9 - TERCEIRA SEMANA NO KIBUTZ

A semana já começou diferente, domingo foi meu primeiro dia trabalhando com as vacas. Logo que chegamos ao kibutz, comentei com a Eva que gostaria de trabalhar com animais, assim que surgiu uma vaga para voluntário nas “vacas”, ela me colocou lá. Essa primeira semana era quase um treino para ser admitida, porque “as vacas” era um dos poucos trabalhos para voluntários que é praticamente fixo, somente um dia na semana teria que trabalhar em outra coisa.

            Meu trabalho lá era ordenhar as vacas de cinco ou seis currais diferentes. Elas eram separadas por idade, por número de filhotes que já tinham tido e etc. As vacas mais velhas sabiam fazer tudo direitinho e iam para o local onde tirávamos leite, sozinhas, nem davam trabalho. Já as mais novas ainda não estavam tão acostumadas, ou tinham medo e davam um trabalho danado. Depois de levá-las para um curral de onde elas entravam, uma a uma, numa espécie de carrossel giratório, colocávamos uns sugadores que tiravam leite de suas tetas enquanto elas comiam. Quando a volta do carrossel acabava, esses sugadores caiam automaticamente e elas saiam para outro curral. Trabalhávamos sempre em duas pessoas, uma ficava lá dentro o tempo todo, a outra, no caso eu, levava e buscava as vacas e também trabalhava lá dentro entre uma ordenha e outra.

            Meu pai tinha vacas e eu já estava acostumada com os animais e não tive problema nenhum com elas. Tirar leite era algo novo pra mim, eu já tinha tirado leite algumas vezes no Brasil, mas no kibutz o processo era diferente, alta tecnologia. Perto de cada sugador, tinha uns lencinhos umedecidos que usávamos para limpar as tetas antes de colocar o sugador. As vacas davam muito leite e eram ordenhadas três vezes ao dia: a primeira era às quatro da manhã, horário que me atribuía mais uma responsabilidade, observar o curral das vacas prenhas para ver se tinha algum bezerrinho nascendo entre uma levada e uma buscada de vacas; outro horário era ao meio dia e o outro era às sete da noite. Esses horários eram revezados diariamente. Conversei com meu chefe para ter o horário das quatro da manhã nas sextas feiras para ficar livre para viajar mais cedo, ele não fez nenhuma objeção.

            Passei no teste no meu primeiro dia de trabalho, acho que por ter mostrado um pouco de intimidade com esses animais. Obrigada pai! Nesse dia comecei às nove, o que significa que tiraria leite ao meio dia. Comecei tendo que alimentar os bezerros, para os mais velhos eu dava ração, mas para os mais novos eu dava mamadeira, eram muito fofos. Almocei cedo e fui tirar leite pela primeira vez dessa forma hightech. Adorei!!!! Musica o tempo todo, até dançávamos, era uma festa. Tudo no kibutz era muito alto astral.

            Parecia muito bom para ser verdade, mas na segunda feira tive que limpar o Coffee Shop e o prédio dos voluntários de novo, era o único trabalho no kibutz que eu não gostava. Depois do trabalho fizemos alongamento e jogamos capoeira, ou melhor, aproveitei que estava só eu e o Monclair para aprender um pouco mais.

            Na terça, trabalhei nas “vacas” de novo, mas dessa vez às quatro da manhã, apesar de começar cedo, eu estava liberada às nove, o que era muito bom. O único problema era que há essa hora eu tinha medo de ir para o trabalho sozinha. O local das vacas era exatamente do lado oposto do kibutz que era o nosso quarto. Não tinha, absolutamente, nenhum problema quanto à violência, mas tinha uma coisa que me assustava muito mais: os cachorros. Eles latiam muito, logicamente estranhando alguém estar andando ali naquela hora, e eu morria de medo deles, afinal de contas todos nós temos nossos pontos fracos. O Monclair, um anjo, levantava e me acompanhava nos dias que eu trabalhava nesse horário. De tarde, dormimos e ás seis da tarde fomos para casa do Efraim.

