INHOTIM - MG

                Era dia 25 de dezembro de 2014 e nós tínhamos acabado de tomar nosso tradicional café da manhã em família, quando vimos que estava na hora de planejar nossa viagem, afinal de contas, sairíamos no dia seguinte. Até o momento, só havíamos decidido três coisas: a primeira é que viajaríamos de carro, a segunda é que passaríamos o réveillon em Itaunas no Espirito Santo e a terceira é que iriamos tentar ir para Abrolhos.

                Pegamos um mapa e começamos a pensar qual seria o melhor caminho para Itaunas. Devido à distância, pensamos em dirigir o primeiro dia inteiro, parar em um lugar legal e seguir para o Espirito Santo no terceiro dia, assim já começaríamos a curtir a viagem do nosso jeito, 100% Monpat style. Foi então que Monclair se lembrou de Inhotim, próximo a Belo Horizonte. Sem pensar muito, decidimos que nossa primeira parada seria lá.

                Começamos a arrumar as malas, não havíamos preparado nada até então. Depois das coisas prontas, o desafio era conseguir colocar tudo dentro de um Peugeot 207 e ainda caber nós quatro. Estamos acostumados a viajar em um Siena que tem 500 litros de porta malas, agora teríamos que caber em 245 litros, incluindo equipamento de camping, de mergulho, caixa térmica, brinquedos infantis e roupa para quinze dias de viagem sem destino certo.  Trocamos sacos de dormir por edredons dobrados embaixo dos assentos das crianças, a caixa térmica e os equipamentos de mergulho ficaram... Assim como nós tivemos que deixar nossos “brinquedos”, Natália e Rafael também tiveram que deixar alguns dos deles. E estávamos prontos pra sair!

                No dia seguinte, acordamos sem despertador, pois já estávamos de férias e pegamos a estrada em direção a Belo Horizonte. No carro já era possível sentir a alegria de todos por estar na viajando novamente. Os meninos são ótimos em viagens, não reclamam e com ajuda do Dramim, ninguém passa mal (rsrs).

                Quando decidimos o destino, pesquisei e vi que teríamos que dormir em Brumadinho MG, que sedia o Instituto Inhotim.  A cidade fica a 51 km de Belo Horizonte e quem já foi de Brasília ao Rio de Janeiro de carro, certamente já viu as placas indicando a entrada de Brumadinho. O município é atravessado tanto pela BR-381 (São Paulo – Belo Horizonte) quanto pela BR – 040 (Brasília – Rio de Janeiro). Para chegar pegamos a rodovia MG-040, chamada Via do Minério, que atravessa Ibirité e Mário Campos.

                Dizem que Brumadinho tem pousadas charmosas e românticas, mas não conhecemos nenhuma delas. Ao chegar próximo à cidade, comecei a ligar e todas as pousadas estavam sem quartos disponíveis para nos receber, pois esquecemos que era sexta-feira, final de semana entre os feriados de natal e ano novo, a cidade estava lotada. Mesmo assim, fomos até lá e realmente não conseguimos acomodação, então, o dono de uma das pousadas nos recomendou algumas opções em Mário Campos, que fica a 14 km de Brumadinho.

                Voltamos e fomos para um dos lugares indicados, o Recanto de Santo Agostinho, uma daquelas surpresas de viagem reservadas para nós. Para chegar, entrávamos em uma pequena estrada de terra e em meio à mata, encontramos o prédio de dois pavimentos. Por dentro, o local tem um formato de triângulo com um pátio no meio e uma capela, típico dos prédios salesianos.

                Ali funcionava o Colégio Santo Agostinho, que foi desativado e hoje o espaço presta serviço de hospedagem e eventos. Eles possuem quase 300 mil metros de área verde, sendo que 260 mil são de área de preservação ambiental de Mata Atlântica, o que ganhou muitos pontos conosco.

                Outra coisa interessante, é que em 1998, o Recanto de Santo Agostinho foi declarado a estância hidromineral onde se encontra "a maior fonte de água mineral do mundo". E está apenas 17 km de Inhotim, nosso destino.

                Os quartos são simples e a diária incluía o jantar e o café da manhã. As refeições também eram simples, mas muito adequada aos valores cobrados, preço justo. E a mata nos cerca de todos os lados, isso não tem preço.

 

                Enquanto fazia o check in, Monclair e as crianças passeavam pelo lugar e encontraram uma piscina entre as árvores, claro que caíram de roupa e tudo! Quem disse que tem hora certa pra se divertir?

