Travessia para Abrolhos de Canoa Havaiana - Canuí/Família MonPat

            Monclair começou a remar com a Diana Nishimura em 2001, quando começou na Corrida de Aventura, desde então, ele sonha em ir para Abrolhos remando. No inicio, era um projeto solo, depois ele compartilhou com a Diana e começaram a vislumbrar a possibilidade de ir de caiaque duplo, até que ano passado, tiveram a ideia de ir de canoa havaiana.

            Quando moramos em Caravelas no inicio dos anos 2000, trabalhamos com mergulho em várias embarcações e então, fiquei responsável por encontrar um barco para dar apoio para a canoa e organizar essa logística lá, na verdade, ADORO fazer isso! Logo sugeri um live aboard de três dias, que em minha opinião, é a melhor forma de visitar Abrolhos, e já comecei a fazer contatos com meus amigos de Caravelas.

            Optei pelo Catamarã Horizonte Aberto, a melhor embarcação para ir para o arquipélago - me perdoem os outros barcos, que também são ótimos, mas sempre adorei trabalhar no Horizonte Aberto. Entrei em contato com a Jacqueline, dona do catamarã com antecedência e fechamos o barco só para a gente. Super atenciosos, entenderam nossa necessidade de sair às 05:00 da manhã, assim como outras necessidades especiais, como acompanhar a canoa na travessia.

            Enquanto eu cuidava da logística da Bahia, Diana e Monclair organizavam a logística da canoa e escolhiam a dedo os canoeiros que eles convidariam para essa travessia. Pouco a pouco, o grupo foi se formando de pessoas incríveis, que por alguma conspiração favorável do universo nos colocou juntos para viver aqueles momentos especiais.

            Fomos de carro e antes de seguir para pousada, demos uma volta em Caravelas, mostrando mais uma vez para as crianças onde morávamos, onde trabalhávamos, onde comíamos, como se fosse a primeira vez e elas olhavam com atenção. Caravelas é uma cidadezinha no extremo sul da Bahia, fundada em 1581, com suas casinhas coloniais e estilo de vida que parecem ter parado no tempo. Toda vez que voltamos lá temos essa sensação. Dizem que depois da desativação da Estrada de Ferro Bahia-Minas, a cidade foi perdendo a importância econômica.

           Eu e o Monclair fomos pra lá pela primeira vez em 1999, porque lá também é o principal ponto de embarque para Abrolhos, onde, como eu disse anteriormente, trabalhamos como guia de mergulho por duas temporadas.

            No dia 07 de janeiro todos nós chegamos na Pousada das Sereias na Praia do Grauçá em Barra de Caravelas, distante 10km de Caravelas -  lugar ideal para a canoa partir. Somente nesse dia, todos se conheceram, a maioria já se conhecia, mas nem todos. O grupo estava formado! Além da Diana e do Monclair, completavam a equipe de canoeiros a Lidiane (RJ), o Craig (EUA), o Guilherme, o Gugu e o casal Raphael e Thaísa, todos de Brasília. Cecília, uma fisioterapeuta que trabalha com o Gugu, aproveitou a oportunidade de ir para Abrolhos. Natália, Rafael (meus filhos), Cecília e eu, mesmo fazendo o apoio, fazíamos parte da “Categoria turismo”.

            O dia seguinte (08/01) foi para montar e testar a canoa; buscar informação com os pescadores e amigos locais sobre  as condições de mar e vento; pegar os equipamentos de mergulho no escritório do Horizonte Aberto, onde fomos recebidos com muito carinho pela Jacque; carregar o barco; preparar todo o equipamento e descansar para a aventura que estava por vir.

            No dia 09 de janeiro, às 04:00, conforme combinado, o Marquinhos da Pousada chegou para preparar o café da manhã especialmente para gente. Uma ansiedade boa estava no ar, aquela sensação de que todos participariam de alguma coisa incrível, um misto de adrenalina e felicidade.

            Às 05:15, a canoa saiu da praia. Dentro dela seis corajosos canoeiros se distanciavam da margem em direção ao azimute proposto pelo mestre do Horizonte Aberto. Monclair e Diana rumavam para a realização de um sonho antigo.  Eu, as crianças, Cecília, Guilherme e Gugu fomos para Caravelas de carro para pegar o catamarã e encontra-los no meio do caminho, ao sul do Parcel das Paredes em um local conhecido como Ponta das Pedras.