            Efraim é um brasileiro que conhecemos logo no primeiro dia, sabe aquelas pessoas especiais que aparecem em nossas vidas? Com certeza Efraim é uma delas. Ele foi morar nos kibutz quando tinha 21 anos de idade, motivado pelo movimento sionista e a ideologia dos kibutzim. Nesse ano ele estava completando 41 anos de kibutz. Efraim era apaixonado pelos estudos, falava, lia e/ou escrevia em alguns idiomas, além de dar aulas de hebraico em Migdal Hamec. Sabia muito sobre toda situação de Israel e do mundo. Era casado com uma senhora israelense muito simpática e gentil, só que ela não falava nada de inglês e nós não falávamos hebraico, o que dificultava nossa comunicação, mas ela fazia questão de nos mostrar que éramos queridos preparando comidas deliciosas para nossas visitas, que depois dessa primeira, tornaram-se constantes.

            Nessa visita ele nos falou sobre a situação de Israel em relação aos paises vizinhos. Nós escutávamos atentamente tentando absorver ao máximo suas sábias palavras. Eu perguntava muito pouco, mas os meninos eram bem mais curiosos e sempre que tinham uma chance, surgia uma pergunta inteligente, sorte minha que acabava aprendendo ainda mais. Ele começou nos falando sobre a criação do Estado de Israel, que foi proclamado em 1948 pela ONU. Menos de 24 horas depois da proclamação, os exércitos do Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o país. Esse episódio ficou conhecido como a Guerra da Independência de Israel, que só após quinze meses de luta, muitas vidas e interferências da ONU conseguiu ser definido, mas a cidade de Jerusalém ficou dividida, entre Jordânia e Israel. Nos primeiros quatro meses de independência, chegaram ao país cerca de 50.000 imigrantes judeus, a maioria eram vítimas do Holocausto. A população judaica no país duplicou em quatro anos. Israel foi se consolidando aos poucos.

            Duas décadas depois, em 1967, aconteceu a Guerra dos Seis Dias, o Egito e a Jordânia começaram ataques terroristas em suas fronteiras e a Síria persistia em bombardear as cidades no norte de Israel. Quando o Egito decidiu expulsar as forças de manutenção da paz que estavam instaladas no Sinai desde 1957, Israel se viu diante de exércitos em todas as frentes, então invocou a ONU seu direito de autodefesa e desencadeou um ataque contra o Egito no sul, contra a Jordânia ao leste e a Síria ao norte. No fim de seis dias, Israel tinha mudado seu mapa, acrescentando o Sinai, os Gollans e a reunificação de Jerusalém. Os judeus dizem que o rápido crescimento econômico de Israel incomodou os países vizinhos que estavam bem mais atrasados, sem contar com o apoio americano e europeu com o que Israel contava para seu desenvolvimento.

            Depois dessas guerras ainda houve mais algumas, é um país que já começou conturbado, é como se as guerras fizessem parte da vida dos Israelenses. Em 1968, o Egito iniciou uma “guerra de desgaste” que durou até 1970, quando os dois paises aceitaram um cessar-fogo ao longo do Canal de Suez. Em 1973, Egito e Síria atacaram Israel de surpresa em um dia sagrado do calendário judaico (Iom Kipur), mas três semanas depois Israel já tinha expulsado as tropas dos exércitos vizinhos, invadindo territórios Egípcios e sírios, só após dois anos de negociações esses territórios foram devolvidos. Em 1979, Israel e Egito assinaram um tratado de paz que acabava com aquele estado de guerra que já duravam 30 anos entre os dois países, de acordo com esse tratado, Israel retirou-se da península do Sinai.

            Essas aulas eram interessantíssimas, mas chegou a hora de ir e voltamos para o quarto. Eu fui escrever sozinha sobre tudo que aprendemos. Em quanto os meninos também fritavam suas cabeças pensando em tudo que tinha sido falado lá. Eles falavam com muita empolgação, o Duda e o Monclair eram os mais empolgados.

