer várias. Um sentimento, completamente diferente do original, toma conta do meu ser, quantas vibrações já passaram desde que tomei na mão essa caneta. Sinto-me sensível a ponto de não conseguir manter uma linha de pensamento tocada por uma mesma força matriz. O produto final da minha obra é um conjunto monstro de sensações únicas e de momentos por demais individuais. Os sentimentos já definidos, talvez tenham como átomos estas primeiras vibrações que como em ligações químicas transformam o sentir nos estereotipo que conhecemos. Qual será o momento inicial da solidão humana? Existe um segundo fatal que, movida por um estímulo externo, a alma toma conhecimento de um novo caminho que a faz rodar em ciclos de tamanhos variados. Girando desde pequenos e quase insensíveis a ponto de se tornarem o único legado de uma existência.” 

            Esse país no ventre de uma mulher que o Monclair citou era um desenho que eu tinha feito em algum momento, não tinha idéia que isso poderia causar tantas emoções. Mas o desenho ficou legal mesmo, ainda mais pra quem não sabe desenhar rsrsrs Pura emoção de momento: “Pátria amada Brasil!”

            No nosso terceiro dia de trabalho, fui para cozinha novamente, gostava de trabalhar lá, além de ser variado porque cada dia era uma comida diferente, era quentinho. O meu trabalho na cozinha era de ajudante de cozinheiro, cortávamos e descascávamos verduras e legumes principalmente. Cortávamos carnes e depois lavávamos as enormes panelas e a enorme cozinha industrial para alimentar mais de 800 pessoas diariamente.

            O almoço também era super farto, tem uma mesa de carnes ou prato principal, outra onde tem arroz e sopas, outra com legumes, outra vegetariana e outra com salada, cheia de pepinos e tomates, às vezes tinha a sensação de que estava no país maior produtor de tomates e pepinos do mundo!

             À tarde fomos correr no enorme campo de futebol que ficava no caminho de um prédio dos voluntários para o outro, não agüentei acompanhar os meninos, mas foi divertido. Depois fomos tomar banho no Scorpions, descobrimos que o chuveiro lá era muito melhor do que no Twins, e lá trancávamos a porta do banheiro feminino e aproveitávamos que tinha dois chuveiros e o Monclair tomava banho também. Eram apenas dois chuveiros maravilhosos, um de frente para o outro, e o Monclair dizia que era muito melhor olhar para mim tomando banho do que para outro macho (rsrsrs). Era bom porque já aproveitávamos para jantar por lá.

            Normalmente, à noite, a gente comia no Scorpions, a Eva colocava comida nas geladeiras todos os dias. Normalmente tem pão (preto e branco), tomate e pepino (é claro), ovo, queijo, requeijão, outro tipo de queijo, mortadela ou salame e à vezes os dois. Iogurtes, leite, sucrilios, biscoitos, pasta de chocolate (uma delícia), pasta de grão de bico, manteiga e outras variedades que apareciam de vez em quando. Mas era quinta feira, chamada “A noite dos voluntários”, noite de fazer alguma coisa diferente, de ver filmes no coffee shop e etc. Nesse dia a galera fez panquecas, todos comeram juntos e depois assistimos a um filme.

            Anotações do Monclair nesse dia:

“Sarid, 13 de fevereiro de 1998, sexta feira

         São duas da tarde e cheguei mais cedo do trabalho. Amanhã é sábado, dia sagrado, nem os ônibus funcionam. Estamos no Kibutz desde segunda-feira e muita coisa aconteceu na primeira semana e meia de viagem. Sinto que estamos nos nossos trilhos. Nossa sensibilidade tem aumentado assustadoramente, causando uma certa instabilidade, mas nada prejudicial.

         As primeiras impressões do Kibutz foram muito boas. Fomos extremamente bem recebidos, e logo os brasileiros correspondendo às expectativas dos demais voluntários, que ficaram sabendo que viríamos, se enturmaram logo na primeira noite.

         Detalhes técnicos: Saímos do Hostel No. 1 após o café da manhã e fomos para o escritório que nos aguardava. Decidimos pelo Kibutz Sarid e logo partimos em sua direção by bus. Depois de três ônibus, sanduíches e coca-colas, chegamos, lá pelas quatro horas. Depois de sermos apresentados aos nossos quartos e conseguirmos (eu e a Pat) ficarmos no mesmo quarto – a room for a couple, fizemos uma social com os outros voluntários e dormimos cedo.

A Patrícia entrou no quarto e perdi a narrativa. Temos que ir. Ponto final.”

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