Dia 01 - HAVANA

        Nossa ideia era fazer Cuba de mochilão, nossa forma favorita de viajar, e optamos por reservar somente nossa primeira casa e deixar as coisas acontecerem, nos permitir viver 10 dias 100% no flow. Queríamos ficar em casas particulares na maior parte das vezes, mas para primeira casa, escolhemos o Hostel Casa de Ania, para conhecer gente e trocar informações, como fazemos quando mochilamos por aí. Encontrei o Hostel no Airbnb e entrei em contato, Ania me informou que não tinha disponibilidade para gente naquela data, mas que teria um quarto de casal disponível na Casa de Ania 2, no Centro Havana. Toda a comunicação foi por e-mail (Ania Ramirez  - anyvirgo@hotmail.com ) e a própria Ania providenciou um taxi oficial para nos pegar no aeroporto por 25 CUCs.

        Chegar ao aeroporto em Havana já dava um gostinho do que estava por vir. Um cheiro diferente e úmido. As paredes e tetos tinham uma decoração típica de alguma época antes da minha existência nessa encarnação, que combinavam tons de creme e vermelho. É, estávamos em Cuba! 

        Passamos pela imigração, pegamos nossas mochilas e o motorista do taxi já estava a nossa espera anunciando meu nome em letras maiúsculas na tela de um smartphone touch screen! Que contraste! Ele foi muito simpático, nos recebeu e fomos trocar dinheiro na casa de câmbio do aeroporto. Por recomendações, trocamos apenas  50 euros por que nos avisaram que lá seria muito mais caro, mas mais tarde, pagamos o mesmo valor no banco em Centro Havana.

         Os taxis oficiais são carros bem mais novos do que esperávamos encontrar em Cuba, e normalmente mais caros, mas o valor cobrado do aeroporto para Centro Havana varia de 25 a 30 CUCs, independente do carro. O motorista foi muito atencioso e não sei se de propósito ou não, no carro tocava musica instrumental brasileira, e foi ouvindo bossa nova que tivemos nosso primeiro contato com a cidade de Havana.

 

        Chegando à Casa de Ania 2, que na verdade é um apartamento em um prédio de Centro Havana, fomos recebidos por Susy, que era responsável pela limpeza e pelos hospedes. Ela nos apresentou nosso quarto, com TV, ventilador, ar condicionado, cama de casal e armário. O banheiro era compartilhado com o outro quarto, mas só havíamos nós dois no momento. O apartamento era uma gracinha e bem limpo, mas não era nada do que eu esperava de um hostel onde eu conheceria pessoas que me dariam dicas de Havana :/ . Era uma casa de família, sem a família... Passada essa frustação inicial, reconhecemos que ali estava ótimo! Limpo, bem localizado, 25 CUC o casal! E ainda serviam café da manhã por 3,5CUCs. 

        Estávamos famintos e a moça da casa nos recomendou um restaurante próximo, que segundo ela, era “Econômico e rico!”. Eram as palavras que precisávamos ouvir: próximo, barato e gostoso. Andamos poucos quarteirões até a Cafeteira La Juliana, que fica na Calle Zanja com a San Nicolás, no Centro Havana, de frente para o Bairro Chino. O movimento na porta é uma boa demonstração da aprovação local pela comida, que realmente é gostosa. Nesse dia comi espaguetti e o Monclair um prato de carne suína, arroz moro, salada e uma espécie de batata doce.

        De lá fomos direto ao banco trocar mais euros. Eu fui barrada na porta por estar usando short. O Monclair estava de bermuda, mas ele podia entrar, eu só poderia se estivesse vestindo saia ou calça, independente do cumprimento da saia, vai entender... Aproveitei para dar uma andadinha e sentir a cidade sozinha. Era claro que não estávamos em um bairro turístico (oba!), muitos cubanos e pouquíssimos estrangeiros na rua. Os prédios literalmente caiem aos pedaços e os mercados expõe meia dúzia de coisas para vender e sem variedade de marca, como se não fizessem estoque. Nos vãos dos prédios que já desabaram internamente, surgem pequenos comércios e em todos os lugares vemos imagens de Che.  Fui até o Bairro Chino e resolvi voltar e aguardar o Monclair em frente ao banco para a gente não se perder, uma vez que nossos celulares estavam sem serviço em Cuba.