                Na manhã seguinte, o combinado era uma hora de piscina antes de ir para Inhotim, pois de lá, seguiríamos viagem. Mais momentos de diversão garantida com o papai. Eu aproveitei para arrumar as coisas e realoca-las no Peugeot, missão quase impossível.

                Chegou a hora de ir para Inhotim! Como descrever Inhotim não importa, pois só entendemos a dimensão desse museu a céu aberto estando lá. Sabe aquela história que a gente só entende o que é amor de mãe depois de ter um filho? Inhotim é assim. Várias pessoas já haviam me falado desse lugar incrível, nossas expectativas eram altíssimas e mesmo assim, saímos completamente deslumbrados.

       

                Chegamos e fomos comprar os ingressos, como estávamos com as crianças optamos por pagar pelo passe de uns carrinhos que levam as pessoas para os lugares mais distantes do museu. Os pontos onde esses carrinhos param estão facilmente identificáveis no mapa. Eu adoro mapas e posso dizer, o mapa de Inhotim é perfeito, as informações são muito claras para um lugar daquele tamanho e com tanta coisa junta e separada.  Quando pagamos pelo carrinho, recebemos uma pulseira que nos diferenciava das pessoas que optaram em não usar esse serviço. Independente de estar ou não com crianças, eu recomendo o carrinho para otimizar o tempo do passeio e visitar mais galerias.

                Fomos direto para a Galeria Praça de onde pegaríamos o tal carrinho pela primeira vez. Ao entrar tinha uma grande obra com cabos e pesos de cimento, mas as crianças estavam muito agitadas e não ficamos muito tempo, na verdade não sei dizer qual obra e artista. Mas do lado de fora da galeria nos deparamos com dois enormes murais de esculturas nas paredes. Um deles mostra uma procissão religiosa e o outro é a rodoviária de Brumadinho. Para fazer os dois murais os artistas escolheram os modelos entre as pessoas de Brumadinho mesmo.

                O carrinho chegou e fomos direto para a Galeria Continente/Nuvem, uma obra totalmente sensorial. Entramos em uma pequena galeria aparentemente vazia, mas quando olhamos para o teto entendemos onde estava a arte proposta pelo autor. O teto era transparente e coberto de pequenas bolinhas de isopor que se movimentavam devido uns ventiladores. Apesar de não ver ninguém deitado, nossa primeira reação foi deitar no chão e observar as formações que as bolinhas faziam. Conforme as pessoas entravam, deitavam também. Parece que lançamos moda rsrsrs.

                Continuamos em direção a Galeria Adriana Varejão. O prédio é uma caixa de cimento encaixada na grama que parece flutuar sobre espelhos d’água no meio da Mata Atlântica. Incrível a leveza daquela caixa de cimento.  Ao entrar nos deparamos com um pedaço de muro quebrado, coberto de azulejos brancos quadrados, como dos apartamentos antigos do Rio de Janeiro. No lugar de tijolo e cimento, as paredes eram recheadas de carne e osso! Não entendo nada de arte, mas aquilo me impressionou. Na galeria outras obras da artista utilizando azulejos, pássaros e algumas vezes se misturando com a arquitetura e a paisagem.

                Inhotim foi idealizado por Bernardo Paz, um empresário que foi casado com Adriana Varejão. Outra curiosidade é a origem do nome, dizem que o local era uma fazenda de uma mineradora e o responsável era um inglês chamado Timothy, conhecido como “Senhor Tim” que popularmente virou “Nhô Tim”.  Legal, né?

                Passamos por uma obra chamada Desert Park com uma meia dúzia de pontos de ônibus de modelos diferentes sobre uma praça de areia branca no meio de um enorme gramado com a mata ao fundo. Inhotim é assim, a cada passo, uma surpresa.

            O Instituto é considerado o maior centro de arte contemporânea a céu aberto do mundo e mistura arte e botânica de uma forma linda e surpreendente. Uma coisa que nos chamou atenção foi a variedade de plantas e uns enormes bancos de madeira por todo lugar. Depois descobrimos que eram alguns dos 98 bancos do designer Hugo França feitos de troncos e raízes encontrados mortos na Mata Atlântica.

