ITAUNAS - ES      

 
    Itaunas era um daqueles destinos que eu sabia que um dia iria conhecer, e algumas oportunidades aparecem nas nossas vidas da forma que a gente menos espera...
 

    Em 2001, eu passei alguns meses morando em Caravelas trabalhando como guia de mergulho (Dive Master PADI) no Parque Marinho de Abrolhos, enquanto Monclair fazia o mesmo trabalhando em Fernando de Noronha. Durante esse período me hospedei nas casas de duas amigas queridas: Noah, nos primeiros meses, e Dani até eu retornar para Brasília. Já era minha segunda temporada na cidade, então, conheci pessoas muito especiais, que graças à tecnologia, mantemos contato até hoje. E esse contato nos possibilitou combinar um encontro em Itaunas 13 anos depois.

    A Dani e seu marido tem um camping desativado em Itaunas e sugeriram que todos fossem para lá para o réveillon. Eles arrumariam tudo para nos receber e deixariam o camping privado só para gente. Eu tinha todos os motivos do mundo para ir: Rever Dani e outras amigas, acampar com as crianças (elas adoram!) e finalmente, conhecer Itaunas.

    Depois de um dia em Inhotim MG, dirigimos até São Gonçalo do Rio Abaixo, onde paramos em um posto de gasolina para comer e vimos que tinha um hotelzinho ao lado do restaurante e decidimos que já era hora de descansar. No dia seguinte, continuamos a viagem para Itaunas à luz do dia. O estado de Minas é lindíssimo, adoro ver aqueles casarões coloniais característicos dos bons tempos de mineração e café. E é incrível observar como a paisagem vai mudando conforme nos aproximamos do Espirito Santo. Enormes pedras surgem do nada e vão incrementando o visual. Essas pedras são tão enormes que podemos avista-las por bons trechos da estrada e quando chegamos perto, nos sentimos minúsculos. Elas lembram muito o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro.

   

     Chegamos a São Matheus na BR 101, de lá seguimos para rodovia estadual ES – 421 em direção a Conceição da Barra até o trevo de Itaunas. A partir do trevo, pegamos uma estrada de terra que cruzava enormes plantações de eucalipto por 21 km. A condição da estrada de terra estava muito boa e fizemos esse último trecho em menos de 30 minutos. Finalmente, chegamos à vila no fim da tarde.

      Estava contando com o sinal de celular e acreditava que a vila fosse bem menor, então, não me preocupei em pegar o endereço do camping, mas lembrava do nome por causa de umas fotos que eu tinha visto no facebook. Então, decidimos parar enfrente a um restaurante e perguntar. Por coincidência (ou não), o Monclair falou exatamente com a pessoa que tinha arrendado o camping por um tempo e melhor que isso, era só virar à esquerda e estaríamos lá.

       Dani nos recebeu com muito carinho e eu adorei revê-la e conhecer sua família, Jayme e Sophia. Não nos víamos desde 2001! Armamos a barraca e passamos a noite colocando a conversa em dia ao som de forró, o que não é opcional em Itaunas. Não importa onde você esteja à noite, você vai ouvir forró. E o camping é muito bem localizado e perto dos melhores forrós da cidade.

       No dia seguinte, tomamos aquele típico café da manhã na padaria (pão com queijo e suco de laranja natural) e demos uma volta na vila. Itaunas lembra muito Itacaré, Trancoso e Caraíva (todas na Bahia), acredito que por causa das pessoas que vão para lá, das lojinhas e pousadas, do ambiente jovem e despachado. Lugar para andar só de chinelo.  Na verdade, Itaunas é quase Bahia, é a última cidade ao norte do Espirito Santo.

       Encontrei uma descrição perfeita no site da Pousada Dunas, conhecida por ser a primeira pousada da vila: “O cenário da vila é diferente de tudo que se costuma ver na cidade: estrada de chão, nada de meio-fios, os pedestres, que andam à pé e de roupa de banho, têm sempre a preferência. Nada de carros, nada de axé, nada de funk, nada de rock. Só forró, e forró. Cabelos despenteados, e perfumes do mato. Pulseiras de grãos e brincos de penas. Todas as cores, nenhum cinza. Poeira e grama. Fogueira e capoeira. Sombra de arvores, barraca de palha e areia quente. Não existe um lugar melhor para descansar. Dizem que o tempo, na vila, não existe.”

