5 - TEL MEGUIDDO

 

            Era sexta-feira no kibutz, nas sextas, todos terminam o trabalho mais cedo. Eu, o Duda e o Trevor (um voluntário canadense), fomos para Migdal Hameck. Migdal é a cidade mais próxima do kibutz, fica a mais ou menos 20 minutos andando por cima de um morro. Já era quase primavera e o caminho era lindo, uma trilha de pedrinhas brancas cercada de flores. Eu e o Duda fomos comprar gás para o nosso fogareiro, e o Trevor foi comprar bebida.

            Este era nosso primeiro fim de semana no Kibutz. Nós estávamos decididos a otimizar ao máximo nossa permanência e, junto à disposição de conhecer lugares novos, resultou em nosso plano de ação: viajar todos os fins de semana. Para eles, o “fim de semana” começa quando a primeira estrela aparece na sexta à noite e termina quando a primeira estrela aparece no sábado à noite: este é o tal shabat. A sexta para eles é como o sábado para a gente. Um dia útil que, de uma forma geral, acaba mais cedo.

            No nosso primeiro fim de semana no kibutz decidimos ir para Tel Meguido. Comunicamos à Eva que iríamos viajar e pra nossa surpresa, ela nos levou na dispensa do Kibutz e nos deu comida para levar. E claro que incluía um saco de tomate e um saco de pepino.

            Eu e o Duda voltamos de Migdal Hameck e combinamos de sair às duas e meia em direção a Tel Meguido (Tel é uma designação antiga para cidade). Estávamos britanicamente prontos e fomos para o quarto dos dois, mas lógico que o Duda e o Romero não tinham nem começado a se arrumar. Era nossa primeira viagem de carona e eu tinha medo que ficasse tarde, fiquei chateada por que eles continuavam enrolando, sem a menor consideração em relação à minha preocupação. Decidimos então separar tudo que estávamos levando de comida, colocando um pouco em cada mochila para distribuir o peso. Esperamos um pouco, e ao perceber que o pouco seria muito, partimos sem eles. Combinamos de nos encontrar na porta do parque.

            Só mais tarde perceberíamos o erro de estratégia que havíamos cometido. O Duda e o Romero ficaram de levar a maior parte do dinheiro, o pão e os biscoitos. Nós levamos: tomates, uma lata de abacaxi em conserva e biscoitos.

            Tudo pronto. Estávamos indo para Megiddo.  Os dois de mochilas nas costas, carregávamos mantimentos, barraca, sacos de dormir, isolante térmico (um colchão bem fino para que o corpo não perca calor para a terra durante a noite), nossos walkmans e outros apetrechos, como a gaita que o Monclair insistia em aprender a tocar para meu desespero. Nos dirigimos para a estrada na frente do Kibutz e começamos a pedir carona. Uma coisa que, para muita gente que só conhece Israel pela televisão, parecia insana: viajar de carona em Israel. Demorou um pouco para conseguirmos a primeira carona, mas em menos de uma hora estávamos a caminho de Meguiddo.

            Viajar de carona em Israel é muito comum, principalmente por causa do exército. Como os jovens ficam de 2 a 3 anos servindo as Forças Armadas, tem algumas folgas para ver as famílias e costumam viajar para suas cidades de origem de carona, por isso, pegar carona em Israel e uma tradição, quase cultural. Pra nós, além de ser de graça, era uma ótima oportunidade de estar em contato com as pessoas do país.

    

            Nesta primeira carona já aprendemos um gesto diferente. Quando eles juntam as pontas dos dedos com estes voltados para cima quer dizer: espere. O motorista do carro fez este gesto varias vezes enquanto ajeitava o banco para entrarmos e eu tentava abrir a porta. O que seria um “olá”, foi uma reclamação enfática pela minha impaciência. Fazer o que? Eu não tinha entendido. Após a calorosa recepção, o motorista se mostrou simpático, ele era um judeu sul africano, mais ou menos da nossa idade, dirigindo um carro econômico e velho vermelho e nos deixou bem perto do nosso destino.

            Próximo à entrada de Meguiddo, descobrimos que além do parque arqueológico existia também outro kibutz com o mesmo nome do parque. Entretanto, uma dura realidade se mostrava. O Duda e o Romero simplesmente não apareceram e estava escurecendo. Que desagradável! Uma sensação de indignação tomou conta da gente. Não era possível que eles não tinham cumprido o combinado. Contudo, a indignação deu lugar à preocupação (quase pânico), pois não tínhamos muito dinheiro, onde dormir, para onde ir e é claro o parque estava fechado.

