LIVRE PARTIDA

Plácido e Mariana são de São Paulo, ele tem 26 anos e ela 33,  estão viajando pelo mundo desde novembro de 2015. Começaram pelo continente americano, pelo qual viajaram de carro durante onze meses e agora estão mochilando pela Ásia.

Porque vocês decidiram largar tudo para viajar o mundo?

Começamos pensando em viajar por um ano pela América latina, um ano sabático para sair um pouco da loucura de São Paulo e conhecer as belezas do nosso continente. Desde o início, pensamos em viajar de carro e, enquanto buscávamos referências de outras pessoas que tivessem viajado, acabamos nos empolgando com as histórias que conhecemos e decidimos estender um pouco mais a viagem e conhecer mais lugares.

Como foi largar tudo?

Começamos a planejar com bastante antecedência - 2 anos e meio - então o processo foi gradual e isso acabou gerando uma sensação mais de transição do que de largar tudo. Foi um tempo suficiente para irmos incorporando em nossas vidas a nova realidade e deixar aos poucos a rotina interior. Claro que, na última hora, o coração aperta e rola uma ansiedade, mas foi mais fácil do que imaginávamos.

Quanto tempo e como foi a etapa de planejamento?

Desde quando decidimos até o dia em que botamos o pé na estrada se passaram dois anos e meio. Como foi um tempo razoavelmente longo, deu para pensar em muitas coisas e fazer com mais calma algumas outras, apesar da maior parte ter ficado mais para a última hora mesmo rsrsrs

Aprendemos muuuuito durante o planejamento, sobre muitos assuntos diferentes. Foi uma etapa bem divertida, importante e, em alguns momentos, preocupante também.

Vocês juntaram dinheiro para essa viagem? Como foi isso?

Sim! Desde o início o prazo que pusemos foi baseado em nossos cálculos de quanto tempo precisaríamos para juntar o dinheiro que precisaríamos para a viagem. Aumentamos bastante a carga de trabalho e multiplicamos nossas arrecadações. Diminuindo ao máximo os custos de vida, todo mês cada um de nós tinha uma meta de quanto colocaríamos no FDK (o nosso fundo de viagem). Íamos aumentando gradativamente essa meta, até chegarmos ao valor que queríamos.

Conseguimos juntar grande parte do que tínhamos proposto inicialmente, no entanto, nos últimos meses, antes de partirmos a economia deu aquela balançada e atingiu o ápice da desvalorização do real frente ao dólar, o que quebrou o nosso orçamento em aproximadamente dois terços em relação ao planejado. Isso e os investimentos pré-viagem nos deixaram com uma reserva suficiente para viajar por cerca de um ano. Apesar do medo, decidimos não adiar a partida e sair mesmo assim e repensaríamos quando fosse necessário.

Paramos por alguns meses nos Estados Unidos e conseguimos trabalhar e juntar mais um dinheiro e acabamos também decidindo vender o nosso carro, que significaria um grande custo para ser enviado aos demais continentes, e isso nos deu um fôlego para continuar viajando.

Não temos nenhuma fonte de renda no Brasil. Fizemos algumas tentativas de vender coisas no caminho, que renderam pouco (mas também não nos empenhamos muito) e temos tentado algumas opções online, mas por enquanto, nenhuma delas nos rende dinheiro suficiente para ajudar na viagem, acaba sendo mais um investimento futuro.

Precisa ser rico pra viajar o mundo?

De forma alguma! Nós não somos ricos e conhecemos muitos viajantes que estavam vivendo na estrada com praticamente nenhum dinheiro. Muitos sustentando sua viagem com trabalhos no caminho, desde venda de artesanatos até troca de trabalho por hospedagem e comida. O que precisa, na verdade, é força de vontade.

Qual foi a reação da família e dos amigos aqui no Brasil quando anunciaram o projeto?

No começo, acho que não botaram muita fé. Achavam legal, mas no fundo, não acreditavam muito que era sério. O tempo foi passando, começaram a ver que estávamos mesmo dispostos e começaram a apoiar mais. Tivemos muito apoio dos amigos e de nossa família e somos eternamente gratos a eles.

A foto acima foi a última tirada em São Paulo.

Vocês saíram com algum roteiro pré-definido?

Um esboço inicial dos lugares por onde passaríamos no continente americano. Não queríamos nos prender muito a um roteiro, mas achamos bom ter uma ideia para marcar os principais pontos de interesse. Isso foi importante para nos organizarmos no tempo também. Depois que terminamos essa primeira etapa, sentamos para pensar qual seria o próximo passo e esboçamos o roteiro pela Ásia. O próximo passo, ainda estamos por definir...

Vocês saíram do Brasil no “Monstro” (Land Rover) e venderam nos EUA, conta pra gente essa história.

