VELEJAR O MUNDO?

DE ONDE VEIO A VONTADE DE VELEJAR O MUNDO?

Algumas pessoas estão me enviando mensagens perguntando: De onde veio essa idéia de velejar o mundo? Vocês sabem velejar? Vocês já velejam? Vocês têm um veleiro? Mas vocês moram em Brasília, por que querem velejar?

Tem muitos capítulos da nossa história a ser escrito no NOSSA HISTÓRIA até chegar nesse momento, então para responder a essas perguntas, decidi escrever um resumo de quando e como decidimos isso.

No verão do ano 2000, eu, Monclair, Duda e Romero estávamos novamente juntos, dessa vez no Brasil, mais precisamente em Caravelas, sul da Bahia. Nessa época não éramos quatro, éramos seis! Romero estava com a Kat, uma americana que é sua atual esposa. E o Duda estava com a Claire, uma inglesa com quem namorava. Alugamos uma casa de quatro quartos em Barra de Caravelas, na areia da praia, entre as casas dos pescadores locais e lá passamos três maravilhosos meses.

Eu, Monclair e Duda éramos dive master PADI e estávamos lá trabalhando com mergulho em Abrolhos. Em uma das viagens do Monclair para o arquipélago, ele conheceu o Hélinho – Hélio Magalhães, paraibano, autor de alguns guias náuticos sobre a costa brasileira – na época em seu veleiro MANTRA, um veleiro sueco de 31 pés, super charmoso. Monclair voltou encantado com suas histórias de viagens abordo do veleiro e dizendo que ele viria a Caravelas dentro de alguns dias e que tinham combinado de se encontrar.

Nossa amizade com ele foi instantânea, nos encontrávamos com freqüência, ora na nossa casa, ora no MANTRA.  Hélinho com certeza é uma dessas pessoas especiais que Deus colocou em nossas vidas. Em uma de nossas visitas ao MANTRA, ele nos disse que nós tínhamos cara de quem iria velejar o mundo, uma idéia que já nos encantava, depois de algumas oportunidades de trabalhar em embarcações em Israel, Tailândia e Abrolhos.

Umas duas semanas depois, Helinho estava indo pra Nova Viçosa, também no sul da Bahia e gostaria de ir pelo Rio Caravelas e nos convidou para ir com ele. Vibramos com a idéia!!! Velejar em um braço de rio, que maravilha!!! Combinamos com o Maurício, uma amigo que tinha um Catamarã Veleiro chamado SANUK e também gostaria de fazer a viagem e fomos todos juntos. Eu e Monclair fomos a bordo do MANTRA e os meninos e suas respectivas foram com o Maurício no SANUK.

Noah, Helinho, eu e Monclair a bordo do MANTRA em Nova Viçosa BA

A viagem durou dois dias e paramos para dormir no meio do rio. Os barcos ficaram próximos durante todo o percurso. Cruzávamos todos os tipos de embarcações usadas para pescar pela população local, várias casinhas de estrutura precária nas margens daquele rio de água barrenta e quase salgada. Passamos também por alguns botos que pareciam dançar próximo aos barcos logo em nossa despedida de Caravelas, em meio aquela vegetação exuberante de mangue.

No segundo dia desembarcamos em Nova Viçosa, jantamos, caminhamos pela cidade e nos preparamos para retornar na manhã seguinte todos a bordo do SANUK . O SANUK é um catamarã de 41 pés que funciona a vela e a motor, tem quatro cabines e foi todo projetado pelo Maurício. Foi a bordo do SANUK  que fui pela primeira vez para Abrolhos, era um grupo bem legal e eu fui como convidada em uma viagem que o Monclair estava como guia de mergulho. Lembro bem que o Maurício estava empolgadíssimo, subiu as velas e fomos durante boa parte do trajeto depois da barra velejando. Só a força do vento nos impulsionava naquele barco enorme. Foi nessa viagem que comi sushi pela primeira vez, pescado na hora, antes de o barco entrar na área do Parque Nacional. Para completar a lista de primeiras vezes, foi a primeira vez que mergulhei em Abrolhos.

Nós nos despedimos de Nova Viçosa e do Helinho e voltamos para Caravelas. Nessa despedida, ele disse que compraria uma garrafa de vinho para tomar no nosso barco na próxima vez que nos encontrássemos no mar. Palavras que nunca esquecemos e passaram a ser um objetivo.

No próximo verão, em 2001, eu e o Monclair decidimos que viajaríamos separados, pois depois de uma longa conversa, chegamos a conclusão que nos amávamos muito, mas que havíamos nos conhecido e “casado” cedo demais, que precisávamos de novas experiências de vida e durante esse período teríamos a liberdade de fazermos o que quiséssemos. Eu fui para a casa da Noah em Caravelas para mais uma temporada de mergulho em Abrolhos e ele terminaria seu curso de instrutor de mergulho PADI em Guarapari no Espírito Santo e tentaria trabalhar com mergulho em Fernando de Noronha.