  

      A vila tem uma praça gramada e uma linda igrejinha, mas o que mais me chamou atenção foi um tronco gigantesco caído no meio dessa praça. Quando falo gigantesco, não estou exagerando, deve ter aproximadamente 15 metros de comprimento e 2 metros de largura. As crianças subiram como se fosse brinquedo de parquinho. Além de grande, ele é oco e elas podiam atravessar de um lado para o outro.

      Há muitos anos, Itaunas possuía uma pequena faixa de mata que separava a vila do mar. Essa vegetação evitava que os ventos levassem a areia até lá. Entre as décadas de 1950 a 1970 a mata foi derrubada e a areia avançou soterrando a antiga Itaunas por completo. Enquanto a vila estava sendo coberta pela ação da natureza, seus morados iam se mudando para o outro lado do Rio Itaunas e formando a vila que estávamos conhecendo.

      Da Itaunas Velha restam apenas algumas ruínas, como o topo da antiga Igreja. Dizem que ainda é possível encontrar objetos, louça e restos de construção de tempos e tempos conforme a dança da areia e do vento.

      Com a formação das dunas, Itaunas começou a atrair alguns aventureiros que começaram a visita-la,  mas ainda era muito pobre o pouco conhecida. Imagino que era como São Jorge na Chapada dos Veadeiros quando começamos a frequentar no inicio dos anos 90. A primeira pousada surgiu em Itaunas em 1984, a Pousada Dunas e aos poucos o turismo foi acontecendo. A partir de 2004, ficou proibida a construção de novas pousadas e hotéis, assim a vila se conserva mais rústica e encantadora.

       Continuamos nosso passeio e passamos pelo Rio Itaunas que nos convidou para um refrescante banho. A água é negra como Coca-Cola quando vista de fora, mas o caramelo é só na cor, seu “frescor é cristalino”. O fundo é de areia e a profundidade vai aumentando aos poucos, perfeito para crianças. Além disso, a água é uma delícia, nem quente, nem fria.

  

     A vila fica dentro do Parque Estadual de Itaunas, que foi criado em 1991 e vai de Conceição da Barra a fronteira com a Bahia e em 1992 foi declarado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Com certeza, a criação do Parque garantiu a proteção do manguezal, do rio, das praias e da Mata Atlântica do local. Que bom!

     Depois do banho de rio, fomos ao Centro de Visitantes do Parque, que encontramos um pouco abandonado. Ninguém para dar informações, mas as crianças se divertiram, principalmente o Rafael que encontrou um jacaré taxidermizado, ou “empalhado”, mas se minha irmã bióloga, que trabalhou com taxidermia por alguns anos no Zoológico de Brasília, me ouvir falando “empalhado”, me dá uma bronca! O Rafa tem paixão por jacarés e crocodilos,  não sei de onde ele tirou isso.  No Centro de Visitantes, descobrimos que o Projeto Tamar também está presente no parque cuidando da reprodução das tartarugas marinhas.

  

    Nós estávamos em ritmo de descanso, dois dias de viagem de carro e uma maratona em Inhotim tinham minado parte de nossas forças. Mas depois de mais de 1500 km de estrada e como bons calangos do cerrado que somos, fizemos questão de ir à praia! Esperamos o sol baixar um pouco e fomos de carro até a subida das dunas. As dunas de Itaunas ficam entre a vila e a praia, não tem como chegar sem atravessa-las. E com certeza dão um ar especial para o lugar. Do alto das dunas é possível ver a praia e as crianças se divertiam correndo naquela areia branca e fina que se movia conforme o vento. Era estranho imaginar que por baixo daquela areia está a antiga vila de Itaunas.

