VIAJAR SEM FILHOS

                Viajar sem filhos, pode? Em minha opinião, não só pode como deve. Vou compartilhar minha experiência com vocês.

                Quando Natália nasceu, eu e o Monclair já acumulávamos 10 anos juntos com uma vida repleta de liberdade e viagens sempre que possível. Ter filhos foi uma decisão tomada desde sempre, só não queríamos antes dos 30, pois saberíamos que muita coisa mudaria com a chegada deles. Mesmo sabendo disso, e principalmente, depois de tanto tempo juntos, só nós dois, a chegada da Natália foi muito impactante em nossas vidas. Com certeza, realmente, muita coisa mudou de lá pra cá. Nossos custos aumentaram na proporção que nossa liberdade e viagens diminuíram.

                    Ter filhos é incrível, nunca imaginei amor maior. Sabe quando te dizem que você só vai entender quando tiver um? Concordo plenamente, esse amor que nasce no nosso coração junto com aquele bebezinho é inimaginável até que você tenha o seu, e o mais legal é que é um amor que cresce a cada dia, a cada momento.

                    Natália ainda não havia completado 6 meses de vida quando tivemos nossa primeira oportunidade de viajar. Alugamos uma casa com amigos no Farol de Santa Marta em Santa Catarina para passar mais um réveillon (super recomendo). Foi maravilhoso, ela já se mostrou uma excelente viajante, se adaptando muito bem a nossa forma mais descolada e barata de viajar e foi muito boa essa experiência de viajar com ela, uma experiência diferente de viagem.

                    Como disse acima, ter filhos é incrível e viajar com eles também. São momentos únicos e muito valorosos que passamos juntos enquanto viajamos. É como se fossemos para outro “mundo”, onde podemos nos dedicar um ao outro e as novas experiências que compartilharemos juntos. Mas mesmo assim, não podemos ser mãe e pai 100% do tempo, é muito importante termos tempo para nós mesmos, para o casal, inclusive para sermos melhores pais.

                    Lembro uma vez minha sogra falando que temos que amar e nos dedicar muito aos nossos filhos, mas temos que lembrar que eles são passageiros em nossas vidas, não são propriedade nossa e que temos que cuidar do que escolhemos que seja para sempre também, como nosso relacionamento. E é verdade, eles chegam de repente, demandando muito de nós, vão crescendo, amadurecendo, ficando cada vez mais independentes e vão embora, traçar seus caminhos, viver suas vidas.  E quando isso acontece, muitas vezes, o casal já nem se reconhece mais, não cultivaram aqueles momentos de diversão juntos. É muito comum que, principalmente a mães, se anulem para se dedicar inteiramente aos filhos, param de se cuidar, param de sonhar, param de se sentir mulher... para ser exclusivamente MÃE.

                    Eu mesma tinha uma forte tendência a fazer parte desse grupo.  Uma vez, em 1998,  eu e o Monclair estávamos acampados nas margens do Mar da Galileia em Israel, mais ou menos no nosso terceiro mês de namoro, quando ele me perguntou: “Qual é o seu sonho?”. Eu respondi imediatamente: “Ser mãe!” Conversamos muito a respeito, pois ele dizia que “ser mãe” não poderia ser um sonho, poderia ser uma vontade muito grande, mas um sonho tem que ser alguma coisa que a gente realize, construa e etc. Ele completou dizendo que também queria muito ser pai, mas que isso não podia ser um objetivo de vida, mas parte da vida. Pensei muito sobre aquilo durante muito tempo e cheguei a conclusão que ele tinha razão e ter sonhos, ideias, objetivos eram muito importantes, inclusive para ser exemplos para nossos filhos.  

                Então, desde cedo, decidimos que depois dos filhos, nós dois viajaríamos uma vez por ano, sem crianças, para viver um momento nosso, do casal. E honestamente, não foi fácil rsrs. 