            Decidimos ir a um posto de gasolina próximo que podíamos avistar a uns 10 minutos de caminhada. Lá, nos informamos e descobrimos que o kibutz Meguiddo tinha uma espécie de hotel. Bom, já era alguma coisa. A nossa esperança era de passar a noite em um lugar seguro. Na caminhada de volta em direção ao parque, aconteceu uma situação muito esquisita. Um carro grande e preto com um árabe esquisito dentro parou e com um inglês fajuto perguntou para onde iríamos e nos ofereceu uma carona. Na verdade, ele insistiu em nos dar uma carona. Não tenho a menor idéia das reais intenções daquele cara, mas nos pareceu diabólico oferecendo carona para qualquer lugar que quiséssemos ir naquela hora, na beira da estrada. Talvez fosse preconceito ou desconhecimento em relação aos árabes, mas não aceitamos de jeito nenhum.Continuamos andando mesmo.

            Estávamos parados em um ponto de ônibus em frente ao parque na estrada do tal kibutz, quando um jipe do exército parou e explicamos nossa situação. Como todo veículo militar, eles são proibidos de dar carona, mas como eles acharam muito perigoso dois jovens estrangeiros parados no meio do nada a noite, abriram uma exceção. Nossa situação era tão ruim que antes deles pararem, estávamos cogitando dormir em um bosque de pinheiros próximo a rodovia. Durante a carona com os soldados vimos que isso poderia ser bem perigoso mesmo, pois eles tinham um holofote, que parecia forte o suficiente para iluminar crateras da lua, apontado para o bosque. O país estava meio tenso com as ameaças de Sadan. Não deu para saber o que eles procuravam, mas eu não queria estar lá no meio das árvores e ser abordado por militares armados.    

            Finalmente chegamos ao kibutz e qual não foi nossa surpresa, não fomos bem vindos. Explicamos nossa situação, mas não tínhamos dinheiro suficiente para pagar o hotel, não podíamos dormir como voluntários e não nos deram nenhuma opção. Eu queria ficar com raiva do Duda e do Romero, mas tinha um problema bem maior para resolver.

            Nos levaram para o refeitório onde todos os membros jantavam, mas deixaram claro que não poderíamos comer. Falamos com algumas pessoas no kibutz, entre elas, a chatíssima chefe dos voluntários (não descobrimos se pessoas ranzinzas são escolhidas para chefe de voluntários ou se essa profissão transforma as pessoas), que foi justamente que não nos deixou comer rsrssr. Ao ver o que acontecia, um rapaz simpático que é apaixonado por futebol brasileiro veio atrás de nós. Ponto para a gente! Tínhamos um aliado em uma situação mais do que adversa. Ao sermos praticamente expulsos, este rapaz nos ofereceu uma solução. Não era nenhuma suíte presidencial nos esperando, mas dadas às possibilidades, resolvemos aceitar. Havia um campo de futebol abandonado fora do kibutz e no caminho para o parque arqueológico. Ele nos disse que poderíamos acampar ali, mas era frio. Para quem não tem nada, metade é o dobro e aceitamos. Perguntamos se era seguro, ele hesitou, hesitou, balançou a cabeça e respondeu afirmativamente. Só falou para agente ir embora assim que amanhecesse para ninguém ver a gente, e até apontou um morro onde teria uma trilha que nos levaria para o parque.