 Ao chegar no barco, todos ficaram surpresos com as instalações do catamarã. As crianças já estavam indo para Abrolhos pela segunda vez e estavam bem “ambientalizadas”, rapidamente, se acomodaram para voltar a dormir na nossa suíte.

            Depois de uma hora de navegação, ouvimos Monclair tentar contato pelo rádio, que não funcionou. Tentamos contato de todas as formas, falamos com o Maurício na base do Sanuk em Caravelas, falamos com outros barcos, mas a comunicação com a canoa não era possível, não completava de jeito nenhum.

            Um tempo depois, recebemos o recado de um barco de pescadores, que tinha visto a canoa. Disseram que eles não estavam vindo na direção do ponto combinado e que rumavam direto para Abrolhos. O Tito, mestre da nossa embarcação, rumou o máximo possível sobre o Parcel das Paredes na direção que eles estariam indo para ver se conseguíamos avista-los, mas não vimos nada, era procurar agulha em um palheiro. Decidimos então, voltar para o azimute combinado e esperar que eles nos vissem. Deu certo! Eles nos viram e vieram ao nosso encontro para fazer o único revezamento da travessia de ida, exatamente como planejando.

            As 09:45, recebemos a canoa com muito entusiasmo e alivio, a pior parte já havia passado, agora nós conseguiríamos acompanhar  a canoa até chegar em Abrolhos, o que garantia segurança para os canoeiros completar os quase 70 km de travessia. Nesse momento, Gugu e Guilherme entraram na cana e Thaísa e Craig saíram.

            A chegada a Abrolhos para mim é sempre emocionante, imagina como não deve ter sido para eles depois de remar por oito horas! Foi uma delícia participar dessa conquista e poder ajudar de alguma forma. Os oito canoeiros estavam exaustos, mas muito felizes, uma energia que contagiava a todos, inclusive a tripulação, que vibrava com a gente. Aproveito a oportunidade para dizer que a tripulação foi incrível!! O apoio, paciência e carinho deles foram inacreditáveis. Gratidão do fundo do coração ao Mestre Tito, “Capitão” Natalino(marinheiro), Maria (cozinheira) e Mauro (Instrutor de mergulho).

            Todas as embarcações que chegam ao arquipélago recebem uma visita de um voluntário do ICMBio, antigo IBAMA, para dar uma breve explicação sobre o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, assim como suas regras. Em 2001, eu tive a oportunidade de passar um mês em Abrolhos como estagiária voluntária e uma das minhas funções era essa, receber os barcos, dar a volta na Ilha Siriba e ajudar a anilhar os atobás. Aproveitamos a visita da voluntária para combinar a volta na Ilha no fim da tarde, ainda naquele dia mesmo. Essa é uma dica interessante, sempre que possível, tentar fazer a visita na Ilha Siriba no fim da tarde para evitar o sol muito forte, o passeio fica muito mais agradável.

            O arquipélago de Abrolhos foi descoberto em 1503 por Américo Vespúcio e tem esse nome porque, quando as embarcações se aproximavam, os navegantes gritavam “Abra os olhos” por causa das formações de corais. É formado por cinco ilhas - Santa Bárbara, Sueste, Redonda, Siriba e Guarita. As visitas são permitidas na Siriba e Santa Bárbara, com acompanhamento e autorização.

            Sou suspeita, mas adoro descer na Siriba, me traz recordações de um tempo de muita liberdade, muita realização, onde nosso único compromisso era com o presente. Caminhar na Ilha de rocha vulcânica entre ninhos de atobás é sempre mágico pra mim, não importa quantas vezes eu já tenha feito isso. Estar lá de novo com minha família era um sonho, poder proporcionar algo assim para as crianças é indescritível.

            Normalmente, o barco passa a noite na costa da Ilha Santa Bárbara que é mais abrigada do vento. Nossa pequena travessia de barco da Ilha Siriba para Santa Bárbara foi brindada com um maravilhoso por do sol. Exaustos, todos nós dormimos logo depois do delicioso jantar da Maria.

