8 - NAZARÉ

 

Na manhã seguinte, quando começamos a preparar nosso café da manhã, com as comidas doadas pelo kibutz novamente, ficamos sabendo que embaixo do convento tinha escavações de um cemitério do século I d.C. Ainda bem que eu não sabia disso antes. A freira que nos recebeu no dia anterior estava levando um pequeno grupo de turistas para as escavações, então pedimos para ir com ela, que gentilmente permitiu.

Entramos em túneis formados por arcos cruzados feitos de pedra como tudo na cidade. Lá embaixo ela nos dava uma aula, ela disse que aquilo tinha sido descoberto por acaso por um homem que foi limpar uma das cisternas em 1884. Ela disse que aquele convento tinha sido construído nas cruzadas (1099 – 1291). E em 1822, existia na França um grupo de 20 freiras que se denominavam Irmãs de Nazaré, e elas foram convidadas para cuidar do lugar e fazer uma escola para meninas cristãs. Na época que estávamos lá, elas cuidavam de uma escola para deficientes e cegos que ficava em frente ao convento.

Pareciam ruínas de uma cidade, mas ela disse que eram ruínas de uma igreja construída no século IV, no local onde morava a família sagrada para venerá-la. Tinha um altar de pedra e várias tumbas que ela dizia ser de pessoas menos ilustres e uma tumba especial, que era fechada com uma pedra redonda enorme, que era a de José, pai de Jesus. Estudiosos dizem que só existem cinco daquelas tumbas na terra de Israel. Eu não sei em que parte da Bíblia José desaparece, mas sei onde ele foi enterrado rsrsr. Aquilo era um labirinto de ruínas, para entrar nas tumbas tinha que agachar para passar por pequenas “portas”, dava até arrepios pensar que um monte de gente tinha sido enterrado ali onde estávamos. Os meninos acharam mais um buraco fora da rota, onde entraram escondidos, mas só encontraram mais ruínas.

Voltamos ao nosso café da manhã, onde preparamos torradas em frigideiras como panquecas ou pizzas, e era bem divertido. De dia, o pátio era muito bonito e o prédio também.

Saímos do convento e fomos para uma igreja Anglicana ao lado, o muro que fechava a rua cerca essa igreja. Estava tudo fechado, mas entramos na parte externa dela e ficamos procurando alguma coisa interessante, e de fato encontramos. Em uma varanda tinha uma cadeira bem bonita de madeira, aquela que o padre senta e um local para a oratória, lugar perfeito para lermos na Bíblia a parte da anunciação antes de seguirmos para a Basílica. O Romero se posicionou no lugar do orador e leu o seguinte trecho (Lucas 1, 26-38):

 

“Ora, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E, entrando o anjo onde ela estava disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir estas palavras, turbou-se muito e pôs-se a pensar que saudação seria essa. Disse-lhe então o anjo: Não temas, Maria; pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.
Então Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, uma vez que não conheço varão?
Respondeu-lhe o anjo: Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus.
Eis que também Isabel, tua parenta concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril; porque para Deus nada será impossível.

Disse então Maria. Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela.”

 

            Nessa viagem, levávamos a Bíblia com a gente o tempo todo, não por causa da religião ou coisa parecida, mas para discutirmos as informações nela contidas e para entender melhor cada lugar que conhecíamos. Ela nos ajudou muito. Nesse dia mesmo, foi muito legal ler esse trecho logo antes de ir para, o dito, local da Anunciação.

            Existem duas teorias a respeito do local do anúncio do anjo Gabriel. A igreja católica defende a teoria de que foi no local onde eles construíram a Basílica da Anunciação, mas estudiosos afirmam que o local foi onde foi construída a Igreja do Arcanjo Gabriel. Decidimos ir às duas para termos nossas próprias opiniões.

            A Basílica da Anunciação teve sua construção terminada em 1969 no local onde acreditam que era a casa de Maria. Ao chegarmos, ainda estava fechada, mas podíamos caminhar pelo pátio que exibia enormes quadros, a maioria mosaicos, de diversos artistas do mundo, todos sobre suas interpretações da anunciação. Quando entramos, pudemos perceber nitidamente a mania de grandeza da igreja católica. O lugar era enorme e famoso por receber a luz do sol bem no centro devido seu teto ter uma forma de funil invertido. No andar da igreja que entramos, podíamos ver ruínas de uma igreja construída em 356 d.C. logo atrás de um altar onde um padre rezava uma missa. Não entendemos porque, mas apenas um pequeno grupo de pessoas era autorizado a passar um cordão de isolamento que fica envolta do local da tal missa, não somos todos filhos de Deus? No segundo andar, era uma igreja tradicional, com mais mosaicos nas paredes, entre eles encontramos um doado por um artista brasileiro. Era Nossa Senhora Aparecida cercada por dois pescadores segurando uma rede de pesca que fazia o formato do Brasil, em cima os dizeres, em português: Padroeira do Brasil.

