7 - NOITE SINISTRA

Eu e o Monclair, por sermos um casal, pegamos carona com mais facilidade que o Duda e o Romero. Então, combinamos de nos encontrar em um convento já em Nazaré.

Antes de encontrar os meninos, passeamos pelas ruas da cidade. Já era fim de dia e queríamos aproveitar tudo que era possível. Nós havíamos lido e pessoas nos informaram que Nazaré é uma cidade árabe e que eu deveria me cobrir ao máximo. Então, estava vestida como me advertiram: calça comprida, camiseta babylook e camisa de manga longa por baixo, mas mesmo assim, acho que agredi um pouco a população local. Quando viajamos de mochila, andamos por lugares aonde os turistas normais não vão, então muitas pessoas não estão acostumados com nossa forma de vestir. Eu e Monclair estávamos na calçada em frente a uma loja e um carro parou ao nosso lado. Um senhor de paletó e bigode abriu a janela e nos deu uma super bronca, em árabe! Não entendemos nada, mas ele estava indignado, me apontava e falava alguma coisa com o Monclair. Como se perguntasse como ele me deixou sair de casa assim, ou sei lá. Depois, no caminho para o convento, já um pouco escuro, um grupo de jovens rapazes passou por nós e rosnou pra mim. Não era uma cantada, era bem agressivo mesmo.

Nazaré era indiscutivelmente a cidade mais árabe que havíamos conhecido até então. Tudo ali era mais antigo e desorganizado. Conforme a noite chegava ficava até assustador. Roupas penduradas em varais do lado de fora das janelas pareciam até decoração da cidade.

Outra coisa que me chamou atenção nessa chegada a Nazaré, foram as imagens de Jesus Cristo. Ele não estava loiro e com olhos azuis. Ele tinha traços mouros, cabelos e olhos escuros, muito mais parecido com o que Ele deve ter sido de fato.

Encontramos o Duda e o Romero na rua por sorte ou devido à “mão invisível” que o Leo nos disse. Que bom! Sentia-me mais protegida entre três homens naquele lugar que era muito diferente para nós ocidentais. Juntos, fomos nos hospedar no Convento das Irmãs de Nazaré, uma dica de outro voluntário do kibutz que já havia estado lá. Era um convento mesmo, em frente da Basílica da Anunciação. Ao chegar tivemos que conversar com a Madre Superior para pagar pela estadia e conhecer as regras do lugar. Era quase uma entrevista de aprovação para a hospedagem. A tal freira era muito simpática e nos contou que o convento era composto por freiras francesas, ela nos contou também que durante as cruzadas havia um grupo de guerreiros franceses que gritavam “MONCLAIR!!” em suas vitórias. Não sei se, saber disso o deixou orgulhoso, mas pela primeira vez na vida alguém ouvira falar em seu nome.

  

Neste convento podíamos usar uma cozinha que ficava no fim de uma sala de estar, mais ou menos no subsolo, que era o único lugar que homens e mulheres podiam ficar juntos. Esta área era destinada aos peregrinos e viajantes como nós. Tinham duas acomodações distintas, a masculina era um grande quarto com banheiro perto dessa sala e da vista das freiras. Já a acomodação feminina, que também era um grande quarto com banheiro ficava no fundo do Convento, depois de um jardim com altos muros, bem isolado da vista dos homens. Chegar lá sozinha a noite era amedrontador, no quarto tinham mais ou menos dez camas, mas apenas eu e uma mulher que não falava nada estávamos hospedadas lá.

  

Já era noite e fomos caminhar pela cidade e comer alguma coisa. Essa noite foi apelidada como “Sinistra Noite”. Os prédios antigos de pedra e ruelas estreitas da cidade não nos deixavam muito confortáveis, além do fato de só haver homens na rua. Nós nos achamos e nos perdemos algumas vezes.

Quando viajamos tudo parece interessante, nessa noite, até uma livraria árabe nós visitamos. É muito engraçado ver os livros infantis árabes, além de ser lido de trás pra frente, as figuras desenhadas são muito diferentes das que conhecemos. O padrão de beleza, as roupas, os cenários, tudo diferente. Continuamos caminhando e vimos um grande toldo armado, como um circo, mas sem cores. Um árabe falava muito em um microfone lá dentro para um monte de outros homens num tom bem eufórico, parecia interessante, mas eu não podia entrar por que sou mulher. Encontramos uma barraquinha de falafel ali na frente, onde além de comermos, os meninos se revezavam para ir lá dentro e não me deixar sozinha entre aquele tanto de homem que já estranhavam bastante a minha presença. Falafel e shuarma em Israel são igual pastel no Brasil. Os dois são “sanduíches” feitos em pão sírio, com tomate, pepino (que não podiam faltar), repolho e pasta de grão de bico. No falafel, eles colocam umas bolinhas fritas em formato de almôndega, acho que feitas de soja ou grão de bico. No shuarma colocam fatias bem finas de carne de carneiro. Era uma delícia e barato, além serem encontrados em qualquer esquina.

Já era quase nove da noite, horário limite para entrar no convento. Lá as regras eram bem rígidas e conservadoras. O convento ficava no fim de uma rua super antiga e sem saída, logo depois de um hospício. Ficamos na sala de estar comum por um tempo, onde comemos um pouco e aproveitamos para ver as filmagens que já havíamos feito até aquele dia. A sala tinha chão de madeira bem rústico e percebemos que embaixo de onde tinha um baú, que ficava em cima de um tapete, era oco. Não resistimos à curiosidade e arrastamos o baú para ver o que tinha embaixo, para aguçar ainda mais nossa curiosidade, encontramos uma porta! Eu estava morrendo de medo de alguém chegar ali e nos dar uma bronca enorme. Os meninos abriram aquela porta no chão e para piorar a situação tinha uma escada! Eles se muniram de lanternas e desceram. Passaram por um pequeno corredor e encontraram outro buraco, sem escada dessa vez. O Duda e o Monclair seguraram o Romero pelos pés e ele entrou no tal buraco de cabeça para baixo, mas ele disse que ali só tinha água. Era apenas uma cisterna antiga, mas valeu a expedição. Eu não tive coragem de ir com eles, fiquei na sala rezando para ninguém chegar. Meu medo não era de descer, mas de infringir as regras e ser pega e expulsa, sei lá.

Chegou a hora de dormir. Nem precisava ir até o local do meu quarto, só o pátio central já era o suficiente para me deixar com os pêlos arrepiados de medo. Então o Monclair, que estava entendendo perfeitamente minha aflição, infringiu as regras mais uma vez e me acompanhou até uma porta no fim do pátio. Essa porta dava acesso a uma varanda que, por sua vez dava acesso ao tal jardim que vinha antes do meu isolado quarto. Esse jardim era digno de qualquer cenário de filme de terror. Nós nos despedimos e atravessei o jardim correndo pro quarto.

 Apesar de não dormir com o Monclair, tive uma excelente noite de sono.Os meninos me falaram que ouviram tiros do lado de fora do convento durante a noite. O que houve na verdade nós não soubemos e acredito que nunca saberemos. Mas eu mesmo, não ouvi nada.

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