Sim! Quando estávamos planejando, conhecemos muitos casais fazendo viagens desse tipo usando o LR Defender. O Plá acabou se apaixonando pelo carro e decidimos que este seria o nosso carro/casa. Investimos bastante na compra do carro e adaptação dele, principalmente na parte mecânica, que nesse modelo é cara. Foi uma ótima escolha, pois o Monstro se mostrou competente em nos levar em todos os cantos que queríamos e nos deu poucos problemas no caminho. No entanto, chegamos nos Estados Unidos quase zerados de grana e o que conseguimos juntar por lá trabalhando não seria suficiente para pagar os gastos com a revisão mecânica que ele estava precisando (e merecendo) e para enviá-lo aos outros continentes. Para levá-lo, teríamos que investir nos reparos, no transporte marítimo e em documentação, que pode ser um enorme gasto quando se necessita do Carnet de Passage (espécie de passaporte do carro que funciona como um seguro e é exigido em muitos lugares).

Colocamos tudo isso na ponta do lápis e nos demos conta que nosso cacife não era suficiente, então nos restava deixá-lo nos USA e depois voltar para buscá-lo ou vender. Recebemos uma oferta muito boa, que cobria todo o nosso investimento inicial com a viagem e garantiria muitos meses ainda de viagem, então abrimos mão do carro em prol de manter o sonho de viajar.

Quanto tempo vocês pretendem ficar fora?

Não sabemos, tudo vai depender da grana rsrsrs Mas essa parada nos Estados Unidos nos deu um fôlego para continuar viajando por mais um tempinho.

Qual foi o lugar que vocês mais gostaram até agora?

Essa pergunta é impossível de responder! Foram muitos os lugares que nos encantaram. Às vezes, chegamos em um lugar simples e desconhecido que acabou sendo incrível e às vezes, fomos a pontos turísticos famosos que nos decepcionaram... Tentamos fazer um Top Ten em um de nossos vídeos, mas sempre achamos difícil escolher esse tipo de coisa.  (Link do vídeo https://youtu.be/XB61gWIlUxs)

Qual lugar que vocês já decidiram que não podem deixar de ir nessa viagem? Por quê?

Huuuum, acho que não temos. Cada um tem alguns lugares que gostaria de ir, mas preferimos não gerar expectativas pois já vimos que a viagem guarda muitas surpresas. 

Qual foi o maior perrengue da viagem até agora?

Não tivemos grandes perrengues, para falar a verdade! Acho que nesse quesito, somos bem sortudos. Mas, se tiver que escolher algo, acho que foi um período em que nosso carro teve vários problemas na sequência. Tudo começou no Peru, quando rodamos mais de mil km com o disco da embreagem esquentando e chegamos a Lima de guincho. Ali, ele ficou cerca de vinte dias para ser consertado e, quando finalmente ficou pronto, quebrou novamente depois de trezentos km. Voltamos a Lima, mais duas semanas de oficina e, cerca de dez dias depois, problema de novo, mas dessa vez o carro enguiçou no meio da zona mais perigosa de Cali, a cidade mais violenta da Colômbia. Foi assustador. Tudo por culpa do mecânico de Lima que fez um trabalho "nas coxas" rsrsrs. Depois disso, ainda tivemos problemas mais duas vezes pelo mesmo motivo.

Qual foi o maior susto?

Foram alguns... o primeiro foi logo nos primeiros dias de viagem, ainda no Brasil. Estávamos acampados em um campo aberto na beira da estrada, já para baixo de Pelotas. Fizemos comida, abrimos nossa barraca e o dia estava bonito, apenas com nuvens ao longe. No meio da noite, essas nuvens chegaram onde estávamos e se transformaram em uma terrível tempestade, com muito vento e raios. Para quem já dormiu em uma barraca de teto, sabe o quanto ela chacoalha e acordamos assustadíssimos. Nos demos conta que estávamos em um descampado e pensamos que seríamos um para-raios perfeito ali, no meio da tempestade. Desesperados, eu (Mari) já estava chorando de medo, saímos em meio à chuva e desarmamos a barraca e dirigimos até um posto de gasolina para nos abrigar, molhados até os ossos. Depois descobrimos que essa tempestade deixou muitas casas destelhadas na região...

O mais engraçado foi na Argentina, em um posto de gasolina. Estávamos acampados no fundo do posto, perto de um pequeno jardim. Estávamos assistindo a um filme tenso e sanguinário do Tarantino e, no final, o Plácido queria ir ao banheiro. Como estávamos lá no fundo e o banheiro era longe e fazia muito frio, ele decidiu se aliviar ali mesmo, da porta da barraca em direção ao matinho. De repente, enquanto ele fazia xixi, uma cabeça levanta no meio dos arbustos, na escuridão! Ele tomou um baita susto! Era um cara dormindo ali, no meio do mato, aparentemente estar bêbado. Acho que o cara também tomou um susto com a "chuva dourada" repentina no meio da noite.

E a maior surpresa?

O Plácido ter conhecido seu irmão no meio do caminho. Eles nunca haviam se encontrado devido a grande diferença de idade entre eles e ao fato do Bobby viver na Venezuela. Eles estavam planejando se encontrar em algum ponto da viagem, mas ainda não estava definido onde, até que, em meio aos tantos problemas no carro que tivemos no Peru, eles acabaram se encontrando em Lima, onde ficamos hospedados em sua outra casa. Foi bem emocionante para eles esse encontro e perceber que, mesmo sem nunca terem convivido, os dois têm muitas coisas em comum.