        Parada em frente ao banco, ainda estava completamente encantada com a quantidade de carros da década de 50 circulando na rua, entre outros carros velhos e bicitaxis, quando um rapaz começou a conversar comigo. Seu nome era Mena,  era um cubano, professor de Salsa e Rumba na Casa De La Música que ficava ali perto e estava me convidando para ver o show. Ele ficou muito animado por eu ser brasileira, pois segundo ele, tem uma namorada brasileira que veio a Cuba duas vezes e a última foi para o show do Rolling Stones e hoje, ele espera que ela volte para seu aniversário. Fez questão de aguardar o Monclair sair do banco para nos levar até a porta da tal casa de shows. Durante nossa conversa, aproveitei para perguntar como eu fazia para usar a internet e ele disse que nos levaria uma praça que tem o sinal e que era no caminho.

        Parece que Cuba hoje vive basicamente do turismo e por causa dele, a empresa de telecomunicação local, a ECTSA, instalou antenas de internet em alguns hotéis e praças públicas. As pessoas compram um cartão com um login e senha que dão direito à uma hora de sinal. Ao chegar a tal praça, Mena começou a perguntar quem vendia “las tarjetas” , dois homens falaram que vendiam por 3 CUCs, mas ficamos desconfiados e decidimos não comprar. Fomos então até a porta da tal Casa de La Música, onde cubanos compravam ingressos para a matinê que começaria às 17:00. Agradecemos e dissemos que não era a opção de hoje, mas que voltaríamos. Na verdade, nunca voltamos...

        Retornamos para a tal praça que chama Parque Fe Del Vale, que apelidamos carinhosamente de “Praça da Internet”, pois todos que estavam ali estavam vidrados em seus smartphones e navegando na rede. Mais um grande contraste entre aqueles prédios caindo aos pedaços. De lá seguimos pelo Boulevard San Rafel em direção a Havana Velha, mas completamente sem destino. No autentico estilo “Deixa a vida me levar”.

        Andamos até o Parque Central, uma praça com uma estatua de San Martí no centro e hotéis tradicionais e de luxo ao redor, ao lado do Capitólio. Em volta da praça, muitos taxis de carros americanos, é o nome que eles dão para os Fords e Chevrolets dos anos 50. Continuam sendo a maior parte dos carros em Cuba e muitos são usados como taxi e para city tours. Uma City Tour de uma hora custa entre 25 CUC e 30 CUC, depende o do carro e do motorista. 

        Andamos para frente do Capitólio, que foi sede do Governo de Cuba e da Academia Cubana de Ciências, mas hoje está em reforma. É certamente é um dos pontos turísticos mais importantes da cidade. Dizem que seu desenho foi inspirado no Capitólio dos Estados Unidos em Washington, DC, e lembra mesmo, mas o arquiteto afirma que sua inspiração foi a cúpula do Panteão de Paris. Fiquei encantada com o prédio e com os jardins em volta do dele, independente de onde veio sua inspiração.

        Enquanto tirávamos fotos e admirávamos aquele imponente prédio histórico, tivemos contato com nosso primeiro Jiheiro. Os jiheiros sempre se aproximam como se quisessem ser nosso amigo para conseguir nos vender algo, principalmente charutos, rum e etc. Normalmente, o que eles vendem são de baixa qualidade, falsificados ou roubados, segundo informações dos demais cubanos. Era nosso primeiro dia e conscientemente nos deixamos levar por um deles para passar por aquela experiência cultural. Será que o Mena, o bailarino, também era um deles?  O fato é que o cara nos pediu para acompanha-lo para dentro de um prédio aos pedaços onde vivem algumas famílias em pequenos apartamentos, um verdadeiro cortiço. A fachada é de um prédio que já foi bonito um dia, mas que sofre com o abandono. Na última porta, em um apartamento muito pobre, outro homem nos apresentou as caixas de charutos Cohiba. Agradecemos, explicamos que não tínhamos dinheiro e deixamos o lugar em direção ao Parque Central.

        Monclair queria tomar um café, então paramos na Cafeteria Francesa ao lado do Hotel Inglaterra, um dos mais tradicionais da cidade e mega turístico. Aliás, a Cafeteria Francesa também era do tipo “pra turista” mesmo.

        O Hotel Inglaterra é o hotel mais antigo de Cuba e um dos mais clássicos também. Foi fundado em 1875 e está localizado entre o Paseo San de Martí (ou Paseo Del Prado), Parque Central e do Grande Teatro de Havana. A partir dali, começa Havana Velha e pode ser um ótimo ponto de partida para conhecer os encantos da cidade velha.