Essa tentativa de separação foi um desastre. Em uma época que celular não pegava em lugar nenhum, nos encontramos algumas vezes por acaso em lugares 100% inesperados e não programados.  Um desses lugares foi na rodoviária de Ilhéus, onde estava indo para Itacaré sozinha, pois a embarcação pra Abrolhos que eu iria trabalhar tinha sido cancelada,  no mesmo dia que tinha um carro da operadora de mergulho indo para Ilhéus pegar turistas e sabia que o Hélinho estaria lá. Você acredita que o Monclair teve a mesma idéia e decidiu sair de Trancoso onde estava com uns amigos para passar alguns dias em Itacaré? Pois é, inacreditavelmente, sua mochila passou do lado de onde eu estava sentada no ônibus, a reconheci, abri a janela e gritei:

_ Monclair, o que você está fazendo aqui?

Ele, surpreso, olhou pra trás e disse:

_ Tô tentando chegar em Itacaré!

_ Esse é o último ônibus, corre lá que eu falo com o motorista. _ Disse isso já levantando da minha cadeira.

Parecia cena de cinema, o ônibus começou a dar ré e eu corri para pedir para o motorista esperar o Monclair para ele não ter que dormir na rodoviária de Ilhéus. Como na Bahia todo mundo é bem tranqüilo e eu pedi com jeitinho, o motorista não fugiu a regra e esperou por ele.  Quando ele entrou, nós nos beijamos rapidamente e quase fomos aplaudidos rsrsr.

Não acreditávamos que estávamos nos encontrando novamente naquele verão. Chegamos em Itacaré, que já conhecíamos bem e alugamos um quarto. No outro dia, encontramos o Mantra atracado na bahia, mas só conseguimos falar com o Helinho uns dois dias depois.  Na mesma hora ele pediu que desocupássemos o quartinho e fossemos ficar com ele no MANTRA. Aceitamos na hora e nos “mudamos”. Ele gentilmente nos cedeu a cama de casal da cabine e lá estávamos novamente juntos, cozinhando a bordo e passando momentos incríveis com ele. Ele nos apresentava aos velejadores que também estavam atracados lá, uns a passeio, outros que já viviam a bordo também. Conversávamos via rádio com a Dona América, que dedicava a vida a ajudar a comunicação entre os veleiros.

Um dia, voltamos da praia e o botinho do MANTRA estava  “estacionado” perto da barraca de praia que usávamos para ir e voltar do veleiro. Isso significaria que o Helinho não estava no veleiro e nós esperaríamos até ele voltar para retornar ao MANTRA. Mas estranhávamos o fato do bote estar sem o motor. Como o sol já estava se pondo e nada do Helinho, Monclair decidiu pegar o pequeno bote e remar até o veleiro para pegar nossa necessair e toalhas para tomar banho, já que fazíamos isso na ducha externa de uma barraca da praia.

Quando voltou,  trazia nas mãos um bilhete do Helinho dizendo que teve que ir para Salvador com urgência, pedia para que tomássemos conta do MANTRA como se fosse nosso e retornaria em alguns dias. Parecia um sonho!!! Mas uma surpresa da “mão invisível”!!! Eu e o Monclair com um veleiro inteiro somente para nós na Bahia de Itacaré!!!

Nossa primeira noite já foi brindada com uma linda lua cheia, inacreditável! Não existia lugar nenhum no mundo melhor do que o MANTRA naquele momento. A lua iluminava a cidade que admirávamos de outro ângulo. A cidade estava viva e com o movimento típico do verão, mas nós saboreávamos o silencio. O único barulho era da água que batia levemente no casco, o único cheiro era do mar e da brisa que nos refrescava do calor da Bahia.

No dia seguinte, seguimos ao pé da letra o pedido do Helinho e tratamos o MANTRA como se fosse nosso. Eu Fiz uma super faxina interna, daquelas que o MANTRA nunca tinha visto igual. Desencardi todas as almofadas e etc. O Monclair também se dedicou a esse dia de arrumação e deu uma super limpeza na área externa e em tudo quanto é equipamento que era possível. Nesse dia, nem saímos do barco.

Aliás, durante os dias que estávamos “cuidando” do MANTRA, não fomos à praia e só saíamos para nos reabastecer de comida, água potável e vinho. Estávamos vivendo um sonho. Boa parte do tempo, nós nos entregamos à leitura dos livros que ele tinha abordo e me encantei por um livro que contava a história de uma família que tinha  passado 10 anos velejando o mundo - Dez anos no Mar. Era a família Shurmann!!  Heloísa Shurmann passou a ser meu ídolo, ela tinha largado tudo e se “largado” pelo mundo com o marido e os filhos a bordo de um veleiro. Ou seja, era possível e eu também queria fazer o mesmo.

Helinho voltou, ficamos mais alguns dias por lá. Monclair foi selecionado para trabalhar na operação de mergulho em Fernando de Noronha, eu tinha embarcação agendada para Abrolhos e Helinho retornaria com o MANTRA para Salvador. Nós nos despedimos novamente e tocamos cada um para o seu destino. A promessa do vinho foi mais uma vez reforçada. Desde então, estava decidido, um dia vamos velejar o mundo!!!