     O mar não estava muito bom para o banho, pois estava ventando muito, mas o passeio valeu a pena.  Dani e Jayme (seu marido) conheciam muito bem Itaunas e sugeriram que a gente sentasse em uma das barracas de praia para aguardar o fim do dia. Na praia, existem barracas, com certa infraestrutura, oferecem banheiros, ducha, bebidas e comida. Sentamos em uma delas, a Barraca do Itamar. Atenção, elas fecham cedo, mesmo antes do por do sol, já estavam fechadas.

   

     Sem precisar sair da “barraca” já dava para ver o sol se pondo, um verdadeiro espetáculo da natureza. Aos poucos as dunas vão sendo ocupadas, em sua maioria, por jovens para assistir ao por do sol que se despede do dia colorindo de dourado aquela areia fina. Lindíssimo! Realmente valia a pena esperar, o sol deu seu show!!

     Acordamos cedo no dia seguinte. Acredito que um dos motivos que levam as crianças a adorar acampar é o fato de dormir e acordar todo mundo junto. Confesso que adoro isso também.

     Dessa vez, Dani nos levou para a praia pela Trilha do Tamandaré, mas com um pulo no rio que fica no caminho. Isso é uma coisa mágica de Itaunas, para ir para a praia atravessamos uma ponte sobre o Rio Itaunas, então, podemos nos refrescar na ida e tirar o sal na volta, perfeito! 

                 

      Depois de um breve mergulho no rio, atravessamos a ponte e entramos a direta para pegar a Trilha do Tamandaré, que tem aproximadamente 2 km.  A diversidade do caminho me chamou atenção. Passamos por algumas pontes, cada uma parecia passar sobre uma vegetação diferente. De repente, um mar de dunas surgiu na nossa frente com o mar azul ao fundo.

    

      Tamandaré foi um pescador que se recusou a sair de sua casa quando as dunas cobriram a antiga vila. Hoje é a única casa que sobrou e foi revitalizada para visita dos turistas. A casa virou um ponto de parada da trilha. O sol estava quente e optamos em ir direto para a praia e voltar outro dia, o que, infelizmente, não aconteceu.

      Jayme foi de carro e nos encontrou na praia. Mais uma vez o mar estava agitado e a maré estava alta, então fomos novamente para a Barraca do Itamar. Comemos, bebemos e como em um passe de mágica, a maré baixou e deliciosas piscinas surgiram na areia. Jayme, Dani e Sophia decidiram voltar para a vila, mas nós não podíamos perder a oportunidade de aproveitar aquele mar, que estava perfeito para as crianças.

    

   Tinha lugares que apenas uma fina camada de água refletia a luz do sol sobre as ondulações da areia submersa exibindo mais uma obra de arte da natureza. Aproveitamos ao máximo, assistimos a mais um por do sol das dunas e voltamos andando pela estrada.

      Encontramos a vila movimentada naquele fim de dia, cada dia que passava Itaunas recebia mais pessoas para a virada do ano, que já seria no dia seguinte. Antes de ir para o camping, paramos para tomar um merecido açaí com as crianças depois da caminhada.

       Ao chegar, mais uma barraca! Ligia, mais uma amiga da época de Caravelas, havia chegado!!! Muito bom rever pessoas queridas!!!

       No dia 31, Itaunas estava lotada! Foi interessante observar a vila enchendo.

       Como subiríamos as dunas com as crianças a noite para a virada do ano, optamos por passar o dia no rio, que também estava mais cheio. Foi uma excelente ideia, economizamos energia e passamos um agradável dia dentro d’água, com direito a SUP e tudo. Na rua de frente ao rio, tem uma loja que aluga SUP (Stand Up Pedal) e caiaques por valores justos, principalmente por ser alta temporada.

   

     À noite, comemos camarão no Restaurante do Itamar na vila e nos organizamos para subir as dunas para a virada do ano. A cidade inteira andava para a mesma direção, como se fosse uma grande procissão. A maioria levava uma garrafa de espumante para brindar o ano que estava pra nascer.

     Chegamos ao pé da duna pouco mais de 5 minutos para a meia noite, a areia fofa e fina sendo dividida com tanta gente ao mesmo tempo, dificultava a subida, mas deu certo, chegamos lá em cima 1 minuto antes dos fogos!!! Ufa!!!