        Depois do café, voltamos para a Praça da Internet, sentamos em um dos bancos e observamos a movimentação, ainda um pouco desconfiados, mas curtindo mais aquela experiência cultural. Muitos cubanos lotavam a praça para usar a internet, nem eles têm noção da mudança que isso vai gerar no país, afinal de contas, agora eles têm uma janela para o mundo! Alguns sites são bloqueados pelo governo, mas eles têm acesso ao whats App e ao facebook, por exemplo.

        Voltamos ao hostel, mas eu estava querendo muito me conectar a internet para dar e saber notícias das crianças. Tenho uma prima que mora em Canela RS e nossos filhos estavam passando a semana com ela enquanto estávamos em Cuba, era a primeira vez que nossos mini viajantes faziam uma viagem sozinhos e eu estava ansiosa por notícias, apesar de saber que estavam muito bem cuidados. Então, decidimos voltar para a “Praça da Internet” e arriscar comprar uma daquelas tarjetas vendidas por lá. Estava insegura porque tinha visto em alguns blogs informações sobre essas tarjetas, mas elas eram uma espécie de cartão e o que eles vendiam por lá, era um pedaço de papel.

        Começou a chover no caminho de volta para a praça e ao chegar, nos abrigamos em baixo de uma marquise em frente a uma loja de ferragens e ferramentas, onde as demais pessoas que ocupavam a praça minutos antes se encontravam. Não encontramos ninguém vendendo “las tarjetas”, mas havia um homem vendendo sinal de um notebook, de forma meio clandestina. Como voltamos determinados a usar a internet desta vez, ariscamos com ele mesmo, comprei uma hora pelos mesmo 3 CUCs das “tarjetas”. Deu certo, mas o sinal era muito ruim, caia toda hora e tinha que pedir para ele reconectar. Não sei exatamente como ele conseguia aquele sinal, mas era claro que estava fazendo algo errado.

        Enquanto usava a internet, Monclair sentou no chão próximo a duas inglesas e começou a conversar. Quando acabou minha hora, feliz por ter visto fotos das crianças, me juntei a eles. Elas se chamavam Nicola e Amanda e já estavam em Cuba por seis meses. Segundo Nicola, elas trabalhavam um pouco na Inglaterra, juntavam dinheiro e passavam meses em algum lugar legal para viver. Já estiveram no Brasil e amaram fazer trabalhos voluntários em favelas do Rio. Trocamos algumas informações uteis e nos despedimos seguindo a Rua Galiano em direção ao Malecon.

        O Malecon é um enorme muro, de 8 km que foi construído em 1901 com o intuito de tentar impedir que o mar invadisse Havana.  O muro é largo e toda sua extensão é acompanhada por um calçadão, como o de Copacabana, mas sem praia. É um verdadeiro ponto de encontro dos cubanos, que ficam ali sentados conversando, principalmente no final da tarde.

         Antes de atravessar a Avenida Antonio Maceo, que se estende ao longo do Malecon, uma enorme escultura em ferro me chamou atenção. Seu nome é PRIMAVERA, uma obra de Rafael Miranda San Juan. Além de muito bonita, dava a impressão que estava no local que um dia foi um prédio que caiu. Depois percebi que isso era de certa forma comum, as casas e prédios desabam e no lugar, eles fazem uma praça, pois não têm matéria prima para reconstruir.

        Atravessamos a rua e estávamos no famoso Malecon. O lugar é realmente lindo, no entanto, como tinha acabado de chover, não tinha muita gente sentada no muro, como eu esperava ver, mas a vista era fantástica. Andamos em direção ao Castillo de San Salvador de la Punta, admirando as casas e prédios, ora em ruínas, ora lindamente restaurados. Eles foram construídos para atender a classe média do inicio dos anos 1900, mistura arquitetura neoclássica com a arte nouveau e nitidamente sofrem com a ação do tempo, dos ventos e da maresia. É perceptível que novas empresas e restaurantes estão aparecendo por lá, provavelmente por causa das reformas econômicas de Cuba, que agora permitem que os cubanos tenham empresas privadas. Observamos também muitas casas de família com cômodos para alugar para viajantes que querem conhecer a verdadeira Cuba, como nós. Normalmente elas têm um adesivo do governo que as identificam. Confesso que fiquei tentada a procurar uma delas quando voltássemos à Havana.

                Próximo ao Castillo de San Salvador de La Punta, construído para proteger a entrada da baía no inicio de sua história, cubanos pescavam, não sei se por lazer ou por necessidade. Tiramos fotos e seguimos rodeando o castelo, onde vimos canhões e vários monumentos, um dedicado aos estudantes de medicina e outro ao General Máximo Gomez, um herói da independência. Seguimos em direção ao Museo de La Revolucion, que já estava fechado naquela hora.  Nossa caminhada já havia nos levado a Havana Velha.