                                                

        

            Atravessamos um enorme galpão chamado Cardiff Miller onde encontramos vários amplificadores no chão, pendurados e sobre cadeiras, reproduzindo diversos sons ao mesmo tempo. No meio algumas cadeiras dobráveis de madeira e uns “loucos” sentados ali curtindo aquela barulheira. Desculpe toda a minha “leiguisse”, mas eu achei aquele galpão extremamente irritante, mas no final, havia a recompensa: uma varanda com uma linda vista para a mata.

                Andamos para o próximo “Ponto de Carrinho” e assim que chegamos, um deles parou com uma funcionária do Instituto, uma repórter da Record, um câmera e uma produtora, olharam pra gente com a cara de quem tinha achado o que estavam procurando e um deles perguntou:

                - As crianças andam no mato? Podemos fazer uma filmagem com elas?

                Claro que concordamos, mesmo porque, elas são acostumadas a andar no mato e estavam perfeitamente calçadas para isso. Subimos todos no carrinho que nos levou para um local no meio da Mata Atlântica, lá eles pediram que nós caminhássemos no meio da mata, sem trilhas, com o câmera que filmava tudo. No final, demos uma pequena entrevista, a Natália achou tudo aquilo o máximo e nos deixaram no local onde seria a nossa próxima parada de carrinho conforme a rota que estávamos seguindo. A funcionária de Inhotim que estava no carrinho conosco era uma espécie de relações públicas que estava responsável em acompanhar a equipe da Record. Ela nos agradeceu e deu a dica:

                - Aproveita a piscina com as crianças nesse sol, depois é só pegar toalhas no vestiário.

                Agradecemos e rapidamente entendemos o que ela quis dizer com “Aproveita a piscina”. Naquele calor, ver aquela piscina parecia uma miragem, mas era real. Uma piscina em formato de agenda telefônica se destacava em mais um dos gramados de Inhotim. As crianças entraram de cueca e calcinha, Monclair de bermuda e eu de roupa. Cada um entrava como queria, tinha moças de bermuda e sutiã, outras de calcinha e sutiã e tinha até os que já conheciam, e levavam roupa de banho. No meio da mata ao lado, um vestiário lindo se escondia e guardava toalhas brancas em rolinhos em uma prateleira, ao lado um grande saco de tecido indicava onde colocar as toalhas usadas. Coisa de primeiro mundo!

               Como não havíamos planejando o passeio, nunca sabíamos o que esperar, então toda hora era uma surpresa e essa foi mais uma.

                Próximos à piscina fomos a outras galerias menores e a um gramado com vários vasinhos de barro em formato de letras, que fazem parte da “Origem da obra de arte” de Marilá Dardot. É irresistível a vontade de escrever seu nome ou qualquer palavra com aquelas letrinhas. Passamos um bom tempo ali. No fim do gramado, um ateliê com terra, sementes e utensílios para que possamos semear os vasinhos. “Plantar palavras” foi uma ótima forma de nos secar completamente depois do mergulho na piscina. Em Inhotim eles pensaram em tudo, talvez até isso seja proposital.

                Continuamos em direção ao Beam Drop, uma obra que estávamos curiosos para ver de perto, porque havíamos assistido um documentário de como ela havia sido construída. Enormes vigas de ferro eram lançadas por um guindaste maior ainda, de uma altura de 45 metros dentro de uma piscina de concreto. O resultado ficou lindo, mais de 70 vigas completando a paisagem. Seguindo encontraríamos outra obra do mesmo autor, Chris Burden, mas não fomos.

                Pegamos novamente o carrinho, no trajeto o “motorista” parou e nos mostrou uma das obras que achei mais interessante, Elevazione. Uma arvore gigantesca flutuando! As raízes não tocam o solo, é impressionante. Na verdade, a árvore é de bronze e as raízes estão apoiadas em barras de metal que se escondem atrás de arvores menores propositalmente posicionadas para dar essa sustentação a obra e causar esse efeito psicodélico.

                Chegamos à Cosmococa, uma das galerias recomendadas pela rp de Inhotim durante nosso passeio para a reportagem na Record, “as crianças adoram essa galeria”. Fácil entender o porquê, é a galeria mais interativa de todas que conhecemos. Logo na primeira sala, outra piscina com água muito gelada, e um vestiário com toalhas brancas e limpinhas (é claro). Em outra sala encontrávamos redes, na outra colchões no chão, outra tinha o chão de areia coberto por uma lona causando uma interessante noção de desequilíbrio. O interior da galeria é meio escuro e em todas as salas tem projeções de slides e música do Jimi Hendrix. As crianças realmente adoraram, principalmente a piscina.