            Ruínas da antiga cidade de Nazaré podem ser vistas em baixo de uma praça em uma das entradas da igreja, mas enrolamos tanto que perdemos o horário que os monges franciscanos levam os turistas até lá. Os meninos, clandestinamente, entraram por um buraco e foram ver as ruínas, eu fiquei do lado de fora esperando, como sempre. Nazaré provavelmente tem vários problemas com instalação de saneamento básico, quando começam as perfurações encontram restos de uma cidade antiga. Os povos que conquistavam as cidades construíam outra encima, daí encontrarem cidades inteiras embaixo de outras. Só nesses dias em Nazaré vimos várias obras interditadas por esse motivo.

            Depois da Basílica seguimos para a Igreja de São José, que era do outro lado da praça encima das ruínas, construída em 1914 sobre o local onde era a casa de José. A igreja lembra uma igreja Bizantina. Lá dentro, descemos uma escada que nos levava as ruínas da carpintaria de José que funcionava em uma espécie de caverna. Aliás, vimos também outras cavernas que estocavam óleo e grãos. Evidencias sugerem que essas cavernas já eram utilizadas desde a Idade da Pedra. Entre esse subsolo e a recente estrutura da igreja, tinha outro andar com ruínas do que parecia uma igreja ainda mais antiga.

            Continuamos nossa caminhada pela cidade até a Igreja do Arcanjo Gabriel. Ao chegar vimos uma igreja em pedras brancas, construída em 1750, com decoração em estilo Bizantino também. Para entrar, nós tínhamos que abaixar, pois a porta tinha apenas um metro e meio, ou seja, nem precisei abaixar muito rsrs. Ao entrar, percebemos que ela foi construída envolta de outra menor, construída em 356 d.C. Ao continuarmos entrando percebemos que essa igreja tinha sido erguida envolta de uma terceira igreja, ou melhor, uma capela de pedra, quase uma caverna. Dentro dessa capela tem uma fonte, onde a virgem Maria costumava pegar água. Os gregos ortodoxos acreditam que foi ali que o anjo Gabriel apareceu para lhe fazer o anúncio. Os católicos que me desculpem, mas prefiro essa segunda teoria. Além de muito mais simples e velha, ali estava a tal fonte.

            De lá fomos para uma mesquita, que eu, mais uma vez por ser mulher, só podia ficar no pátio. Os meninos entraram, viram e voltaram para sentar na sombra onde eu estava sentada em longos bancos envolta de uma parede coberta para abrigar-nos do sol. As mesquitas são templos árabes, elas são basicamente vazias e com tapetes por todos os lados, onde eles ajoelham para rezar. Nazaré foi a cidade das broncas, nesse mesmo banco levamos mais uma. O Monclair estava sentado do meu lado e descansava uma de suas mãos na minha coxa, de forma tão natural que nem percebermos, tanto é que demoramos a entender o que estávamos fazendo errado, ainda mais com aquele homem gritando em árabe. Era hora de ir embora dali. Será que a bronca do senhor árabe no dia anterior era porque estávamos de mãos dadas? Já não sei mais o que o ofendeu, mas com certeza, não tínhamos a intenção.

            Queríamos chegar a um prédio enorme da Igreja Salesiana, de onde podemos ver Nazaré inteira, além dos morros da Galiléia. Mas as cidades árabes são cheias de becos e ruas sem saída. Só sei que subimos milhares de andares naquelas ruazinhas estreitas e vimos que estávamos completamente perdidos, mesmo porque, chegamos a um prédio em construção onde entramos e podíamos avistar a tal igreja por cima. Subimos muito mais do que o necessário, mas talvez tenha sido uma ajudinha daquela tal “mão invisível” mais uma vez. Sentamos em uma varanda da construção e decidimos lanchar, afinal de contas, de lá dava para ver muito mais do que daria pra ver da Igreja Salesiana. Conseguíamos ver Nazaré inteira e os morros da Galiléia. Ficamos comendo e apreciando a paisagem por um bom tempo, era realmente lindo. Era incrível imaginar quantos mil anos de história estavam ali abaixo de nossos olhos.

  

            Subi um andar da construção para fazer xixi, procurei um local reservado e na minha frente encontrei uma narguilé velha, enorme, mas incompleta. Ela era linda justamente por ser velha, era mais trabalhada, devia ser de algum árabe que a abandonou lá, não era produto para turista. Estava sem a mangueirinha e sem a pecinha de barro onde se coloca o carvão. Chamei o Monclair e mostrei para ele. Ele ficou doido e decidimos que iríamos levar com a gente. Dito e feito.

            Não foi difícil pegar carona de volta para o Kibutz Sarid que era bem próximo, como tudo em Israel, que é um país minúsculo. Ao chegarmos ao Kibutz tomamos banho e fomos para o nosso quarto inaugurar a mini-nargulé que o Duda tinha comprado e os outros apetrechos, como os carvões e os fumos de menta e maçã. Estávamos na pilha de entrar no clima do país. Fizemos também outra fogueira na frente do quarto para um ritual de purificação da narguiliezona que eu achei. Eu sei que parece coisa de maluco, mas cada uma dessas nossas brincadeiras era muita divertida e fazia a viagem ainda mais mágica. Estávamos prontos para começar mais uma semana incrível. 

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