      
         A cidade de Havana pode ser dividida em três principais áreas: Havana Velha, Centro Havana e Vedado. Havana Velha é o bairro histórico de Havana, tombado pela UNESCO desde 1982; o Centro Havana, onde estamos hospedados, é uma área residencial e comercial, também histórica, mas não tombada e se encontra decadente e em ruínas; e o Vedado, é um bairro mais novo da cidade.
             Em um dos lados do Museo de La Revolucion, fica a Igreja Angel Custódio e fomos vê-la, mas estava fechada e para nossa surpresa, uma linda ruazinha de casas coloridas, uma belíssima escultura de mulher e um restaurante, bem para turista, com suas mesas e guarda-sol, compunham um cantinho completamente encantador, que me lembrava as pequenas cidades espanholas.
 
 

                Passamos novamente na frente do Museo de La Revolucion já retornando para casa, pois nossas barrigas nos avisavam que era hora de comer. Passamos então pelo Hotel Sevilla, que com sua arquitetura elegante, nos chamou a atenção. Enquanto tirávamos fotos, um “motorista” de bicitaxi puxou conversa conosco, conversamos um pouquinho e seguimos. Poucos metros depois, outro cubano, nos chamando de “brasileños” também puxou conversa e nos convidou para uma feira de charutos que acontecia todo ano naquele exato dia, oportunidade perfeita para comprar charutos baratos. Fiquei desconfiada, como ele sabia que éramos brasileiros?  Mas fomos com ele, chegamos a mais uma casa bem pobre onde um homem apresentou as caixas de charutos para o Monclair, como da primeira vez. Como fiquei na porta, uma mulher me chamava para entrar dizendo, “não precisa ter medo, é uma casa de família.” Não estava com medo, mas já tinha percebido que havíamos sido levados por mais um jiheiro e que ali não tinha feira nenhuma. Percebemos que eles agem de forma organizada, o cara da bicitaxi pega as informações como quem não quer nada e passa para o cara que nos aborda na rua.

                     A tal mulher estava assistindo televisão e ao saber que éramos brasileiros, entusiasmadamente, começou a elogiar muito as novelas brasileiras. Conforme os dias foram passando em Cuba, percebemos que todos eles amam as novelas brasileiras. Durante nossa viagem, a novela que estava passando era Império, que eu não assisti, o que causava grande decepção em todos. Só me redimia quando dizia que assisti Avenida Brasil, ufa!

                Mais uma vez, agradecemos, nos despedimos e fomos para o Paseo de Martí, também conhecido como Paso Del Prado. É uma grande calçada, lindamente arborizada que liga o Malecon perto do Castillo de San Salvador de La Punta ao Parque Central, dividindo Havana Velha e Centro Havana.

                Não passamos por nenhum lugar para comer que nos interessasse mais do que o La Juliana, então voltamos para lá 

para jantar antes de ir pra casa. Quando chegamos, nos informaram que o La Juliana tinha uma versão “pub” na porta ao lado, onde além de comer, poderíamos tomar mojitos! O lugar é fechado, tem ar condicionado, música ambiente e apenas nós de estrangeiros também. Dividimos uma pizza e tomamos mojitos observando um grupo de meninas cubanas na mesa ao lado, que pareciam ter mais dinheiro que a maioria dos cubanos que havíamos visto até então. Não esperava ver diferenças de classes em Cuba, mas conforme os dias iam passando, ficava clara que existia e era nítido.

                Depois dos mojitos, voltamos para casa para uma merecida noite de sono. Era nosso primeiro dia, ainda tínhamos uma cidade inteira para conhecer!

Gastos Dia 01

Taxi Aeroporto - Centro Havana: 25 CUCs
Casa de Ania ( hospedagem): 25 CUCs
1 Lata de cerveja na Casa de Ania: 1,50 CUC
Almoço La Juliana: 7,30 CUCs
Adaptador para recarregar os celulares: 2 CUCs
Internet: 3 CUCs
Café na Confeitaria Francesa: 1 CUC
Jantar com Mojitos na La Jliana: 12,10 CUCs
TOTAL DO DIA PARA NÓS DOIS: 71,90 CUCs 
 
Observação: Nós tínhamos 1.000 Euros para 10 dias, então, tínhamos um orçamento de 100 CUCs dia. Como bom viajantes , evitávamos gastar todo o orçamento do dia para termos pequenas reservas em ocasiões especiais, como entradas de museus e passeios, ou emergências.