            Outro dia começava, de manhã fui alimentar os bezerros, meu horário de tirar leite era à noite. De tarde, fomos passear com o Gill. O Gill é um alemão que já estava no kibutz a mais de dois anos, ele entrou como voluntário e quer se tornar membro. Já mora em um apartamento de solteiro dos membros e tem um carro próprio, que comprou logo que chegou em Israel. Ele é alto e bem magro, usava um corte de cabelo tipo Chitãozinho e Chororó no início dos anos 90, cumprido atrás e arrepiado na frente. Sempre usava uma bandana na testa ou na perna. O Gill foi preso bem novo, na Alemanha, na tentativa de assaltar um banco com uns amigos, ele passou dezessete anos na cadeia, e hoje mora lá no Sarid. Ele é muito legal, apesar de meio estranho, e diz que o assalto foi coisa de adolescente motoqueiro revoltado.

            Eu e o Monclair estávamos na frente do Twins quando ele chegou para pegar a Catarina (uma voluntária) de carro para levá-la para conhecer uma tenda beduína ali perto que ele tinha o costume de visitar, então nós pedimos para ir também. Primeiro ele nos levou para uma carcaça de ônibus abandonada no meio do nada, eles chamam aquele lugar de Magic Bus. A carcaça é toda pixada, lá dentro tem várias frases escritas em inglês e em hebraico (a maioria). O Gill disse que ali era o lugar de algumas reuniões de jovens judeus dos arredores. Imaginei algo do tipo “Sociedade dos Poetas Mortos”, mas acredito que seja uma viagem minha e não passe de um lugar para festinhas psicodélicas.

            De lá, fomos para a nossa primeira tenda beduína. O David, um voluntário americano de mais de trinta anos, também estava conosco. Esse cara era muito engraçado, típico nerd, cabelos curtos e encaracolados e óculos grandes e quadrados estilo Bill Gates, mas era gente boa. Do local da tenda podíamos avistar o Sarid e Migdal Hamec. A tenda era bem rústica, feita com uma lona de sacos de arroz costurados um no outro, na verdade, não sei se os sacos eram de arroz, mas eram aqueles sacos grandes. Achei estranho que a tenda tinha um mastro com uma bandeira de Israel, não sei se por diplomacia. Eles tinham uns currais com cabras e algumas outras tendas menores, todas feitas em remendos e plásticos.

            O Gill já os conhecia e fomos muito bem recebidos. Ali vivia um beduíno com duas esposas. Logo que entramos, começaram a nos servir chá e comida, as duas esposas se ajudavam para servir a mesa, serviram pão, queijos de cabra, pasta de grão de bico, azeite, entre muitas outras coisas que não saberia nomear. O Gill era o único que conseguia se comunicar com o anfitrião, nós só observávamos e comíamos, pois ele nos disse que tínhamos que aceitar tudo para não fazer desfeita, era parte da cultura deles. Por terem hábitos nômades, eles têm o costume de proteger o visitante com sua própria vida e tratá-lo da melhor maneira possível, assim quando eles estiverem viajando serão tratados da mesma forma.

            De fato, comemos muito, e coisas muito diferentes. Tão diferentes que tive que voltar mais cedo do trabalho devido a uma horrível diarréia. Era quarta–feira, dia do Hamat David, uma boate que funcionava as quartas na base de aviões de outro kibutz vizinho. Sempre dizíamos que iríamos uma quarta para conhecer, mas essa noite foi impossível mesmo.

            Na quinta, trabalhei de manhã, dormi de tarde e tirei leite à noite. Meu trabalho de manhã foi limpar os currais do carrossel, de vez em quando tinha que fazer isso, mas era legal, usava uma pistola de água de alta pressão e “empurrava” toda a bosta para um lugar onde elas escoavam. Tudo isso ouvindo música e dançando, sem ninguém encher o saco. O chato de tirar leite à noite na quinta, era perder a noite dos voluntários. E nessa quinta era ainda pior, porque era a nossa noite e todos os voluntários fizeram uma espécie de churrasco, que seria a comida típica mais próxima da brasileira. Não fui, mas o Monclair levou comida pra mim. Era um churrasco meio árabe, com lingüiça e quebab, mas estava valendo, pela comida e pelo carinho.