            Nosso dia em Abrolhos foi de pura diversão! Além da canoa havaiana, o trailer trouxe de Brasília dois surfs skis e um SUP que vieram a bordo do catamarã. Todos nós passamos o dia brincando com nossos brinquedos de adulto e mergulhando, alguns de scuba, alguns de snokle, ora um, ora outro. Pensa numa galera Endless pilha!

            No fim da tarde, descemos na Ilha Santa Bárbara, a única ilha habitada no arquipélago. É uma base da Marinha do Brasil e por isso tem algumas casas onde os oficiais passam 4 meses em regime de revezamento. Uma das casas é cedida para o ICMBio, onde ficam hospedados o monitor e seus voluntários. Claro que fui visitar a casa e dar um beijo na Berna, monitora que cuida do parque desde antes de eu ser voluntária.Na foto, estou apontando a janela do quarto que eu fiquei hospedada em 2001. É sempre uma emoção nostálgica descer naquela ilha. 

            Na época que fiquei lá, não era permitida a visita a Santa Barbara, hoje, basta o mestre pedir autorização que um oficial da marinha nos recebe no fim da tarde, nos mostra parte da ilha e nos leva para conhecer o lindo farol de ferro inaugurado no reinado de D. Pedro II. Podemos subir no farol e vê-lo sendo aceso. Dessa vez, estávamos em um grupo de três barcos para a visita, então, somente as duas crianças mais novas, puderam acender o farol, uma delas foi o Rafael.

            Vimos o por do sol de cima do farol, um espetáculo da natureza ver o sol se despedir atrás da Siriba no Oceano Atlântico.

            A noite, o Tito ainda levou parte do grupo para um snorkle noturno para acabar de gastar o resto de energia que ainda sobrava. Depois do jantar, quase todos foram dormir. Diana, Monclair e Gugu extasiados comentavam como a energia do grupo e os dias vividos até então haviam sido incríveis, como havia dado tudo certo. Gratidão, Papai do Céu.

            Nosso terceiro dia em Abrolhos começou às 04:00. Maria já tinha preparado carinhosamente o café da manhã, a tripulação estava toda de pé e prontas para ajudar sempre. Últimos preparativos, canoeiros visivelmente cansados se organizavam para encara mais quase 70 km de mar remando. Dessa vez, acompanharíamos durante toda a travessia e faríamos quantos revezamentos fossem necessários.

            Monclair saiu fazendo o leme e ter que ficar olhando para a bússola o fez enjoar mais do que o normal e uma hora depois do inicio pediu revezamento. Rafael o substituiu e Diana voltou para o leme da canoa.

            Quando Monclair melhorou, voltou para a canoa com o Craig e a Thaísa e o Guilherme saíram. Algum tempo depois, saiu o Raphael e voltou o Guilherme para a canoa até chegar na Barra do Tomba, já na boca do Rio Caravelas onde combinamos de parar para almoçar. A volta estava bem mais puxada do que a ida, com fortes ventos contra.

            Faltava pouco mais de 3 km, com vento contra novamente, até chegar na Praia do Grauçá, ponto de partida. Lá, eles concretizavam a 1ª Travessia ida e volta de canoa havaiana para Abrolhos. Diana e Lidiane, foram as únicas a remarem durante 100% da travessia.

            Mais uma vez a tripulação do Horizonte Aberto nos surpreendeu com tamanha dedicação e avançaram o máximo possível com o catamarã entre o Grauçá e o Pontal do Sul, onde o “Capitão” me levou de bote até a praia só para eu poder registra a chegada deles na praia. Nunca tinha visto uma embarcação como aquela passar por ali.

            As crianças continuaram no catamarã com a Cecília e Gugu, nos encontraríamos em breve no píer em Caravelas.

            A chegada à praia foi mais um episódio emocionante dessa aventura. Gratidão a tripulação por ter tronado esse registro possível. Missão cumprida, sonho realizado!

            Parabéns canoeiros e gratidão a todos que participaram de alguma forma de mais essa viagem inesquecível!

OBS.: Com as fotos e vídeos que fizemos na maior parte com nossos celulares, editei muito amadoramente, esse vídeo para dar de presente para os canoeiros e compartilho aqui com vocês. www.youtube.com/watch?v=rG2WfS1VJF4&feature=youtu.be