Vocês têm algum seguro saúde internacional? Qual?

Temos sim. Começamos com o World Nomads enquanto estávamos no continente americano e agora estamos com a Toquio Marine.

Adorei os vídeos “Gastronomia de Camping”, como surgiu a ideia?

Eu (Mari) adoro cozinhar. Os momentos de refeição para nós eram sempre de fartura e diversidade e 99% das refeições durante a temporada nas Américas fizemos em nossa cozinha. Desde o início, quando fazia algo gostoso, apelidava de "gastronomia de camping". Até que um dia, o Plá sugeriu que eu ensinasse a fazer algumas comidinhas para o pessoal que curte acampar, para mostrar que não precisam ficar só nos enlatados ou no clássico macarrão. Fizemos o primeiro no Peru e o pessoal gostou, então continuamos. Agora que não temos mais a nossa casinha e estamos explorando mais a culinária local. Eu morro de saudade de cozinhar!

O que pensam em fazer quando voltarem para o Brasil?

Essa pergunta é difícil! Não fizemos planos para o futuro... estamos deixando a vida fluir e depois pensaremos nisso.

Eu e o Moncla demos nossa primeira grande mochilada (mais de 1 ano) logo no inicio do nosso namoro em 1998. Como está sendo viajar em casal? Vocês se sentem uma família?

Pois é, essa é uma questão interessante, pois nós nunca tínhamos morado juntos. Estamos juntos há quatro anos e meio, mas vivíamos em casas separadas em São Paulo, então passamos do 8 para o 80, passando a conviver 24 horas por dia, 7 dias por semana. No início, foi um desafio e discutíamos bastante. Aos poucos fomos nos adaptando e conhecendo melhor o jeito e as necessidades um do outro. Discussões sempre acontecem, acho que é natural, mas sentimos que as dificuldades do dia a dia nos unem mais e sabemos que estamos sempre ali um para apoiar o outro. É uma situação que fortalece a relação, gerando muita intimidade (às vezes mais do que o necessário rsrsrs) e parceria.

Com certeza, posso falar isso de carteirinha rsrs.  Vocês fariam uma viagem de volta ao mundo com filhos?

Nós nunca pensamos em ter filhos, então é um pouco difícil nos imaginar nessa situação. Mas observando outros viajantes com filhos, acreditamos que é possível sim e deve ser uma experiência bem interessante para todas as partes. Teríamos adorado fazer uma viagem assim quando éramos crianças!

Vocês acabaram de sair da Tailândia, estivemos lá em 1999, muita coisa deve ter mudado. O que acharam do país?

A Tailândia é um paraíso natural que foi invadido pelo turismo sem criar uma estrutura para isso. Recebe milhões de pessoas todos os anos, mas não consegue absorver bem essa demanda e a natureza acaba sofrendo. Vimos praias lindíssimas tomadas por milhares de pessoas, muita sujeira e pouco saneamento básico. A comida também decepcionou um pouco, mas, no geral, curtimos a experiência e os lugares exóticos que conhecemos. Os tailandeses são receptivos com os turistas.

Quais foram os maiores aprendizados dessa experiência até agora?

Tantos! Uma viagem como essa é um divisor de águas na vida de qualquer pessoa. Todos os dias aprendemos algo, desde o momento em que começamos a planejar. São transformações internas que se refletem na forma como pensamos e vemos o mundo. 

Quais paradigmas foram quebrados nas suas vidas depois de tudo o que você estão vivendo?

O principal é o de que tudo é possível. Desde a realização desse sonho, que antes nos parecia algo muito distante, até observar que as pessoas podem viver das mais diversas maneiras. Muitas vezes ficamos presos naquilo que conhecemos como "normal" e esquecemos que existem milhares de outras possibilidades no mundo lá fora. Observar isso nos dá mais tranquilidade para encarar as adversidades, fica mais claro que para tudo dá-se um jeito e somos adaptáveis a diferentes realidades.

Qual a dica que vocês dariam para quem está sonhando com uma viagem como essa?

A principal dica é colocar a mão na massa e fazer o sonho acontecer. Alinhar todos os aspectos da sua vida para que estejam de acordo com o que você quer e ir em frente até que o sonho se torne realidade. Se nunca começar, nunca sairá do plano das ideias. Nunca vai haver o momento perfeito e nem as condições ideais, então se jogue!

Ah! E não precisa levar muita coisa não... menos é mais por aqui :)

 

Tenho muito carinho por esse casal, nos conhecemos pela internet quando eles ainda estavam preparando o carro para iniciar o projeto LIVRE PARTIDA. Para testar a Land Rover Defender que eles carinhosamente apelidaram de “Monstro”, decidiram fazer uma viagem mais longa aqui dentro do Brasil e foram para a Chapada dos Veadeiros. Nessa oportunidade, se hospedaram com o Monstro aqui no nosso quintal e nos conhecemos pessoalmente. As crianças ficaram encantadas com a barraca sobre o carro e nós encantados com eles.

 

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