     Virada do ano é sempre uma energia diferente, sempre cheia de esperanças, euforia, pessoas queridas! Enquanto os fogos estouravam no céu, todos se abraçavam e desejavam “Feliz 2015!”. Moncla e eu nos ajoelhamos, e como se tivesse sido ensaiado, nós quatro nos abraçamos, um abraço intenso, cheio de carinho, gratidão, amor, plenitude... Como se ali, estivesse tudo que a gente precisasse pra viver. Como se as crianças entendessem a importância de estarmos juntos nos apertavam de volta naquele abraço com gosto de eterno. Quando fecho os olhos, posso sentir o prazer que senti com aquele abraço a quatro, ajoelhada na areia.

     Levantei meio zonza e completamente emocionada e nos juntamos ao grupo que ainda trocava abraços.

     Amigos do Jayme, que havia chegando pela manhã, trouxeram violão, então passamos um tempo sentados na areia, cantando, conversando e bebendo espumante. As crianças aos poucos foram se acomodando, Natália e Sophia se ajeitaram em uma canga e o Rafa deitou a cabeça no meu colo e dormiu. Não demoramos muito e voltamos para a vila.

      2015 começou! Que seja bem vindo!!!

      Dani e Jayme disseram que a melhor pedida para o dia era ir para o Riacho Doce. A praia de Itaúnas tem 25 km, começa na foz natural do Rio Itaúnas e termina no Riacho Doce, um córrego que separa as regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, e era para lá que estávamos indo.

      A praia do Riacho Doce fica a aproximadamente 10 km da vila de Itaúnas, então fomos todos de carro. Normalmente, se faz um trekking por trilhas monitoradas por funcionários do Parque para chegar ao encontro do córrego com o mar, mas Jayme e Dani conhecem muita gente na vila e nós tínhamos autorização para estacionar dentro da fazenda e andamos menos de 50 metros para chegar.

     O lugar é realmente lindo. Fácil entender porque foi eleita, em 2008, como a segunda praia deserta mais bonita do Brasil. Um riacho, de cor escura, muito parecida com a do Rio Itaunas, escolheu ali para desaguar no mar, transformando aquela divisa em um lugar paradisíaco.

   

     Era legal pensar que de um lado do riacho é Bahia, do outro Espirito Santo. No lado do Espirito Santo, não contávamos com nenhuma estrutura, já no lado da Bahia, tinha algumas barracas de praia, então para comprar alguma coisa, tínhamos que mudar de estado (rsrsr). Logo atrás do riacho tinha uma duna e o mar, passamos o dia lá, alternando entre a água salgada e a doce.

     Estava chegando a hora de partir. Queríamos muito conseguir levar as crianças para Abrolhos e estávamos praticamente sem comunicação na vila, então decidimos que seguiríamos para Caravelas na manhã seguinte para tentar passar o aniversário do Monclair (3 de janeiro) no arquipélago.

      No dia seguinte, Dani, Jayme e Sophia estavam indo para Costa Dourada, uma praia 30 Km distante da vila que dizem que ser outro paraíso, com falésias de mais de 10 metros de altura. Quase mudamos os planos para conhecer mais essa praia, mas seguimos para Caravelas.

      Natália e Sophia se tornaram melhores amigas durante aqueles dias e sentiram um pouquinho na hora de se despedir, mas mostramos que eu e Dani ainda somos amigas mesmo morando em lugares diferentes, então elas poderiam continuar sendo amigas também. Nós nos despedimos com vontade de encontrar mais e promessas de novas viagens juntos.

 

PARA FAZER MELHOR:

- Visitar a Casa do Tamandaré

- Ir fora de temporada para desfrutar da paz da vila.

- Ir à Costa Dourada

- Ir à pelo menos um forró

IMPORTANTE:

- Não tem caixa eletrônico, bancos ou postos de gasolina na vila, então abasteça em São Matheus ou Conceição da Barra.

-  Celular só pegava VIVO em alguns lugares.

INFORMAÇÕES UTEIS:

 - O Parque é aberto à visitação pública, com entrada gratuita. Mais informações pelo telefone (27) 3762-5196.

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