                    Nossa primeira viagem sem filhos foi passar um fim de semana na Chapada do Veadeiros, aproximadamente 3 horas de viagem de Brasília. A Natália tinha 8 meses, já se alimentava muito bem, mesmo só tendo conhecido o leite materno até os 6 meses de idade. Fomos deixa-la na casa da minha mãe e pegamos a estrada em direção a Vila de São Jorge. Chorei a maior parte do caminho me considerando a pior mãe do mundo e não tínhamos nem a opção de leva-la, pois reservamos uma pousada que não aceitava crianças. Com o passar do tempo, fui me acalmando e tentando curtir aquele momento com menos culpa. Lembrava de como recriminava as minhas amigas mães que deixavam seus filhos com suas famílias para passar um fim de semana na Chapada ao invés de leva-los. Estava lidando com um mega conflito interno.

                 Chegamos, nos instalamos, comemos e dormimos a noite inteira e acordamos depois das 6 da manhã! Isso mesmo, DORMIMOS A NOITE INTEIRA!! Parecia um sonho, nenhum choro, nenhuma mamada noturna, nenhuma troca de fraldas e melhor, acordamos super dispostos quase 9 da manhã. Nossa sensação era de que existia vida depois dos filhos! Fizemos a trilha para as cachoeiras do Parque Nacional, encontramos amigos, exatamente como fazíamos antes, foi uma delícia! A segunda noite, senti falta de acordar com o chorinho da Natália e para falar a verdade, as 6:30 já estava acordada...  Fomos para outra cachoeira no domingo e ao chegar na Vila, já estava com vontade de voltar pra casa e pra nossa bebê. Nossos planos eram passar em mais uma cachoeira na segunda-feira antes de voltar para Brasília, mas acordei com os peitos inchados, como um aviso biológico de que já era hora de voltar e Monclair concordou sem objeções.

                    No carro, conversávamos de como tinha sido importantes aqueles momentos juntos, dedicados a nós dois e que manteríamos o acordo de uma viagem de casal por ano. Depois nasceu o Rafa e aos poucos fui me acostumando com esses dias por ano longe deles e mais do que isso,RECOMENDO. É importante para mim, pro Monclair, pro casal e para as crianças, que aprendem a viver, mesmo que por poucos dias, sem a gente e todos respeitando a individualidade e a necessidade de cada um.

                    Existem viagens e viagens, escolhemos viajar sem as crianças quando vamos para festivais de música, quando vamos a cidades onde andaremos muito em igrejas e museus e etc, quando podemos estender uma viagem de trabalho, quando vamos simplesmente descansar, sem hora para acordar, dormir, comer, etc.

                    Meu máximo são 10 dias e o ideal são 7, mas acredito que cada um vai encontrar o tempo necessário para suas demandas internas e para o casal. Pra mim, quando chega o sétimo dia, a saudade vai apertando, me dá uma vontade de voltar e começo a imaginar as crianças em todos os lugares que vamos, tipo “O Rafa iria adorar brincar aqui”, “Aquela menina me lembra a Natália”, “Imagina as crianças nesse museu” rsrs  Outra parte boa disso, é que já começo a planejar a próxima viagem, mas dessa vez, com eles.

                    Hoje, as crianças estão com 8 e 6 anos, nossa última viagem de casal foi no ano passado, fomos mochilar por 10 dias em Cuba. Nessa ocasião, as crianças foram passar 8 dias em Gramado e Canela com minha prima e minha tia que moram lá, foi a primeira experiência de viagem deles sem a gente e eles simplesmente  ADORARAM.

Se somos cidadãos do mundo, temos que criar nossos filhos para que também sejam.

 

IMPORTANTE:

- Só é possível viajar sem filhos se você tiver alguém de extrema confiança para ficar com eles, caso contrário, não vale a pena, porque você não vai conseguir ficar tranquila para aproveitar esse momento.

- Não esconda a viagem das crianças. Nós sempre conversamos com elas desde o planejamento: explicamos por que vamos viajar sem eles, qual a importância disso, quantos dias ficaremos fora, para onde vamos, com quem eles ficarão e tudo mais que eles quiserem saber. Nossa viagem não pode parecer um castigo por motivo algum, eles não podem se sentir traídos e nem abandonados, mas sim contribuindo para um momento especial só da mamãe e do papai.

Para ler mais:  

Compartilho nossa viagem a Cuba aqui no blog, ainda não acabei de escrever o DAY BY DAY, mas já tem umas dicas interessantes: https://www.familia-monpat.com/velejar-o-mundo-/cuba-2016/. Agora, com esse post, vou ter que acabar de escrever logo rsrs.