 

            Oba, Sexta-feira!!! Comecei as quatro e terminei as nove. No dia anterior, no tal churrasco, os voluntários combinaram de acampar em uma praia ao norte do mar da Galiléia. Logo cedo começamos a pegar carona rumo a Lavnum Beach. Todos se separaram naturalmente, em duplas ou trios, para facilitar as caronas, e cada um saía na hora que podia. Minha dupla, como sempre, era o Monclair, e dessa vez ele decidiu levar sua gaita que ele insistia em aprender. Caronas para esse lugar era difícil, principalmente porque pegamos estradas pequenas (um erro de estratégia para cortar caminho) e quase não passava carro e o Monclair não parava de repetir as quatro primeiras notas de “Óh Suzana”.

            Em uma de nossas caronas, passamos pelo Rio Jordão, o que no Brasil seria chamado de córrego. Ficamos surpresos de saber que o Mar da Galiléia, aquele que Jesus andou sobre as águas, é um lago, o Lago Kineret. E esse lago ainda é bem menor que o Lago Paranoá em Brasília.

            Chegamos na “praia” combinada, o local era bonito e a praia era de pedra. Quase todos os voluntários foram. Armamos nossas barracas e alguns voluntários entraram na água que estava congelando, mas se não me engano, só os suecos entraram e talvez a Luna, uma Holandesa. Nós brasileiros não tivemos coragem de encarar, não assim no fim do dia. À noite, fizemos uma fogueira e ficamos todos envolta conversando. Conhecemos dois israelenses que também chegaram lá para acampar.

Lembro que nessa noite, depois da fogueira, eu e Monclair conversamos muito sobre sonhos e objetivos de vida. Percebi que não tinha objetivos! A única coisa que eu tinha certeza que queria, era ser mãe um dia, mas isso não pode ser considerado um objetivo, talvez um sonho. Falávamos sobre idealizar coisas que dessem sentido à nossa existência na Terra, não podíamos só deixar a vida passar, tínhamos que viver. Viver cada dia com intensidade, sempre correndo atrás de um ideal, objetivo ou sonho, como queira chamar. Naquele dia entendi que se não sabemos onde queremos chegar, qualquer lugar serve. Precisava de um sonho! Ficamos a maior parte do tempo na barraca, só nós dois conversando, conversando. Na verdade, nos conhecíamos mais a cada dia, afinal de contas, ainda não tínhamos três meses de namoro. Nosso relacionamento amadurecia muito rapidamente, era quase impossível acreditar que estávamos há tão pouco tempo juntos.

            Na manhã seguinte tivemos coragem de entrar e congelar naquela água. Era difícil acreditar que os europeus conseguiam entrar sem gritar ou fazer caretas, a água era congelante! Eu e o Monclair ficamos mais de quinze minutos com a água pela cintura para ter coragem de entrar o resto do corpo. Ficamos meia hora tremendo, abraçados e dividindo uma única canga depois dessa experiência. E eu que achava a água da Chapada dos Veadeiros gelada.

            Alguns dos voluntários, entre eles, o Duda e o Romero, decidiram subir um morro que tinha atrás da praia, eu e o Monclair preferimos ficar por lá mesmo, namorando um pouquinho. A galera subiu muito o morro sem nenhuma trilha, quando chegaram ao topo, deram de cara com um ponto turístico que servia como um mirante para o mar, ou melhor, lago. Eles ficaram morrendo de raiva de ver que tinha uma trilha que levava pessoas, incluindo crianças e idosos, até lá. Na volta eles pegaram uma carona com um dos turistas. No meio do caminho, avistaram umas ruínas e pediram para descer. Eles encontraram um parque nacional chamado Kursi, deram algumas voltinhas e voltaram para a praia. Para alguns dos voluntários, a maratona de caronas para casa já tinha começado, então decidimos começar a nossa também, foram sete caronas para chegar ao Kibutz, dessa vez foi bem cansativo.

Mais um fim de semana legal!

PRÓXIMO CAPITULO - HAMAT DAVID