            Montamos a barraca, arrumamos nossa tralha e fomos jantar. O que? Abacaxi em lata e alguns biscoitos que pegamos no refeitório do kibutz Sarid. Não foi um banquete, mas matou nossa fome. Conversamos um pouco e tentamos dormir. Pouco tempo depois, uma sirene nos acordou. Agora sim, estávamos tomados pelo pânico. Para piorar nossa situação, ouvimos o som de um helicóptero. Tudo de pior passava pelas nossas cabeças. Lembrávamos dos soldados do jipe e parecia que tinha um exercito inteiro nos cercando. Meu Deus, que medo. Eu estava sem atitude, o Monclair só conseguia me olhar com os olhos arregalados e me abraçar, mas não conseguia me convencer de que estava tudo bem. Eu o abraçava bem forte como se ele fosse a única segurança que eu  tinha naquele momento, mas ele também não sabia o que fazer, estava em pânico. Quando eu comecei a chorar, calada de medo, ele parecia ter voltado a si e me dizia  que tudo ia ficar bem. De repente, um megafone dizia qualquer coisa em hebraico que nos deixou duas vezes mais desesperados. O Monclair cogitava sair da barraca para ver o que estava acontecendo, mas o medo não nos permitia nenhum movimento. Fizemos a única coisa que nos era possível: Nada. Meguiddo é a cidade bíblica do Armageddon. Onde, segundo o livro sagrado, ocorrerá a batalha final dos tempos (Revelações 16:16). Seria aqui a nossa última batalha? Não. Senão esta história seria curta e póstuma. 

            Depois de um tempo, os barulhos cessaram. Mas o que estava acontecendo? Todo o exercito israelense estava do lado de fora esperando pela gente? Não temos a menor idéia do que era o barulho da sirene, o megafone e o helicóptero, mas simplesmente não eram conosco. Ufa! Abraçados e chorando, conseguimos dormir.

            O dia seguinte começou ensolarado. Desmontamos nossa barraca, arrumamos nossa tralha, comemos uns biscoitos e partimos para o parque arqueológico pela trilha que o nosso ‘amigo’ havia nos indicado no dia anterior.

            Meguiddo foi uma das cidades mais importantes da antiguidade. Foi também uma das mais antigas, com historia que vem desde o século XV a.C. Era caminho obrigatório que ligava a África, Europa e Ásia. Já foi conquistada e destruída por várias civilizações: Assírios, Mesopotâmeos, , Egípcios e Israelitas que tinham por objetivo controlar a lucrativa rota. É possível observar as varias camadas de reconstrução da cidade em um museu dentro do parque, que possui um esquema onde é possível elevar as camadas mais recentes e observar como era a cidade em várias épocas diferentes. Isso era uma coisa interessante, os povos quando conquistavam novas cidades, construíam uma nova por cima.

  

            A cidade era na verdade um forte, que tinha alguns segredos. Talvez o maior deles seja o túnel que levava os moradores antigos de forma segura a uma fonte de água fora dos limites do forte. Este túnel ainda pode ser visitado e é claro fomos lá. Esse túnel também nos levava a uma cisterna, acreditam ser a primeira do mundo. Outra importante estrutura da cidade é o silo de estocar alimentos. Cilíndrico e volumoso, podia estocar grandes quantidades de alimento em períodos de guerra construído no século VIII a.C. Havia também o resto de um templo Canaanita construído no século XX a.C.

    

            Andamos por toda a cidade, tiramos muitas fotos, e a fome começou a bater. A única coisa que nos restava para comer era um saco de tomates! No parque tinha uma lanchonete bem turística onde pedimos uns saquinhos de sal e uma faca descartável e sentamos para o nosso banquete. À tarde, após almoçarmos os tomates, nos preparávamos para voltar ao nosso kibutz, adivinha só quem apareceu com as caras mais deslavadas do mundo? Os loucos do Duda e do Romero.

            Eles ficaram enrolando para sair do kibutz e os voluntários disseram que teria uma festinha lá no prédio deles, como não sabiam o que fazer, decidiram jogar uma moeda para facilitar a escolha: cara, eles ficariam no Kibutz e coroa, eles iriam nos encontrar em Meggido, para o nosso azar, deu cara. Eram solteiros e estavam fazendo o maior sucesso entre as européias, compreensível a decisão.

            Não conseguimos ficar com raiva deles e fomos fazer todo o tour  nas ruínas novamente. Nós já estávamos entendendo tudo então ia explicando. Nessa hora percebemos que só tinha a gente no parque, aliás, o mesmo já estava fechado ou fechando, mas não tinham registro nenhum da nossa entrada porque nenhum de nós pagou para entrar. Eu e o Monclair entramos pela trilha do Kibutz e o Romero e o Duda tinham pulado a cerca. Sentamos-nos atrás de uma parede daquelas ruínas construídas com pedras enormes, de frente para uma paisagem linda que nos fazia entender porque ali era um ponto estratégico, a vista era muito abrangente, podíamos até avistar Nazaré ao longe.

  

Voltamos para o kibutz Sarid de carona. Missão cumprida!

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