                Perto da saída da Galeria Cosmococa, três fusquinhas coloridos estacionados na grama alegravam aquele paraíso. Esses fuscas foram pintados cada um de uma cor diferente e depois trocaram as peças da lataria entre eles, o que deu um efeito bem colorido e interessante. Além disso, o sistema de som deles é interligado e dizem que todos funcionam perfeitamente e que de tempos em tempos, eles mudam de lugar dentro do museu.

                Paramos na Galeria Fonte onde comemos em delicioso cachorro-quente seguido de um picolé de sobremesa, durante o “almoço” podíamos ver “A Bica”, uma obra de Marepe que junta uma bica e um captador de água da chuva do telhado, nessas horas é que eu queria entender mais de arte para saber apreciar uma obra dessa.

                Fomos para a galeria Cildo Meireles e para variar, outra obra interativa surpreendente chamada “Através”, que mostra várias formas de “barreiras” intransponíveis pelo homem, como grades, arames farpados, telas e até aquários. Ao andar no seu interior, pisávamos em milhares de cacos de vidro. Isso durante todo o percurso que fazíamos para sair daquela espécie de labirinto de arte. Ainda bem que as crianças estavam de tênis! Aliás, tênis é o calçado mais apropriado para conhecer Inhotim.

                Ainda na mesma galeria outra exposição de Cildo Meireles, “Desvio para o Vermelho”. Uma sala onde todos os móveis e objetos são vermelhos! De repente, um rastro de tinta vermelha escorrida no chão nos leva a um quarto escuro. Neste quarto tem uma pia inclinada, pouco iluminada, de onde escorre uma água vermelha como se fosse sangue... interessante e muito vermelho. Segundo o Monclair – Instigante.

                Em Inhotim, quando você menos espera, se depara com um espetáculo botânico e algumas vezes a paisagem fica ainda mais linda por causa dos lagos. O reflexo na água deixa o lugar ainda mais especial. Próximo a um dos lagos, passamos por uma agradável praça onde se destaca um enorme tamboril (árvore). Continuamos seguindo, e as margens de outro lago, encontramos alguns patos e uma obra diferente, era um triângulo de vidros espelhados, onde podemos entrar e nosso reflexo mudo de acordo com o espelho.

 

                Seguimos em direção a uma parte do caminho de uma beleza botânica indescritível, plantas que nunca tinha visto na vida, uma mais linda que a outra e chegamos a uma obra, que eu particularmente adorei, mas que ainda está sem título.  Eu a chamaria de “Mergulhando no outro”, pelo menos foi assim que eu a interpretei. Um mergulho de cabeça, sem usar a cabeça, só a emoção no outro, no amor, na relação. Ainda bem que arte tem disso, cada um entende o que quer.

                Paredes enormes e coloridas chamavam atenção às margens do lago. Cores vibrantes contrastavam com o céu azul que nos presenteou nesse passeio. Essa obra tem título, “Intervenção da Cor”, muito apropriado por sinal. Mais uma obra interativa, como quase todas, podemos entrar, tocar e, de certa forma, se sentir parte da arte.

                Uma parada para o descanso, enquanto o Monclair visitava outras duas galerias próximas e seguimos para nossa última parada já com as crianças no “cangote”. A obra se chama “Narcissus Garden”, e fica em cima do prédio do Centro de Educação e Cultura Burle Marx, onde também tem um restaurante. São dezenas bolas prateadas, que ficam na superfície da água e que se mexem conforme a ação dos ventos. Em todas elas, nossa imagem é refletida, talvez seja por isso que se chame Narcissus Garden.

                Estava perto das cinco horas e já estávamos todos cansados, chegava a hora de nos despedir de Inhotim e seguir viagem. Estávamos todos em estado de êxtase com toda aquela overdose de arte.

PARA FAZER MELHOR:

# Planeje: Tem muita coisa para ver, se você já tiver lido sobre as obras, o passeio fica ainda mais rico e proveitoso.

# Reserve dois dias só para Inhotim, acredito que vimos apenas metade das exposições. Existem novas galerias com obras que seguem o site-specific, onde o artista escolhe o lugar e cria a obra para aquele lugar e se integrando com a paisagem e o relevo. Não as conhecemos por falta de tempo.

# Reserve um dia para conhecer as reservas naturais e pequenos povoados nas proximidades de Brumadinho.

LINKS RELACIONADOS

https://www.recantosantoagostinho.com.br/

https://www.inhotim.org.br/

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